Crítica: Harry Potter and the Cursed Child, o oitavo da saga

A oitava história é uma excelente experiência de nostalgia e mostra um lado de Harry Potter que jamais pôde ser explorado até então.

O oitavo livro da saga foi lançado dia 31 de julho - Divulgação/ND
O oitavo livro da saga foi lançado dia 31 de julho – Divulgação/ND

Para os leitores fiéis à saga de J. K. Rowling ou para quem foi marcado por seus personagens na infância, “Harry Potter and the Cursed Child – Parts One & Two”, lançado neste domingo, é uma excelente experiência de nostalgia. A obra, escrita em formato de roteiro para teatro por Jack Thorne, utiliza suficientemente os elementos estabelecidos por Rowling nos sete livros anteriores, publicados entre 1997 e 2007, e mostra um lado de Harry Potter que jamais pôde ser explorado até então: o pai de família. Pai de três filhos, o protagonista agora divide a ação com o seu filho do meio, Albus Severus Potter, que, logo no início, parte para o seu primeiro ano em Hogwarts. Dividida em quatro atos, “Cursed Child” começa durante o epílogo de “Harry Potter e as Relíquias da Morte” e não demora a reintroduzir os personagens já conhecidos: Harry, Ginny, Ron, Hermione e Draco. Todos agora beiram os 40 anos lidam com as responsabilidades que envolvem criar seus filhos.

O texto a seguir contém revelações sobre partes cruciais da história.

Quando Albus e seu melhor amigo, Scorpion Malfoy, filho de Draco, se juntam à nova amiga Delphi, os garotos decidem roubar um vira-tempo para voltar ao passado e tentar salvar Cedric Diggory de Voldemort. No entanto, acabam desencadeando o surgimento de realidades alternativas e descobrem como pequenas alterações podem mudar o rumo da história.

A oitava história no palco do Palace Theatre: Harry Potter (Jamie Parker) ao lado do filho, Albus (Sam Clemmett) - Divulgação/ND
A oitava história no palco do Palace Theatre: Harry Potter (Jamie Parker) ao lado do filho, Albus (Sam Clemmett) – Divulgação/ND

A sensação de revisitar as histórias anteriores, publicadas há mais de 15 anos, sob um novo ponto de vista, é como ler as cenas e os capítulos originais pela primeira vez. Eventos de “Harry Potter e o Cálice de Fogo”, principalmente, são presenciados por Albus e Scorpion, e ganham novas reviravoltas. As viagens no tempo vão além: as realidades alternativas permitem encontrar personagens mortos no presente. Do emocionante cooperação de Snape – uma das figuras mais cultuadas pelos fãs – à participação de Cedric no terceiro ato, os frequentes retornos de personagens são como brilhantes acenos para o leitor já fiel à trama.

É interessante salientar como o cânone da série é utilizado, já que o roteiro faz referências aos filmes e até mesmo aos videogames. A menção aos feitiços Bombarda, introduzido no terceiro filme, e Flippendo, magia memorável para quem jogou “Harry Potter e a Pedra Filosofal” no início dos anos 2000, indicam o aval de Rowling para a introdução dos mesmos.

Da esquerda para a direita: Draco (Alex Price), Ron (Paul Thornley), Hermione (Noma Dumezweni), Harry (Jamie Parker) e Ginny (Poppy Miller) - Divulgação/ND
Da esq. para dir.: Draco (Alex Price), Ron (Paul Thornley), Hermione (Noma Dumezweni), Harry (Jamie Parker) e Ginny (Poppy Miller) – Divulgação/ND

 Faltou apenas a participação da vasta classe de criaturas mágicas – com exceção do humanoide centauro Bane, que tem uma breve participação. A ausência, entretanto, é perdoável: a tarefa de povoar o palco da peça teatral com hipogrifos ou dragões realísticos poderia ser desastrosa. Além disso, o filme “Animais Fantásticos e Onde Habitam”, agendado para chegar aos cinemas em novembro, promete estender o mundo bruxo e se servir das diferentes espécies.

“Cursed Child” abre espaço para a abordagem de conflitos familiares e reforça as diferentes infâncias e percepções de Harry e seu filho, que tem dificuldade para fazer amigos. Além disso, Albus odeia Quadribol e a vila Hogsmeade, duas das principais paixões do pai durante a vivência em Hogwarts. Harry, portanto, luta para se comunicar e demonstrar o seu amor para o filho – a grande sacada da trama. É realçando a existência de falhas em todas as pessoas que a obra resgata o time de personagens já conhecido e humaniza a nova geração do mundo bruxo.

Apesar de em alguns momentos denunciar que não foi completamente escrito por Rowling, o novo livro mostra um lado do protagonista que jamais poderia ter sido explorado quando ele tinha dezessete anos. A revelação de que a grande vilã, Delphi, é filha de Voldemort com Bellatrix Lestrange é uma surpresa à la fanfics – histórias concebidas por fãs, que dominaram a internet durante a década de 2000 – e alguns diálogos expõem claramente a falta do toque peculiar de Rowling. O texto de Jack Thorne, apesar de ser baseado em uma história criada pela escritora britânica, por John Tiffany e por ele mesmo, se diferencia do material original na questão do formato – principalmente para os admiradores das descrições e ambientações de Rowling. No entanto, não se torna de fato incompleto para um leitor acostumado ao estilo dos sete romances consagrados. No final das contas, a mera existência de “Cursed Child” e o aval da criadora da saga tornam a leitura algo a ser celebrado.

O elenco da peça “Harry Potter and the Cursed Child” no Palace Theatre - Divulgação/ND
O elenco da peça “Harry Potter and the Cursed Child” no Palace Theatre – Divulgação/ND

De qualquer forma, a obra instiga o leitor a assistir à peça de teatro no Palace Theatre, que estreou neste sábado (30). As referências à apresentação presentes no livro – como o surgimento de Dementadores acima da plateia e a entrada de Voldemort pelo fundo do auditório – só reforçam a necessidade de presenciar a apresentação para viver a experiência completa. A revelação de desenhos de serpentes e palavras pintadas com tinta fluorescente nas paredes, por exemplo, pode ser imaginado pelo leitor apenas até certo ponto. Para os fãs de longa data, porém, é uma das cenas finais que deve trazer mais lágrimas aos olhos: o momento da morte dos pais de Harry em Godric’s Hollow é presenciado pelos personagens principais, que ficam diante da casa iluminada pela luz verde dos feitiços derradeiros. E assim como eles têm um vislumbre do emocionante acontecimento sem o poder de alterá-lo, com “Harry Potter and the Cursed Child” os fãs de saga podem voltar a ter um breve contato com o mundo que tanto amam – ao menos por algumas horas.

Nota: neste texto os nomes dos personagens foram mantidos como na obra original. No Brasil, Scorpion, Albus, Ron, Ginny e Cedric foram traduzidos nos livros originais como Escórpio, Alvo, Rony, Gina e Cedrico.

“Harry Potter and the Cursed Child” será lançado em português pela editora Rocco no dia 31 de outubro. No Brasil, o livro recebeu o título “Harry Potter e a Criança Amaldiçoada”.

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