‘O Homem do Norte’ traz vingança shakesperiana brutal com pano de fundo viking

Diretor de "O Farol" moderniza a lenda nórdica que inspirou a criação de "Hamlet"

Ao assistir O Homem do Norte, a expectativa era que eu visse um Robert Eggers mais pé no chão, optando por contar um drama histórico de vingança ao invés de seguir por sua veia sobrenatural já conhecida em trabalhos anteriores, como “A Bruxa” (2015) e “O Farol” (2019). Mas acabei me surpreendendo positivamente ao ver que o diretor não tinha abandonado sua assinatura para se tornar mais palatável como blockbuster.

Alexander Skarsgård como Amleth – Foto: Reprodução/Internet/NDAlexander Skarsgård como Amleth – Foto: Reprodução/Internet/ND

Apesar de começar com uma trama mais realista, aos poucos são colocadas referências de mitologia nórdica. A história, que foi uma inspiração direta para que Shakespere escrevesse Hamlet, conta a lenda do príncipe Amleth (Alexander Skarsgård), que presencia quando a criança o assassinato de seu pai, o rei Aurvandill War-Raven (Ethan Hawke), pelo seu tio Fjölnir (Claes Bang), e foge de sua terra, voltando anos depois para se vingar de seu tio.

Ao ler esse breve resumo, facilmente pode se pensar que Homem do Norte seria mais uma replicação da estrutura shakesperiana da obra de Hamlet. No entanto, Eggers consegue trazer um frescor com seu estilo único de fazer cinema.

A brutalidade e a bestialização do homem

Pela primeira vez, o diretor se vê dirigindo cenas de ações brutais, e pode-se dizer que ele acerta. Para fãs de séries como Vikings (2013 – 2020) e Game of Thrones (2011 -2019) é um deleite. Eggers não poupa esforços para mostrar um conteúdo gráfico forte, ambientando o espectador numa atmosfera de violência e bestialização.

Mesmo assim, o diretor não exagera no modo como usa os planos a ponto de estilizar a violência. Ela está presente no filme, que é bem gráfico nesse sentido, mas com um propósito para a narrativa.

“Bestialização” do ser humano é tema do filme – Foto: Reprodução/Internet/ND“Bestialização” do ser humano é tema do filme – Foto: Reprodução/Internet/ND

A transformação do homem em um animal irracional quando em guerra é referida desde o inicio do filme, quando o rei Aurvandill War-Raven faz o ritual de transformação de Amleth em “homem”. A cena conta com a presença do ator Willem Dafoe – que faz o bruxo responsável por conduzir o ritual – e em certo ponto ela se torna propositalmente ridícula. Já que durante o ritual, tanto o pai quanto o filho tem que se comportar como animais: uivando, rosnando e lambendo a tigela.

A animalização dos ditos guerreiros se faz presente durante todo o filme, de modo que se complementa a jornada de vingança que é estabelecida. Quanto mais Amleth se aproxima de seu propósito de vingança, mais se bestializa. “Você é uma besta envolta em carne de homem”, é dito ao protagonista.

A única peça da história que tira o príncipe desse processo de animalização é a feiticeira Olga (Anya Taylor-Joy). Mesmo que o objetivo de vingança tenha sido o motivo de união dos personagens, com ela podemos ver uma face mais esperançosa de Amleth, com perspectiva de ter alguém com quem se preocupe e confie.

Anya Taylor-Joy como Olga – Foto: Reprodução/Internet/NDAnya Taylor-Joy como Olga – Foto: Reprodução/Internet/ND

Desse modo, assistimos Skarsgård sempre num limiar entre homem e animal. O que faz com que o ator tenha que alcançar um equilíbrio entre demonstrar suas emoções de forma contida e ter um comportamento animalizado e exagerado.

O elenco, aliás, segura o filme perfeitamente, mas não entrega nada além do que necessário. Então se você espera um monólogo como o de Willem Dafoe em “O Farol”, talvez vá se decepcionar, já que o foco do filme não são as grandes atuações.

Nicole Kidman como rainha Gudrún – Foto: Reprodução/Internet/NDNicole Kidman como rainha Gudrún – Foto: Reprodução/Internet/ND

No entanto, caso fosse para escolher uma atuação que se destaca entre as demais seria a de Nicole Kidman como rainha Gudrún, mãe de Amleth. Em cena, a consagrada atriz domina a atenção, conseguindo passar com um olhar penetrante sua raiva, desespero e cinismo. Pode-se dizer até que seja a personagem com mais camadas em todo o filme, mesmo não tendo tanto tempo de tela.

Falha épica

Apesar dos acertos inegáveis de O Homem do Norte, o filme falha nos momentos em que tenta aumentar o escopo dos acontecimentos. A ação que pode ser vista como natural, visto que esse é o maior orçamento que  Eggers já teve (US$ 90 milhões).

O valor do filme é positivo quando vemos as brutais batalhas, que não seriam possíveis serem feitas daquele modo sem o investimento necessário. Mas afeta muito o ritmo do filme quando dá margem para Eggers exagerar no seu uso de simbolismos, tanto em quantidade quanto em escopo.

Robert Eggers abusa da sua assinatura e excede no uso de simbolismos – Foto: Reprodução/Internet/NDRobert Eggers abusa da sua assinatura e excede no uso de simbolismos – Foto: Reprodução/Internet/ND

A utilização dos símbolos nórdicos da cultura e mitologia como as valquírias, os bruxos e os deuses é interessante nos primeiros momentos. Mas o diretor parece se empolgar tanto em estar brincando com essas possibilidades, que faz questão de a cada minuto colocar algo que a referencie na tela, tempo que poderia se utilizado para desenvolver melhor os personagens.

Junto a isso, a edição contribui para que o filme canse o espectador. De modo que o filme inicia com fôlego total, mas a cada minuto que passa parece que vai se perdendo. Assim, aquilo que era para ser o momento mais épico do filme se torna frustrante e sem impacto.

Mesmo com esses defeitos, O Homem do Norte saí com um saldo positivo, sendo um dos filmes mais acessíveis de Eggers, podendo conquistar facilmente aqueles que se encantam pela mitologia nórdica e séries medievais.

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