30 anos do CIC – Um marco cultural em Santa Catarina

Prédio do Centro Integrado de Cultura de Florianópolis está prestes a completar três décadas de história

Elton Damasio / ND

Na fachada do CIC, a escultura “O Equilibrista”, de Paulo de Siqueira, é emblemática

Em 2012 o Centro Integrado de Cultura de Florianópolis, o CIC, completa 30 anos. À época da inauguração, em 14 de novembro de 1982, o prédio construído em concreto armado, estruturas independentes e pré-moldadas, num local até pouco tempo antes utilizado como horta dos detentos da penitenciária estadual de Florianópolis, na Trindade, causou impacto. Tanto pela arquitetura arrojada (sinônimo de modernidade no Brasil) quanto pela proposta de integrar em um mesmo espaço diferentes equipamentos culturais, o CIC representou e representa até hoje um marco importantíssimo para o exercício, debate e demonstração da cultura e da arte de Santa Catarina.

“Foi a partir da criação do CIC que se passou a desenvolver com mais afinco um olhar estético e crítico no âmbito das artes”, afirma Mary Garcia, diretora de difusão artística da FCC (Fundação Catarinense de Cultura) e funcionária do CIC há 28 anos.

No ano de sua inauguração, contudo, o novo centro cultural não foi bem recebido na cidade. “Primeiro porque destacou os equipamentos culturais localizados no Centro para a Trindade. Na época, a única coisa que existia no bairro era a universidade”, lembra a arquiteta Fátima Regina Althoff, uma das primeiras funcionárias. Ela começou atuar na área de conservação de patrimônio logo após a inauguração do prédio, e acompanhou as três décadas do CIC – do auge nos anos 1990 até o fechamento para reparos em 2008.

Há três anos e meio fechado para reforma – tempo que soa como piada se comparado ao tempo que se levou para construir o prédio inteiro nos anos 1980 (menos de dois anos), o CIC está prestes a ter um de seus melhores espaços reabertos ao público, o teatro Ademir Rosa. Com atividades interrompidas desnecessariamente, as obras no teatro começaram em outubro do ano passado. Há duas semanas do prazo final para fim da obra (a data divulgada no começo de agosto era 10 de setembro), ainda não está confirmada a atração da reabertura. O balé Bolshoi, de Joinville, é um dos cotados.  

Marco Santiago / ND

Arquiteto Marcos Fiuza foi um dos arquitetos que fez o projeto original do prédio do CIC

Toques de modernidade arquitetônica

Na época em que as vigas de concreto iam moldando o CIC, na Capital, o conceito de centros integrados estava em alta no Brasil, e em várias cidades brasileiras foram erguidos espaços similares. “O projeto lança mão de concreto, material com o qual arquitetos e engenheiros haviam começado a trabalhar há pouco tempo. Então trabalhamos com estruturas independentes e pré-moldadas”, explica o arquiteto Marcos Fiuza, 61. Ele e outros quatro arquitetos foram responsáveis pelo projeto inicial da instituição.

Segundo ele, a escolha do pré-moldado levou em conta, além do conceito de modernidade, a rapidez e o baixo custo. “E os espaços vazios foram pensados para serem comunitários”, diz. Já os jardins de inverno, espalhados por entre os 9.993 mil m² de área construída, foram projetados para serem finalizados com arte – e o são: os breves espaços verdes em meio ao cinza têm como extensão esculturas.

Há 30 anos, os arquitetos que projetaram o CIC já previam adequação às normas de acessibilidade, hoje garantidas por lei. Por isso o CIC desde o começo conta com rampas de acesso para quem tem mobilidade reduzida.  “Na época se estava começando também a usar materiais como blindex e o piso pluriforme”, diz Fiuza. Ele também explica o espaçamento entre os pilares do prédio. “O espaço entre cada pilar é de seis em seis metros – na época a medida máxima era de três metros. Isso confere certa mobilidade aos espaços, a possibilidade de levantar ou derrubar paredes.”

Marco Santiago / ND

Fátima Regina Althoff, do Atecor, é uma das funcionárias mais antigas. Ela lembra que na época da inauguração o CIC não foi bem recebido

Saudades do que nunca chegou a ser

 A maquete original do Centro Integrado de Cultura desapareceu há 15 anos. Restam nos arquivos do Deinfra (Departamento Estadual de Infraestrutura) os desenhos originais. Daquilo que foi primeiramente planejado, nem tudo foi executado. “No projeto original o CIC teria uma biblioteca. Seria uma aqui e outros braços no interior da Ilha. Mas não funcionou muito. Aqui as coisas estão muito estanques, e não era bem o foco”, lamenta o arquiteto do CIC, Marcos Fiuza. “Além disso, o prédio nunca teve a manutenção devida. Tudo foi se deteriorando, e havia coisas que nunca tinham funcionado bem”, continua ele.

Somente dois espaços permaneceram conforme o projeto original. Um deles é o Masc(Museu de Arte de Santa Catarina), localizado na ala sul do prédio, à esquerda. O outro, também na ala sul, é a Escola de Artes, que durante muito tempo foi responsável pela grande circulação de pessoas na instituição.

“A ala norte sempre foi espaço de ninguém”, observa Fiuza. É na ala norte, à direita, onde estão localizadas a sede da Fundação Catarinense de Cultura, o MIS (Museu da Imagem e Som), o Espaço Lindolf Bell e, antes da reforma, o Café Matisse. “Na minha opinião, o espaço do térreo deveria ser todo do povo. Um segundo projeto previa que a administração ficasse no segundo piso”, comenta Fiuza.

A área onde até 2008 funcionava o Café Matisse tinha sido planejada para abrigar um pequeno café. “O espaço Lindolf Bell era ocioso e acabou dando lugar ao Matisse. No projeto original, onde atualmente está o MIS, era para ser afinal o espaço Lindolf Bell, onde a ideia era abrir as portas para que o espaço se estendesse até o jardim.”

Ainda para a ala norte era prevista uma biblioteca – que acabou nunca acontecendo –,   sala de música e nenhuma previsão para sediar a administração da FCC.

Marcos Fiuza assina atualmente os projetos de reforma do CIC, e lamenta que muitas coisas não funcionem como deveriam funcionar no plano ideal e original. “É necessário ter movimentação para chamar as pessoas. O espaço tem que ser bem administrado para saber como usá-lo da melhor forma.”

Marco Santiago / ND

Para Teresa Collares, da FCC, o CIC era um dos melhores do país

Um dos melhores do Brasil

Para a analista técnica em gestão cultural da Fundação Catarinense de Cultura, Teresa Collares, 53, o CIC viveu seu auge nos anos 1990. “Tinham muitas oficinas. Em termos de espaço cultural, era um dos melhores do Brasil”, afirma ela, que trabalha há 28 anos no local. Teresa explica que o CIC é uma das 14 casas vinculadas à FCC. “Algumas dessas casas estão dentro do próprio CIC, como o MASC, por exemplo.”

 Criada em 1979, a FCC passou a ocupar um dos espaços da ala norte do CIC logo depois da inauguração, depois funcionou no mesmo prédio da SOL (Secretaria Estadual de Turismo, Cultura e Esportes). Para Fátima Regina Althoff, a transferência da administração da Fundação para lá não foi positiva. “Acho que a FCC perdeu a identidade vindo para o CIC, assim como CIC, em função disso, não tem tanta independência.” Fátima é atualmente uma das responsáveis pelo Atecor, o Ateliê de Conservação criado em 1985.

Iara Rosalina da Silva, 54, administradora do centro cultural desde 2006, não vê interferências, mas admite que a FCC necessitaria de uma outra sede. É ela quem relembra o nome oficial da instituição, Professor Henrique da Silva Fontes (1885 – 1966), figura ligada  à fundação da Universidade Federal de Santa Catarina.

O que todos os colaboradores mais antigos do CIC concordam é sobre o sucesso das oficinas de artes. Carlos Roberto Nascimento de Oliveira, 52, é professor de gravuras na instituição, um dos primeiros ofícios ensinados em oficinas, junto com cursos de materiais e serigrafias. “No começo tinha pouca procura. Já hoje tem até lista de espera”, diz.  Ele lembra de artistas que se consagraram na cena catarinense e que começaram nas oficinas do CIC, como Paulo Gaiad.

Formação de público

O jornalista e atual administrador do MIS (Museu da Imagem e do Som) Ronaldo dos Anjos, 58, também é um dos funcionários mais antigos. Começou primeiro como assessor de imprensa e em seguida entrou para Núcleo Documentação Audiovisual. Junto com Luiz Henrique Rosa (1938-1985), então funcionário da Fundação, organizava o material que se juntava em outras repartições e então o Núcleo absorveu esse serviço.

Somente em 1998 o Núcleo passou a ser o MIS, que guarda filmes de oito, 16 e 35 mm, audiovisual em fitas magnéticas, discos, livros, fotos e outros arquivos do Estado. Para Ronaldo, o que mais faz falta no CIC é um espaço de convivência como era o Café Matisse. “O Matisse reunia as pessoas, antes ou depois das agendas, e fazia com que permanecessem mais tempo aqui.”

Para Mary Garcia, diretora de difusão artística da FCC, o CIC é um marco definitivo para a compreensão do exercício da arte como um todo. “Tudo mudou, em todo Estado. Primeiro com a instalação do MASC, depois a criação de um cineclube.” Ela aponta o extinto cineclube Nossa Senhora do Desterro, administrado até 2008 por Gilberto Gerlach (reaberto em dezembro de 2011, o cinema do CIC é atualmente administrado por Frederico Didoné, do Paradigma Cine Arte), como responsável pela formação de um público aberto ao cinema de arte. “Por meio do cinema se vai desenvolvendo uma ideia crítica e estética das coisas.”

Marco Santiago / ND

Ronaldo dos Anjos administra o MIS (Museu de Imagem e Som), criado em 1998 no CIC
Marco Santiago / ND

Carlos Roberto de Oliveira é professor das Oficinas de Arte do CIC
Acervo MIS / Divulgação / ND

Localização e estrutura do CIC causaram estranhamento na inauguração

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