Sérgio da Costa Ramos

Escritor e jornalista, membro da Academia Catarinense de Letras, autor de doze livros de crônicas, e figurou na imprensa diária nas últimas duas décadas.


A liberdade de todos os dias

No século 19, a justiça da época obedecia aos costumes e punia um simples banho de mar. Era enquadrado nas penas das rigorosas “Posturas Municipais”

Não é só um certo tribunal de pedra que emite, hoje, em plena luz do dia, decisões liberticidas. No século 19, a justiça da época obedecia aos costumes e punia um simples banho de mar.

Era enquadrado nas penas das rigorosas “Posturas Municipais”. Com um calor de “rachar catedrais” (na expressão de Nelson Rodrigues), ainda assim os hábitos não permitiam ao vivente o “refrigério” de um mergulho na baía Norte.

Liberdade – Foto: DivulgaçãoLiberdade – Foto: Divulgação

Ar-condicionado, banho de mar e cervejota gelada. Nenhum desses três “refrigérios” existia. Ar-condicionado eficaz é “modernidade” do terço final do século 20. Cerveja é um “bem” ancestral , vem lá do tempo dos faraós – tudo bem. Mas a condição de hipergelada é “complemento” que dependia da fabricação de um excelente “freezer”e de bons compressores.

Quanto ao banho de mar…acreditem: era “proibido”. Imaginem um dia de calor intenso, como aqueles do verão pleno, lá pela segunda metade do século 19. Tirar a camisa e correr para um mergulho era “crime municipal”. Um crime contra as “posturas”, capitulado no artigo 86 do “Código de Posturas Municipais”.

A “Notícia Histórica de Nossa Senhora do Desterro”, de mestre Oswaldo Cabral, registra um interessante caso de banho “castigado”.- Na força do calor de 1857, quatro rapazes foram tomar banho de mar na Praia de Fora.

Um deles era filho do Administrador da Fazenda Provincial, Antônio Justiniano Esteves, o “moleque” que hoje empresta o seu nome à rua que termina justamente no local do seu delito: a rua Esteves Júnior…Pais severos eram a marca daquele século. E dizem que o jovem Esteves Júnior pôde sentir no próprio lombo o peso da mão paterna.

O artigo 86 simplesmente multava – “se fosse cidadão livre” – ou encarcerava, “se fosse escravo”, aquele “que se pusesse nu e assim se mostrasse nas praias e nas fontes, incorrendo “em ato escandaloso”, terminantemente proibido. Nu era qualquer espécie de “pouca roupa”.

Banhar-se sem camisa já era estar nu…Praia, definitivamente, não era lugar de passeio, nem de gente. Muito menos de aglomeração de pessoas seminuas.

No passado, ninguém jamais conceberia a idéia de sugerir a esse público que fosse se refrescar:-Vá tomar um banho de mar! Era o que de mais esdrúxulo poderia acontecer a uma pessoa no verão: pôr-se quase nua neste marzão de Deus. A liberdade de todos os dias é uma conquista em permanente construção. Ai do povo que deixar de cultivá-la por um só instante, relegando esse bem tão precioso ao arbítrio de algum tirano.

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