A sapatilha do ensino: a aluna que virou professora e viu sua vida mudar por meio da dança

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Na escola Bolshoi desde os 10 anos, Bruna Lorrenzzetti viu sua vida ganhar um novo significado ao descobrir que a dança é capaz de transformar realidades 

REPORTAGEM: Luana Amorim
EDIÇÃO: Raquel Schiavini Schwarz

Para homenagear a Escola do Teatro do Bolshoi do Brasil, que completa 20 anos neste domingo, dia 15, o nd+ preparou uma série de reportagens especiais que têm como protagonistas os alunos que tiveram suas vidas transformadas por meio da dança. É vida, é sacrifício e glória.

A sala de aula ampla já começa a receber os primeiros alunos para mais um dia. De cabelos presos e com o espírito de confiança, eles se reúnem no centro do local e começam a ouvir as primeiras instruções com olhar atento.

Bruna Naiara Felicio Lorrenzzetti, 29 anos: bailarina, professora, mãe e apaixonada pelo universo da dança – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND

A pessoa que rege essa verdadeira orquestra das sapatilhas sabe bem como é esse sentimento. Não há muito tempo, ela já esteve do outro lado: entre uma pirueta ou outra, rodando pela sala de aula e absorvendo toda a magia que a dança é capaz de proporcionar.

A mulher que embala a história de hoje não é daqueles casos em que a dança e, consequentemente, o balé sempre estiveram presentes no seu dia-a-dia. Muito pelo contrário. Ela se encaixa na categoria de pessoas que viram sua vida mudar por conta do poder da arte.

Essa pessoa é Bruna Naiara Felicio Lorrenzzetti, de 29 anos. Bailarina, professora, mãe e apaixonada pelo universo da dança.

A oportunidade que nasceu por acaso

Com 10 anos, Bruna já sentia no sangue que seu lugar era no mundo artístico. Moradora do bairro Itaum, na zona Sul de Joinville, a pequena Bruna, desde pequena, se interessou por “coisas artísticas”, apesar de nunca ter acesso a espaços culturais por conta das condições financeiras da família.

Porém, um certo dia, um anúncio acabou despertando o interesse da pequena: a vinda da Escola Bolshoi, primeira unidade da tradicional companhia russa fora do país. Mesmo sem nunca ter feito aulas de ballet, os olhos da pequena brilharam ao ver a oportunidade de mudar de vida.

“Resolvi me inscrever. Porém, na primeira vez, eu não consegui”, relembra. O sentimento de incapacidade acabou atingindo a jovem na primeira recusa, o que fez com que ela abandonasse o sonho por um tempo.

Mas a “chama” da dança ficou apagada apenas por alguns meses. Com a chegada da escola na cidade, outras unidades passaram a oferecer aulas de dança para as crianças. No colégio de Bruna, por exemplo, uma professora começou a dar aulas de jazz aos alunos como forma de motivá-los.

Em um primeiro momento, Bruna não participou das aulas, pois achava que não tinha capacidade. Porém, com um empurrãozinho do destino, o sonho voltou a preencher a mente da pequena, que, meses depois, viu ele se tornar realidade.

Bruna ainda pequena na Escola do Teatro Bolshoi do Brasil – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND

“Depois de um tempo, me convenci que deveria fazer as aulas. Foi, então, que em 2000 eu fiz o teste e passei”, diz a professora ao relembrar o momento em que recebeu o resultado que mudaria para sempre a sua vida. 

No ano seguinte, Bruna ingressou na escola e por lá permanece até hoje. Nos corredores e nas salas de aula, ela teve contato com as mais variadas técnicas, artistas e atividades que ajudaram a construir a identidade da bailarina.

Nestes oito anos (de escola), eu tive muitos privilégios e conquistas que só consegui graças à escola. Além das viagens e apresentações, tive contato com a arte que eu não teria se estivesse na escola regular.”

Além das aulas de ballet, Bruna destaca que a rotina de um aluno da escola acaba transformando o olhar da pessoa. Não só isso. Acaba contribuindo para a construção da personalidade.

“Ser bailarina não é só fazer aulas, mas é ser, é viver, respirar a arte que muda sua vida. Eu podia não ser a melhor, mas sempre me destaquei pela personalidade e dedicação”, frisa. 

Dos palcos às salas de aula

Ao longo dos oitos anos dentro da escola, Bruna mergulhou em vários estilos: além da disciplina de dança clássica, também fez aulas de dança à caráter, popular histórica, dramatização, história da arte, história da dança, danças populares, ginástica, literatura musical, piano entre outros.

Bruna mergulhou em vários estilos, como dança clássica, dança a caráter, popular histórica, entre outros – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND

Mas a bagagem artística de Bruna vai muito além de Joinville, já que ainda como aluna, em 2006, teve a oportunidade de dançar no palco do Teatro Bolshoi de Moscou, na frente de bailarinos como Natalia Osipova, Iavn Vassiliev, Marina Krisanova e Andrey Bolotin.

“Quando a aluna, a oportunidade foi o momento em que me descobri. Quando estive lá, eu percebi toda a entrega corporal, física, emocional e espiritual dos bailarinos em cena. Então, foi um momento muito importante”,  relembra.

Bruna se formou técnica em dança clássica pelo Bolshoi em 2008. Porém, não deu nem tempo da bailarina sentir saudades do espaço. Já em 2009, ela passou a integrar a Cia. Jovem Bolshoi Brasil. 

“Ainda quando aluna, sempre tive o desejo de criar coisas, coreografar, ajudar e ensinar coisas. E dentro da Cia isso ficou ainda mais forte”, conta. E não demorou muito. Já que no ano seguinte, em 2010, Bruna passou a integrar o corpo docente da escola, lugar que permanece até hoje.

“Como professora, sempre tento repassar para os meus alunos o seguinte: seja o seu melhor, se construa como a pessoa ideal. Porque é isso que sempre tento buscar na minha vida, na arte e no meu cotidiano. E por isso tento levar isso para as crianças, de forma natural”, explica. 

A escola, inclusive, trouxe para a Bruna outra oportunidade de viver a arte do ballet no berço do Bolshoi. Em 2019, ela foi convidada a fazer um estágio na escola de três semanas, uma experiência que ela considera “intensa”. Na oportunidade, ela também permaneceu uma semana no Teatro e Escola Coreográfica de Perm, também na Rússia. 

Projeto social

Quase 20 anos depois, a paixão e o amor de Bruna pela dança continuam os mesmos desde o teste na escola. Porém, agora, todo o encanto pela dança é transbordado aos alunos da professora, nas disciplinas de Dança Clássica, Repertório, Dança Popular Histórica, Ginástica, Dramatização, e nas aulas teóricas de História da Arte e da Dança.

Além disso, fora das paredes do Bolshoi, Bruna também comanda um projeto social com o objetivo de levar a dança para outros públicos. O projeto Labart surgiu da ideia de oportunizar artistas, bailarinos, professores de arte, admiradores, pessoas que tenham o desejo de levar arte a quem não tem condições financeiras.

“Esse projeto foi criado junto com um amigo, que também se formou na escola. No projeto, existem 15 bolsistas que fazem aula de dança clássica e contemporânea. Estamos com uma nova proposta de trabalho que são os laboratórios. São momentos que nos permitimos ir além e nos entregar com mais profundidade a pesquisas, experimentos e até parcerias com outros artistas e profissionais para podermos expandir nossa visão e capacidade”, conta.

O projeto também tem como meta levar intervenções na cidade, asilos, orfanatos, patrimônios culturais, escolas e locais de menos acessibilidade da cidade. As ações, inclusive, têm inspirações nas atividades que também são realizadas no Bolshoi.

Mudança de vida. Esse é o principal sentimento que emana em Bruna após anos de história alinhada ao Bolshoi. Para ela, o local já se tornou uma segunda casa e os alunos, uma segunda família, que refletem sentimento de gratidão.

“Eu acredito que a vocação, o desejo e o dom vivem dentro da gente, mas sempre precisa de alguém ou algo que desperte e mostre o caminho para ser seguido, e foi isso que a Escola Bolshoi fez na minha vida. Foi esse mediador para realizar esse sonho que eu nem sabia que existia dentro de mim”, finaliza.