Marcos Cardoso

A sociedade da Grande Florianópolis, os eventos culturais e as tradições da região analisadas pelo experiente jornalista Marcos Cardoso.


Artista de Florianópolis apresentará pinturas inéditas na França

Autodidata, seu trabalho pode ser visto em telas, grandes murais, roupas e produtos, no Brasil e no exterior

Nascido em Niterói (RJ), Thiago Viana de Azevedo Nogueira formou-se em publicidade e propaganda com ênfase em planejamento estratégico pela ESPM Rio (Escola Superior de Propaganda e Marketing/Rio de Janeiro).

Trabalhou em empresas de comunicação, escritórios de design e agências de publicidade até passar a se ocupar integralmente com a arte contemporânea.

Autodidata, em 2013, começou a pintar murais nas ruas de Curitiba, adotando o sobrenome artístico Thipan (inspirado na palavra indígena que significa o espírito da floresta, fio do encanto).

Em 2015, mudou-se para o Novo Campeche, em Florianópolis, onde projeta trabalhos de arte urbana e cria telas – duas delas serão apresentadas na exposição “Millecent Ways to Art”, de 10 a 22 de agosto, na galeria Rivoli 59, em Paris.

Aos 35 anos, aguarda completar a imunização contra a Covid-19 para poder passar pelas barreiras sanitárias e realizar trabalhos já aprovados ou em fase de aprovação no exterior.

Artista plástico Thiago Thipan, niteroiense radicado em Florianópolis desde 2015 – Foto: Divulgação/NDArtista plástico Thiago Thipan, niteroiense radicado em Florianópolis desde 2015 – Foto: Divulgação/ND

Por que saíste de Niterói?

Em 2011, me mudei de Niterói para morar em Santa Catarina, na cidade de Tubarão. Após alguns meses, a partir de um convite de trabalho, me mudei para Curitiba, onde morei por quatro anos antes de me mudar para Florianópolis. Em uma determinada idade, em minha opinião, o melhor a ser feito é mudar da casa dos pais para buscar novos horizontes e desafios necessários para o crescimento pessoal e profissional.

E por que escolheste Florianópolis?

Como bom carioca, minha paixão pelo mar é algo permanente, e com frequência passava férias de verão na casa de amigos em Florianópolis, enquanto morava em Curitiba. Foi a partir desta experiência que comecei a sonhar em ter meu ateliê próximo ao mar, e, em 2015, me mudei para morar no Novo Campeche, onde hoje tenho minha casa e espaço próprio de produção.

És autodidata?

Sim, me considero autodidata, pois iniciei os trabalhos de pintura mural de rua de maneira experimental. Desde mais novo, gosto muito do assunto arte de rua, e por isso dedicava tempo para pesquisar e acompanhar a produção e trajetória de artistas nacionais e internacionais dentro do universo do grafite, bem como dos antigos mestres da pintura. Em 2014, ao realizar uma viagem para pintar um trabalho em Belo Horizonte, aproveitei a oportunidade e fiz um curso de verão de alguns dias de desenho técnico e pintura para aperfeiçoamento e ampliação do olhar artístico.

Quais são os temas mais comuns em teus trabalhos?

Os relacionados à natureza, com certeza, são os mais frequentes. Entre composições de folhagens e animais, para falar de assuntos sobre preservação do meio ambiente e das espécies. Costumo variar para contar novas histórias e, a partir disso, criar novos diálogos, evidenciando assuntos que merecem atenção.

“Arara Grande Multicor”, tinta acrílica sobre tela para um colecionador – Foto: Divulgação/ND“Arara Grande Multicor”, tinta acrílica sobre tela para um colecionador – Foto: Divulgação/ND

Como defines a tua arte?

Minha arte pode ser definida como contemporânea, pois através das pinturas de mural de rua existe um questionamento do uso do espaço urbano e da relação do homem dentro desse ambiente. As pinturas de rua modificam o espaço urbano e dessa maneira, inevitavelmente, cria-se reflexão.

A pintura em paredes veio antes das telas?

Desde o início da minha caminhada artística, meu objetivo era ser reconhecido pelas pinturas de mural de rua. O propósito dos trabalhos é também de beneficiar os bairros com cores e, dessa maneira, criar um impacto positivo e cultural para a cidade. A pintura sobre tela veio um ano depois, como uma reflexão de utilizar um novo suporte para apresentar meu trabalho, para participar de exposições coletivas e individuais e, não menos importante, ganhar dinheiro através também da venda das telas.

Três versões da ilustração digital que Thipan criou em homenagem ao ator e comediante Paulo Gustavo, niteroiense como ele – Foto: Thiago Thipan/Divulgação/NDTrês versões da ilustração digital que Thipan criou em homenagem ao ator e comediante Paulo Gustavo, niteroiense como ele – Foto: Thiago Thipan/Divulgação/ND

O que pintas mais?

Procuro equilibrar a produção entre murais e telas. Acho que o que mais pinto são paredes, principalmente se for considerar o tamanho dos murais que costumam ser de grandes proporções.

Qual o maior trabalho de arte urbana que fizeste?

Acredito que o maior trabalho até o momento tem 17 metros de comprimento por seis metros de altura. Levei duas semanas para concluir essa obra que está localizada no Paraná na cidade de Cianorte. O título é “Circo, Dança e Ballet, Violas e Violeiros com Música de Raiz”.

Mural pintado em Cianorte (PR), em 2020, dá vida ao novo Centro Cultural José Sucaiar – Foto: Divulgação/NDMural pintado em Cianorte (PR), em 2020, dá vida ao novo Centro Cultural José Sucaiar – Foto: Divulgação/ND

Onde há trabalhos teus em Santa Catarina?

Em Balneário Camboriú, tem um mural grande próximo à entrada da cidade, na avenida principal, mas meus trabalhos de pintura mural de rua estão concentrados em Florianópolis, no Sul da Ilha, Lagoa da Conceição, Rio Tavares e Novo Campeche.

Florianópolis é um bom mercado para artistas plásticos?

Sim, considero um bom mercado pois existe um público que aprecia, consome e valoriza os trabalhos de arte. Sem falar que estar rodeado de natureza e belezas naturais é superinspirador e favorece a criação. O artista, na minha opinião, deve pensar de maneira global com atuação local.

Também crias ilustrações digitais para tecidos. Como é isto?

Entre as frentes de trabalho, crio também ilustrações digitais para coleções de roupas e produtos. Geralmente, são grifes e marcas que entram em contato pelo Instagram ou por e-mail com demandas específicas. Ainda não trabalhei direto com a indústria têxtil, criando artes para estampar tecidos planos, mas, com certeza, é um novo horizonte interessante a ser alcançado. A colaboração mais recente foi com uma marca da França, com produção que tem fábrica em Portugal. A coleção de roupas está para ser apresentada daqui a alguns meses e vendida pela internet para o mundo.

A arte de Thiago está até nos pés, como nas meias da marca Colletive Arts Brewing – Foto: Thiago Thipan/Divulgação/NDA arte de Thiago está até nos pés, como nas meias da marca Colletive Arts Brewing – Foto: Thiago Thipan/Divulgação/ND
Latas da Sparkling Hard Tears, linha de chás alcoólicos da Colletive Arts Brewing – Foto: Thiago Thipan/Divulgação/NDLatas da Sparkling Hard Tears, linha de chás alcoólicos da Colletive Arts Brewing – Foto: Thiago Thipan/Divulgação/ND

Costumas viajar pelo Brasil e exterior para pintar e expor?

Sim, durante o ano costumo realizar viagens pelo Brasil e, quando possível, ao exterior para participar de exposições e pintar murais de arte pública nas cidades ou em ambientes fechados, dentro de empresas. Por conta da pandemia e das barreiras sanitárias, infelizmente, não vou poder participar presencialmente de uma exposição coletiva de arte em Paris, promovida pela Millicent, na galeria Rivoli 59, agora, em agosto.

Como chegou o convite para esta exposição?

A partir do mural “Circo, Dança e Ballet, Violas e Violeiros com Música de Raiz”, que pintei em Cianorte, a agência de arte Millecent, com base na França e em Berlim, descobriu meu trabalho. Após a publicação no Instagram, recebi convite para participar do time de artistas da agência e, alguns meses depois, para a coletiva em Paris.

O que será apresentado lá?

Pintei no meu ateliê, no Novo Campeche, as duas obras que vou expor na coletiva de arte. Um fato interessante é que, como não haveria tempo suficiente para que as obras chegassem, criei uma ilustração digital a partir dessas pinturas originais para enviar por e-mail e criar impressões fine art no tamanho da pintura original.

Uma das obras é intitulada “Fruto de Muito Trabalho” (91cm x 80cm) e a outra é “Composição de Frutas Tropicais 01” (80cm x 91cm). Ambas foram pintadas com tinta acrílica e pincéis. A mensagem é evidenciar uma parte da riqueza da terra oferecida pela natureza que merece cuidado e preservação, bem como falar sobre a importância de uma alimentação saudável e balanceada para uma vida com saúde.

Executando as obras “Composição de Frutas Tropicais 01” (à esq.) e “Fruto de Muito Trabalho”, que serão apresentadas na França – Foto: Divulgação/NDExecutando as obras “Composição de Frutas Tropicais 01” (à esq.) e “Fruto de Muito Trabalho”, que serão apresentadas na França – Foto: Divulgação/ND

Os franceses já conheciam o teu trabalho de perto. O que havias feito lá?

Em 2016, pintei um mural comissionado em Honfleur e, após concluir o trabalho, viajei até Paris para conhecer a cidade pela primeira vez. Aproveitei para pintar um trabalho de arte por iniciativa, uma porta de aço de uma loja que até hoje existe e com alguma frequência fotografam, publicam e me marcam no Instagram. Este apreço pelo meu trabalho de arte por parte dos parisienses me fez retornar em 2019 para novas produções de mural e de arte pública e telas.

Nos últimos anos, surgiram murais imensos com certa frequência em Florianópolis. Não corremos o risco do exagero?

Considero que todas as opiniões ajudam a construir uma cidade para todos. Para que não ocorra o exagero, acredito que um bom caminho é criar consultas públicas e um trabalho democrático em conjunto com a prefeitura e com todos os artistas atuantes da cidade com capacidade de realizar projetos de grande porte.

Em sua maioria, os trabalhos mostram rostos anônimos ou de personalidades históricas, paisagens, natureza. Falta apostar mais em outros gêneros?

Com toda certeza, falta apostar em outros gêneros visuais, composições abstratas e expressões figurativas mais lúdicas. Penso que devem existir novos critérios de avaliação de projetos e políticas de acesso para contemplar novos artistas da cidade, que estão atuando há anos de maneira profissional, algo necessário para que não se torne cansativo e repetitivo a apresentação de obras do mesmo grupo de artistas.

Pintando o mural “Família de Golfinhos Felizes no Encontro” (2021), na avenida Campeche, em Florianópolis – Foto: Anna Rezende/Divulgação/NDPintando o mural “Família de Golfinhos Felizes no Encontro” (2021), na avenida Campeche, em Florianópolis – Foto: Anna Rezende/Divulgação/ND

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