Sérgio da Costa Ramos

Escritor e jornalista, membro da Academia Catarinense de Letras, autor de doze livros de crônicas, e figurou na imprensa diária nas últimas duas décadas.


As árvores e seus enfeites

Os antigos enfeites - sininhos e Noéis - agora aparecem estilizados. São borboletas, argolas, elementos sonoros

Os enfeites de Natal surgem “customizados” nas vitrines iluminadas, com galhos vermelhos ebolas brancas. Coisa bem diferente. E as árvores podem surgir inteiramente prateadas ou em cores inconspícuas, todas, menos o usual verde.

Os antigos enfeites – sininhos e Noéis – agora aparecem estilizados. São borboletas, argolas, elementos sonoros. Pena que não haja algum penduricalho que simbolize a “honestidade”, esse bem tão escasso e rarefeito nos atuais meandros da política.

Árvore de Natal enfeitada – Foto: Pixabay/NDÁrvore de Natal enfeitada – Foto: Pixabay/ND

O peru, já se sabe: é industrializado, daqueles de apito na barriga. Um silvo dirá se o bicho já está pronto. Não há perigo de queimar, nem de sair mal na foto. O gosto, porém, é igual ao da ingestão de um naco de borracha.

Há apenas meio século o peru ainda estaria ciscando no meu quintal, sem desconfiar do sacrifício, anunciado por um gole de cachaça. Quando os sinos dobrarem nesta noite do nascimento será a hora dos abraços e dos presentes.

Dos sorrisos dependurados como cravos de lapela. Soará, então, a bela harmonia daquela canção conhecida em todo o mundo – Noite Feliz (“Silent Night”), concebida em 1818pelos padres austríacos Joseph Mohr e Franz Gruber –derramando-se sobre as casas e as pessoas, distribuindo a paz e o bem-querer.

O Natal é uma “renascença”, uma “natividade”, um recomeço, umponto de partida, uma vida nova, um advento. É a aurora, o amanhã– o “l’avenir”, o “porvir”.

Nesta noite do “Menino” envergarei minha melhor calça de linho, minha melhor camisa de cambraia, próprias para uma noite de verão. Poderei até espelhar-me no bico do meu sapato de verniz – e o exibirei, ainda rangendo no pé, nesta noite de esperanças renovadas, apesar de todos estarem dizendo que “o Natal já não é mais o mesmo de antigamente”…

Colocarei no topo da minha árvore uma estrela tão cintilante quanto uma nova “Aldebarã”, bela como uma Vênus desnuda. Fecharei os olhos e pedirei à estrela um pouco da sua luz. E um mundo que não seja tão mau, soberbo, mesquinho ou desonesto.

Um mundo que não seja apenas este que vemos com tristeza nas casas do Parlamento, em que a éticas e faz ausente – e distorceu a palavra “presente”..

Que este Natal inaugure uma nova atmosfera, em que vivam os ricos de espírito, os corretos, os íntegros, os virtuosos, os cidadãos do Bem. E que pelo menos Papai Noel não se corrompa. E que não nos apareça com um saco viciado, cheio de presentes usurpados e representados por pacotes suspeitos, votados na calada da noite.

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