Blumenau: 170 anos de gente – Alda Niemeyer é ícone vivo do radioamador no Vale do Itajaí

Aos 100 anos de idade, Vovó Alda, como é chamada pelos radioamadores, conta sua história de trabalho na comunicação durante as enchente de 1983 e 1984

Blumenau faz aniversário e o nd+ conta histórias de quem faz a cidade dia a dia. Rostos conhecidos, outros nem tanto, mas que contribuem para o desenvolvimento e a história da cidade. Blumenau: 17o anos de gente!

Vovó Alda é mais do que conhecida, é um ícone de Blumenau. Em 2020, a radioamadora Alda Niemeyer completou 100 anos de uma vida repleta de aventuras e história para contar. Antes de se tornar a Vovó Alda do radioamador ela já havia trabalhado como enfermeira na Segunda Guerra Mundial, na Alemanha, e criado seis filhos.

Alda Niemeyer tem 100 anos e é radioamadora ícone de Blumenau – Foto: Reprodução/Facebook

O radioamadorismo é um hobby que Vovó Alda começou já nos anos 1970, mas foi durantes as enchentes de 1983, já com 63 anos, e 1984 em Blumenau que ela mostrou o quanto a atividade era mais do que um passatempo.

Já experiente, ela mantinha contato com radioamadores de todo o Estado, quando ouviu a notícia que não queria, mas precisaria transmitir. “Quando a gente percebeu que estava subindo a água do rio, já tínhamos comunicado por radioamador com Florianópolis. Numa tarde eu estava no meu rádio falando com os colegas aqui, que já tinham formado uma rede, uma voz de Florianópolis disse ‘Vamos ter água, 14 metros ou mais. Avisa a prefeitura'”, relembra.

Ela também foi procurada por uma equipe da antiga Telesc, para ingressar na equipe de comunicação que possibilitava atendimentos e resgates durante as semanas em que as águas do Rio Itajaí-Açu transbordaram pelas ruas de Blumenau.  “Bateu alguém na porta, eram dois funcionários da Telesc: ‘Tem um radioamador aqui?’, perguntaram. A Beatriz disse ‘É a minha mãe’. Eles ficaram um pouco decepcionados que era uma mulher e não um homem, mas me levaram”, conta.

A enchente em Blumenau durou 32 dias. Alda trabalhou por semanas na oficina da Telesc como radioamadora, passando instruções para os pilotos de helicópteros de resgate que vinham de outros lugares do Brasil e não conheciam Blumenau, mas também cozinhando e limpando, com outros 16 homens que estavam de plantão como ela.

Vovó Alda lembra de momentos de tristeza, como o de um piloto que não chegou a tempo de resgatar uma criança doente e de um colega, radioamador como ela, que passou mal pela estafa do trabalho naqueles dias, mas entende até hoje a importância do trabalho de comunicação que a rede de radioamadores construiu naquele momento. “Blumenau é uma cidade maravilhosa, com uma população fantástica. Vencemos essa enchente, um ano depois, em 1984, repetimos por 24 horas a mesma água, o mesmo desastre, o mesmo medo, mas era um dia só, uma noite só, e depois de uma semana em Blumenau não se via mais nada. A minha cidade, é uma cidade valente”, declara.

Tempos de dificuldade e esperança

A radioamadora centenária compara os dias vividos na pandemia de 2020 com as dificuldades da guerra e das enchentes. Mesmo assim, se recusa a dar espaço ao pessimismo. “Eu participei da Segunda Guerra Mundial e no início da pandemia eu achei muita semelhança com a guerra: a gente não sabia o que ia acontecer, enjaulada, uma quarentena que a gente não sabe quando é que acaba… A mudança da enchente para a pandemia é enorme e a cidade guardou seu rosto sorridente. Mas se eu olho pelo meu balcão tem sol, tem janelas abertas nos edifícios vizinhos, coisa que a gente não via na enchente. Então, eu tenho a impressão que mesmo o cenário mudando, Blumenau é a mesma, vai dar conta e vai vencer”, anseia.

Mesmo depois de acompanhar tantos momentos tristes de perto, Alda Niemeyer não deixa de ter esperança no futuro – Foto: Reprodução/Facebook

Hoje, Vovó Alda ainda pratica o radioamadorismo, mesmo que com menos frequência. Mantém em casa um equipamento mais simples, que usa para se comunicar com outros operadores e que pode ser útil em casos de emergência. O equipamento para frequências altas ela entregou ao Clube de Radiomadores de Blumenau, numa iniciativa para incentivar novas gerações de radioamadores.

Sobre os ensinamentos que a vida lhe trouxe, generosamente ela compartilha com quem se dispõe a ouvir sua história até hoje. Vovó Alda diz que ainda é a mesma e que as lições vêm depois, pois a hora da ação exige atitude. “Naquela época (1983) a gente não pensou no momento trágico e o que ia ser daqui a pouco, tentamos fazer daquele momento o melhor possível. O que eu aprendi é que o que você pode pegar com as tuas mãos não é problema. Problema é sempre aquilo que você não pode pegar”, conclui.

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