Laudelino Sardá

Causos da Ilha, seus personagens, histórias e momentos do cotidiano de Florianópolis com quem conhece os cantos da Capital de Santa Catarina.


Bruxas na ilha dos casos raros

Ele deixou o baldi cair no poço e correu pra casa. Mas minha mãe achou que foi coisa da vizinha Lena, que gostava do pai

Venâncio e Lelo sentaram-se num barranco da praia, a esperar sinais de anchova. Nisso aproxima-se Vazinho, contador de estórias, que todos os dias percorre a praia da Cachoeira para inebriar-se de alegria com pescadores.

– Venanço, ainda tás de pijama?

– Chiii, já chegou pra arrenegar!

Bruxas – Foto: PixabayBruxas – Foto: Pixabay

– Ô vocês dosh acredita em bruxa?

– Posentão, numa noite, meu pai foi lá atrás de casa pegar água do poço com um baldi. Nem lua tinha. Quando tava acocorado puxando a corda, alguém deu um abraço nas costa dele. Ele deixou o baldi cair no poço e correu pra casa. Mas minha mãe achou que foi coisa da vizinha Lena, que gostava do pai.

– Lelo, esta ilha é cheia de bruxa. O Joca nunca mais prestou, depois que viu uma mulher nua sair do mar e correr atrás dele.

– Mas, Venanço, nunca descobriram desposh?

– Falaram numa gaivota grande com um peixe gordo no bico.

– Puta meda, tem história pra dedeu, né? Mas sabe que um dia fiquei bebendo com amigos até metade da noite. Ao voltar pra casa, ouvi risos, parecia gente fazendo festa lá trás. Acordei a mulhé, que não ouviu nada. Abri a janela, o barulho aumentou. Aí peguei a carabina e disparei um monte de chumbo. O barulho parou e então fui lá vê. Só tinha um monte de folhas de bananeiras caídas. Não sei quem foi!

– És tolo, Vazinho, o vento faz a bananeira cantá, chorar e até virar bruxa. – Lelo, tu já foi beijado por uma bruxa?

– Claro, Venanço, duas vezes. O sabor é de uva estragada, mas não posso dizer mais nada, porque ela pode perder o encanto.

– Então tu conheceu ela?

– Aí também não posso falar, né Venanço, é segredo de bruxa.

– O Lelo parece um bruxo! Mas um dia fui até a casa da vizinha Maroca e ela tava molhando uma planta num vaso, bem na porta. Perguntei ‘que planta é essa’? Ela disse: é Comigo Ninguém Pode, pra tirar mau olhado, afugentar bruxas. No dia seguinte fui lá e fiquei apurado. Não vi a Maroca e então mijei na planta. E fiz mais três vez! Depois a Maroca veio me dizê: “a minha planta morreu”. Aí respondi: alguém é mais do que ela, né? E, assim, se multiplicam os casos raros na Ilha da Magia.

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