Sérgio da Costa Ramos

Escritor e jornalista, membro da Academia Catarinense de Letras, autor de doze livros de crônicas, e figurou na imprensa diária nas últimas duas décadas.


Calorias do frio

O “friozim” chegou. Será sempre bem-vindo com as suas comidinhas de inverno em cidades tão simpáticas

Ah, as comidinhas do frio…Bolinhos fritos de aipim, ou o próprio, nadando no melado. Um guisadinho de frescal, com paçoca de pinhão. Doce de leite, ou a sua rapadura, na sobremesa. Eis o caminho hiper-calórico para estufar a pança.

O “friozim” chegou. Será sempre bem-vindo com as suas comidinhas de inverno em cidades tão simpáticas quanto a de Nossa Senhora das Lages.

Pinhão é uma das principais comidas no inverno – Foto: PixabayPinhão é uma das principais comidas no inverno – Foto: Pixabay

O frio sempre traz as suas histórias. Como a daquele hilariante conto de Márcio Camargo Costa, uma sátira aos costumes políticos. Na inauguração de uma privada no centro da cidade, o “deputado da região” fora contemplado com uma “itiriça” (diarréia) das brabas. Solitário na casinha, faltou papel. Foi obrigado a optar, segundo os costumes locais, por “carqueja ou sabugo de milho”…

Ou seja:  aquela palha de vassourinha ou a “capa” de um sabugo de milho adaptada para os arremates da limpeza  –  os “asseios”, se é que me entendem.

–  Carqueja ou sabugo pro “sô” deputado? – perguntaram ao anfitrião, o “coroné” Juvêncio. E o coroné:

–  Tá loco, home! Pro sô deputado aqui, na farta de “papé ingenco”, tem que sê maria-mole! E das bem florida, que agora é tempo!

Pobre deputado. Flores silvestres como instrumento do asseio. Junto com o buquê florido – verdadeiro papel higiênico campeiro -veio o ferrão de dezenas de abelhas africanas.

Segurando as calças pela coxilha lageana, o deputado está correndo até agora…

Folclore e imaginação à parte, come-se bem nas coxilhas de Lages e São Joaquim nesta época em que o frio começa a se instalar e os “os queixos” não rejeitarão as comidinhas da época.

O pinhão já é o grande personagem de todas as panelas e de todas as chapas, cozinhando em grandes tachos, ou ardendo na forma de “sapecada”. Já é o tempo do pinhão e da canjica – “aquela papa de milho que se mistura com leite e se polvilha com canela”.

A família reunida em torno do grande fogão de cozinha, dotado de espaçoso forno à lenha, lareira perpétua a queimar nó de pinho, vivendo um dia típico do inverno lageano.

Uma ovelhinha aqui, um borrego mamão ali, uma costela pingando num fogo de chão acolá. Quem tiver a sorte de estar por lá, numa das nossas “Suíças”, que se prepare para ganhar as adiposidades da estação,  robustecer o “calo” abdominal – que nisso os serranos são mestres pós-graduados, generosos anfitriões que são e colossos de hospitalidade.

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