Sérgio da Costa Ramos

Escritor e jornalista, membro da Academia Catarinense de Letras, autor de doze livros de crônicas, e figurou na imprensa diária nas últimas duas décadas.


Chocolates para todos

E de despertar sensações de boas endorfinas cerebrais, aquela energia que faz o homem viver num eterno céu de bem-estar

Recuso-me a falar de coisas amargas, tão azedo que já está este nosso país. Prefiro lembrar das Páscoas felizes dos tempos em que o bem pairava na atmosfera e os seres humanos conjugavam o verbo amar não apenas como um dogma bíblico.

Rosas de Chocolate Kopenhagen – Foto: DivulgaçãoRosas de Chocolate Kopenhagen – Foto: Divulgação

Na falta de boas notícias, apresso-me por mandar uma mensagem ao fantasma de Pedro Álvares Cabral:– Ressuscite, Almirante, e reassuma o comando das caravelas. Suba o Atlântico de volta a Portugal – e devolva o Brasil aos índios.

Diga a D. Manuel, o Venturoso, que não achastes terra alguma à oeste e que, portanto, o Brasil continua incógnito.Precisamos recomeçar do marco zero. Este Brasil que aí está não é o verdadeiro: é uma recriação dantesca do inferno. Queremos nossa pátria de volta. Seria o nosso melhor presente de Páscoa.

Sou do tempo em que as criancinhas esperavam o domingo de Páscoa ansiosas pelo dia de procurar ovos de chocolate no jardim, acompanhadas pelos pais, que se divertiam com os bordões “está frio! está quente!”

Outrora um vilão calórico, o cacau ressurge reabilitado pelos nutricionistas, com o prestígio de ser um “antioxidante” mais poderoso do que o vinho. E de despertar sensações de boas endorfinas cerebrais, aquela energia que faz o homem viver num eterno céu de bem-estar.

Por isso, vou logo avisando: aceito ganhar barras de chocolate recheadas com amendoim e castanhas, as minhas preferidas. Desconfio que, embora não sendo “chocólatra”, vou fazer nesta Páscoa uma pequena pausa no meu regime. Só para acolher a opinião revolucionária de que chocolate não faz mal – faz bem.

Como criança, vivi todas as Páscoas na orgia do cacau. Sem falar na grande comezaina liberada ao raiar do sábado de Aleluia, tudo em homenagem ao Ressuscitado.

Aleluia!, afinal, não é apenas uma interjeição repetida nos templos de Deus. Aleluia quer dizer alegria, júbilo, regozijo, celebração.Pena que este mundo seja feito de gordos dilemas. Ao lado de um ascético ideal de magreza, cultivo em cada célula uma obscena compulsão pelos prazeres da boa mesa.

Comer bem sempre foi uma das boas coisas da vida, uma das festas permanentes do palato. Pena que os coelhinhos da Páscoa e os comilões da gastronomia, como Henrique VIII e D. João VI, e o da libação, como Dionísio (o nome grego de Baco), não me tenham contemplado com uma saudável e quilométrica Taenya Saginata, a popular “lombriga” ou “bicha solitária”.Uma boca “auxiliar” dentro da barriga, que me permitiria comer todo o chocolate que quisesse, sem engordar.

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