Com Puxada de Rede, São José completa 271 anos e celebra cultura afro-brasileira

Encenação conta a história de ex-escravos que foram pescar em alto mar e não retornaram; apresentação será transmitida nas redes sociais nesta sexta-feira (19)

Para celebrar a cultura afro-brasileira e homenagear pescadores capoeiristas, a tradicional Puxada de Rede será encenada na próxima sexta-feira (19), em comemoração ao aniversário de 271 anos de São José, na Grande Florianópolis.

Contramestre Queixo ensina capoeira há 27 anos em São José – Foto: Leo Munhoz/NDContramestre Queixo ensina capoeira há 27 anos em São José – Foto: Leo Munhoz/ND

O Grupo Muzenza, com o contramestre Queixo, irá contar a história dos negros que, após a abolição, precisaram pescar em alto mar para garantir o sustento de suas famílias. A apresentação será na Bica da Carioca e transmitida nas redes sociais da Fundação Municipal de Cultura e Turismo do município.

Com elementos de arte marcial, esporte, dança e música, a Puxada de Rede retrata um homem que foi ao mar para pescar, mas não voltou. A esposa chama pelo nome do pescador e é consolada pelos colegas, ao perceber que ele não retornará.

Grupo Muzenza com alunos em ensaio de capoeira em São José, na Grande Florianópolis – Foto: Divulgação/NDGrupo Muzenza com alunos em ensaio de capoeira em São José, na Grande Florianópolis – Foto: Divulgação/ND

Fábio Augusto de Oliveira, o contramestre Queixo, de 46 anos, detalha que a Puxada de Rede também expõe as dificuldades que os negros enfrentaram.

“Após a abolição da escravatura, o negro teria, em tese, a possibilidade de trabalhar e ser remunerado por esse trabalho. Porém, os senhores ainda preferiram os colonizadores europeus e orientais para fazer essa mão de obra.” Assim, restou a pesca artesanal como o único meio de sustento do negro escravo capoeirista.

Dos 29 anos dedicados à prática, Queixo ensina há 27 a cultura da capoeira e suas vertentes. Ele viu a primeira roda ainda criança, em Suzano, interior paulista, mas passou a conhecer o jogo aos 19 anos, em São José.

Veja o ensaio do grupo:

“Hoje ela é o ar que respiro, assim como é o ar de muita gente que está do meu lado há tantos anos”, ressalta.

“A capoeira me resgatou”

Ao lado de Queixo, estão alunos como Francisco de Assis Barcelos, conhecido como Graxa, de 38 anos, e Silvana Costa, de 55 anos, verdadeiros apaixonados pela capoeira.

Por meio do projeto social Capoeira para Todos, dirigido pelo contramestre Queixo, o mecânico Graxa — daí seu apelido —, também ensina a arte no bairro Potecas, em São José.  Ele conta que a capoeira foi muito importante para o seu crescimento. 

Em comemoração ao aniversário de São José, contramestre Queixo irá se apresentar com o Grupo Muzenza - Leo Munhoz/ND
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Em comemoração ao aniversário de São José, contramestre Queixo irá se apresentar com o Grupo Muzenza - Leo Munhoz/ND

A Puxada de Rede retrata a história de negros que foram ao mar para garantir o sustento da família, mas não voltaram - Leo Munhoz/ND
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A Puxada de Rede retrata a história de negros que foram ao mar para garantir o sustento da família, mas não voltaram - Leo Munhoz/ND

A celebração é uma homenagem aos negros capoeiristas que se arriscaram no alto mar - Leo Munhoz/ND
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A celebração é uma homenagem aos negros capoeiristas que se arriscaram no alto mar - Leo Munhoz/ND

Fabio Augusto de Oliveira, o contramestre Queixo, ensina capoeira há 27 anos em São José - Leo Munhoz/ND
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Fabio Augusto de Oliveira, o contramestre Queixo, ensina capoeira há 27 anos em São José - Leo Munhoz/ND

“Eu agradeço muito à capoeira, ela me resgatou, porque teve um determinado momento em que eu estava perdido. Graças à minha mãe, esposa e o contramestre Queixo, que me aceitou de abraços abertos, hoje eu estou bem novamente”, relata Graxa. 

O sentimento é semelhante à autônoma Silvana, que afirma que a capoeira “sempre esteve presente na alma e no coração”. Ela relata que participar da Puxada de Rede é um privilégio.

“Retomei a capoeira e me sinto muito privilegiada por fazer parte. Encontrei uma família na capoeira, amigos de verdade, pessoas do bem, com muita garra e determinação. Senti isso nos ensaios e é mágico. Só tenho a agradecer”, ressalta a capoeirista.

A atividade demanda tempo e os ensaios são constantes. “Sempre encontramos uma brechinha no dia para fazer aquilo que a gente mais gosta”, destaca Queixo. “À tarde, aos finais de semana, e até mesmo depois das 10 horas da noite.”

Para garantir a segurança da atividade por conta da pandemia, o contramestre garante que todos os protocolos serão seguidos e, como a apresentação tem contato físico, “são pessoas do mesmo convívio, o que facilita muito”. Além disso, todos usarão máscara durante a apresentação.

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