Conheça 5 personalidades de Florianópolis que deram o que falar em 2020

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Em comemoração ao aniversário da Capital catarinense, o ND+ reuniu manezinhos da Ilha — ou de coração — para contar suas histórias

Florianópolis é culturalmente multifacetada. Além de atrair milhares de turistas todos os anos, concentra um grande número de moradores de outros municípios, Estados e países que escolheram a cidade para viver.

Em celebração ao aniversário de 348 anos de fundação da Capital catarinense nesta terça-feira (23), o ND+ reuniu cinco personalidades — nascidas ou radicadas no município — que tiveram grande destaque no último ano.

No aniversário de Florianópolis, o ND+ reuniu cinco personalidades – nascidas ou radicadas no município — que tiveram grande destaque no último ano –  Arte: ND Fotos: Acervo pessoal/Reprodução/NDNo aniversário de Florianópolis, o ND+ reuniu cinco personalidades – nascidas ou radicadas no município — que tiveram grande destaque no último ano –  Arte: ND Fotos: Acervo pessoal/Reprodução/ND

As profissões variam de influencer a professora universitária, mas o amor por Florianópolis é o mesmo. Confira:

Guilherme Pintto, 27 anos, autor best-seller e influencer

O ano é 2005. Depois de uma infância marcada por violência doméstica imposta pelo padrasto, o influencer Guilherme Pintto, 27 anos, se muda com sua mãe de Jaraguão, no interior do Rio Grande do Sul, em busca de esperança. “Era um desejo de fugir daquele marasmo.” Assim, após muitas cidades, ele escolheu Florianópolis como o seu porto seguro, há sete anos.

O publicitário, que também é autor de três livros, entre eles o best-seller Seja o amor de sua vida, de 2018, fala para mais de 1 milhão de seguidores sobre saúde mental, amor próprio e autocompaixão em suas redes sociais. Logo de cara, ele encontrou na Capital catarinense uma liberdade que antes não vivia. 

Gui Pintto é um autor best-seller e influencer que sempre sonhou em viver em Florianópolis – Foto: Redes Sociais/Reprodução/NDGui Pintto é um autor best-seller e influencer que sempre sonhou em viver em Florianópolis – Foto: Redes Sociais/Reprodução/ND

“O Rio Grande do Sul é um Estado muito conservador. Por eu ser gay, eu idealizava Florianópolis porque sabia que as pessoas podiam andar de mãos dadas aqui. A cidade realmente te acolhe”, destaca o influencer, que considera a cidade sua verdadeira casa. “Em Floripa, eu lembro dos meus cachorros, onde eu me sinto bem, me sinto seguro.”

Atualmente, ele se divide entre a Ilha de Santa Catarina e Belo Horizonte, onde cursa o quarto semestre de Psicologia. E estudar sobre saúde mental, especialmente neste momento de pandemia, pode ser ainda mais desafiador. Mas segundo o autor, “informação é algo que me cura, por isso acabo exigindo tanto de mim”.

Novos desafios 

Há cerca de dois anos, ele foi diagnosticado com depressão mista. “Existe um estigma em relação à doença e a internet contribui muito para isso. Pode ser cruel de muitas formas. Como figura pública, você tem que segurar a onda e é uma estafa mental de verdade”, aponta.

A partir dessa fase, a forma como ele pensa o conteúdo do seu trabalho se transformou.

Em seu novo livro, Como me tornei o amor da minha vida, ele narra o início do seu amor-próprio, que começou ainda na infância ao tentar sobreviver em meio à violência. 

Em suas produções, o comunicador busca valorizar a diversidade – Foto: Redes Sociais/Reprodução/NDEm suas produções, o comunicador busca valorizar a diversidade – Foto: Redes Sociais/Reprodução/ND

“Os dois primeiros livros são gritos de dor. Esse é um Gui mais maduro, com um olhar das linhas de Psicologia”, ressalta. Além disso o livro dá “instruções” de como construir esse sentimento: “não é só criar a consciência do amor próprio, é oferecer um mapa de como chegar lá”.

Para o futuro, ele quer expandir o conteúdo do seu canal com microinfluenciadores, especialmente minorias. “[Quero trazer] mulheres trans, travestis, pessoas gordas. Não necessariamente para falar de suas especificidades, mas quero que elas falem sobre o que elas fazem, o que pensam”, acredita. 

Além disso, ele quer democratizar o conteúdo acadêmico, que se tornará ainda mais presente em sua produção. Assim, o autor ressalta que quer usar dos seus privilégios para contribuir com a valorização do trabalho de outras pessoas. “Quero dar palco para tem voz.”

Cíntia Domit Bittar, 34 anos, cineasta

A vontade de levar Florianópolis para o mundo sob a ótica feminista move a cineasta Cíntia Domit Bittar, de 34 anos. Ela é uma das sócias da Novelo Filmes, produtora criada na Capital em 2010, com as amigas de faculdade Ana Paula Mendes e Maria Augusta V. Nunes. 

Com uma linguagem sensível, ela dirigiu o curta-metragem “Baile”, que foi classificado para o Oscar deste ano após vencer o 60º Festival Internacional de Cine de Cartagena de Índias, na Colômbia. O curta concorreu com produções que estiveram entre os maiores festivais do mundo. “É muito gratificante, ainda mais pelo caminho que percorremos.”

Cineasta Cíntia Domit Bittar qualificou seu curta-metragem “Baile” ao Oscar deste ano – Foto: Daniel Becker/Divulgação/NDCineasta Cíntia Domit Bittar qualificou seu curta-metragem “Baile” ao Oscar deste ano – Foto: Daniel Becker/Divulgação/ND

O filme retrata a vida de Andrea, uma menina que mora na periferia de Florianópolis com sua mãe e sua bisavó, que precisa de cuidados especiais. Em 17 minutos, é possível acompanhar as descobertas da menina, que perpassam por questões políticas, financeiras e familiares. 

“Eu procuro realizar meus filmes através do feminismo. Não é só o tema, mas também a linguagem, como a direção, e a montagem. Eu faço tudo pensando nisso. As mulheres precisam ser verossímeis, não super-heroínas. Precisamos retratar mulheres reais”, ressalta a diretora.

Cíntia também é conselheira municipal de política cultural, na cadeira do audiovisual, há mais de três anos, e está à frente do Fórum Setorial Audiovisual Florianópolis desde 2017. Além disso, é vice-presidente no Santacine (Sindicato da Indústria do Audiovisual de Santa Catarina) e diretora na API (Associação das Produtoras Independentes do Audiovisual Brasileiro).

“Nessa minha caminhada na política cultural, sempre mantenho o olhar para a cidade, buscando potencializar Florianópolis através do audiovisual e do coletivo”, frisa.

Observar a cidade

A cineasta escolheu viver em Florianópolis aos 16 anos. Depois de crescer em Caçador, no Meio-Oeste catarinense, decidiu estudar na Capital. Todos os dias, passava pela Praça XV, no Centro da Capital, e memorizava cada detalhe do caminho. 

“Sempre fui muito observadora. Gosto de enxergar a cidade, as pessoas. Todas as vivências aqui eu vou guardando na memória e sei que delas podem surgir cenas ou premissas para novos filmes”, diz. Dessa forma, ela leva a Capital manezinha para o mundo. “Consigo conversar sobre Floripa através do cinema. Isso é incrível.” 

Ela conta que, quando viaja para os festivais de cinema, convida os amigos que faz pelo caminho para conhecer a Ilha. “Me sinto bairrista. Tenho muitos amigos do cinema de fora da cidade e falo que vou mostrar Floripa. Aqueles cantinhos da Ilha que poucos conhecem”, conta, em meio a risadas.

No entanto, com a pandemia, o setor audiovisual enfrenta uma grave crise. Cíntia conta que a falta de repasse de verbas do Fundo Setorial de Audiovisual, fundamental para o meio, também atinge Florianópolis.

“O audiovisual está em uma crise que não é nossa, provocada principalmente pelo governo federal. É um dinheiro que vinha para cá e trazia bens tangíveis, como o filme em si, e intangíveis, como a cultura. A cidade perde”, destaca.

Planos para o futuro

Por questões logísticas e financeiras, a Novelo entregará a sua sede em alguns dias. Mesmo assim, a produtora tem vários projetos em andamento, como três longas-metragens, um deles ambientado em Florianópolis. O primeiro longa de ficção com roteiro e direção de Cíntia será “Gente de Bem”, que tentarão rodar no segundo semestre. 

No entanto, os sonhos extrapolam a produção dos filmes. Apaixonada pelo Centro da cidade, Cíntia vive e respira as quadras históricas da Capital. Lá, ela sonha em criar uma sala de cinema com programação brasileira.

“O Centro congrega as pessoas e acho que Florianópolis merece uma salinha de cinema. Já tenho até a grade de programação e umas casas mapeadas. É a minha maior realização para deixar na cidade”, idealiza a manezinha de coração.

Vini dos Santos, 31 anos, surfista

A dedicação ao esporte levou o surfista manezinho Vini dos Santos, de 31 anos, a Nazaré, em Portugal, onde ele pode ter remado a maior onda do mundo desta temporada. O feito é consequência de uma preparação que começou aos 12 anos, desde quando passou a competir como amador.

O manezinho aguarda apenas que autoridades do WSL (World Surf League) Big Wave Awards homologuem a sua onda, surfada no dia 22 de fevereiro, como a maior do planeta. Por enquanto, a data da divulgação ainda é incerta, mas deve ocorrer em abril. 

Vini dos Santos, surfista de Florianópolis especializado em ondas gigantes – Foto: Divulgação/NDVini dos Santos, surfista de Florianópolis especializado em ondas gigantes – Foto: Divulgação/ND

No entanto, a maior realização para o surfista é seguir fazendo o que ama. “Foco no meu esporte e muito no que eu faço. Não tem recompensa maior que a queda livre, fugir da avalanche até chegar no final da onda e me sentir vivo”. Ele permanece em Nazaré, surfando todos os dias. “É o que eu mais amo, acordo e respiro por esse sentimento, eu vivo para isso.”

Em Florianópolis, ele surfou ao lado de grandes nomes, como Alejo Muniz, Gabriel Medina e Ricardo dos Santos. Os atletas se tornaram seus amigos e também grandes referências. No entanto, a principal inspiração é seu pai, Eloi Figueiredo, surfista de 56 anos.

“Ele sempre me deu conselhos sobre o que achava mais seguro, mas sempre apoiou minhas escolhas. Sempre me incentivou e me motivou a fazer o que eu amo”, detalha Vini, que iniciou os estudos em Engenharia de Aquicultura, na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), mas após um ano decidiu ser salva-vidas na praia da Joaquina.

“Ele falava para fazer o mais certo, “tradicional”, mas acabei escutando meu coração.”

Uma vida nômade

Movido a essa paixão, em 2014 economizou cerca de 6 mil dólares para viver uma temporada em um dos maiores redutos do surf, o Havaí. “Fui acolhido, me tornei um membro da família. Trabalhei na cozinha de restaurantes e em construções para me manter”, lembra. 

Ao longo dos anos, ele viajou pelo mundo e participou de grandes campeonatos. Foi finalista do Mormaii Big Wave Challenge, na Praia do Cardoso, no Farol de Santa Marta, e do Cerimonial Punta del Lobos, no Chile, ambos em 2018.

Também conquistou uma vaga no Nelscott Reef Pro Surf Session em Oregon, nos Estados Unidos, por meio de um concurso mundial, com cinco mil votos de internautas.

O manezinho pode ter surfado a maior onda do mundo em Nazaré, Portugal – Foto: Vini dos Santos/NDO manezinho pode ter surfado a maior onda do mundo em Nazaré, Portugal – Foto: Vini dos Santos/ND

Atualmente, ele permanece na Capital apenas no inverno, para se preparar nas águas gélidas, e viaja durante os outros meses. Tanto tempo longe da Ilha, porém, não faz Vini esquecer suas origens.

“Somos de uma cultura muito diferente do resto das outras pessoas. Vivemos ao redor do mar, para o mar, pelo mar. Nos alimentamos dele, admiramos ele todo o dia. Isso é muito especial”, conta. 

Emocionado, ele agradeceu às pessoas que o apoiam, mesmo à distância. “A todos que continuam torcendo por mim, isso me dá forças para continuar, mesmo ficando longe por tanto tempo.” 

Lisandra Flach, 38 anos, economista

Nascida e criada em Florianópolis, a economista e pesquisadora Lisandra Flach considera a Capital Catarinense uma das melhores cidades do mundo para se viver. Contudo, Lisandra está hoje a milhares de quilômetros de sua cidade natal.

Aos 38 anos, Lisandra é diretora do Centro de Economia Externa do Instituto IFO de Munique, na Alemanha, e professora titular do departamento de Economia da Universidade Ludwig-Maximilians-Universität de Munique.

Aos 38 anos, Lisandra é diretora do Centro de Economia Externa do Instituto IFO de Munique, na Alemanha – Foto: Acervo pessoal/NDAos 38 anos, Lisandra é diretora do Centro de Economia Externa do Instituto IFO de Munique, na Alemanha – Foto: Acervo pessoal/ND

Lisandra é considerada uma das “100 mulheres que levam a Alemanha adiante”, de acordo com reportagem de capa publicada em março pelo Handelsblatt, um dos principais jornais alemães de economia e negócios.

Para a economista, o status adquirido está relacionado com a realização de estudos para o Ministério da Economia e Câmaras de Comércio sobre os efeitos da pandemia na economia alemã e efeitos da saída do Reino Unido da União Europeia. As pesquisas geraram impacto no mundo acadêmico e também foram discutidas na imprensa.

Mudança para Alemanha

A economista conta que se mudou para a Alemanha para estudar por um ano, participar de um estágio na Bosch e fazer o doutorado em Economia.

No final do doutorado, ela teve a oportunidade de atuar como professora da Universidade de Munique, que é atualmente a melhor da Alemanha, segundo o World University Ranking. “Achei que seria uma boa experiência de trabalho”, conclui.

Lisandra considera que a formação que obteve em Florianópolis foi essencial para sua carreira. “Sempre gostei muito de estudar e tive diversos professores que serviram de inspiração para mim. Foi um privilégio por ter tido a oportunidade de cursar universidades públicas”, apontou.

O foco de sua pesquisa é a área de economia internacional, com a análise, por exemplo, dos efeitos econômicos de acordos de comércio e de barreiras comerciais.

“Sinto falta de coisas simples”

Apesar de todo o sucesso e de ter se estabilizado na Alemanha, Lisandra sente falta da família, que mora em Florianópolis.

Além disso, ela diz sentir saudades de “coisas simples, como ver o pôr-do-sol na beira da praia, almoçar na Lagoa da Conceição ou colocar os pés no mar”.

Uma visita a sua cidade natal está nos planos de Lisandra, assim que ela e a filha forem vacinadas contra a Covid-19. “Minha filha também fala português e adora a casa dos avós em Floripa”, conta Lisandra.

Matheus Emerick, 28 anos, chef de cozinha

O chef de cozinha Matheus Emerick, de 28 anos, viu em Florianópolis uma cidade de oportunidades. Natural de Brasília, ele se mudou para São Paulo aos 18 anos para trabalhar no restaurante de uma renomada chef de cozinha brasileira.

Chef de cozinha Matheus Emerick, de 28 anos – Foto: Instagram/Reprodução/NDChef de cozinha Matheus Emerick, de 28 anos – Foto: Instagram/Reprodução/ND

A Capital catarinense entrou na rota de Matheus em fevereiro de 2018, através de uma proposta de emprego. Um amigo e colega de trabalho passou a chefiar um restaurante tradicional no Centro da Ilha de Santa Catarina.

O estabelecimento entrou em processo de expansão e Matheus foi convidado a criar o cardápio e prestar consultoria à unidade. A ideia era utilizar produtos e fornecedores da Ilha.

“Estava morando há vários anos em São Paulo e não conhecia Floripa. Acabei vindo de mala e cuia, na cara e na coragem”, relembra Matheus. O chef de cozinha define a mudança repentina como “a melhor escolha que fiz na minha vida”.

Segundo ele, quem vive em Florianópolis tem “a mente aberta para experiências” e isso envolve a gastronomia. Ele conta que percebeu na cidade certa carência no que diz respeito à cozinha criativa. Uma cozinha que valorize o produto local, mas também fuja do comum.

Matheus ampliou, então, a pesquisa e passou a explorar não só produtos provenientes do Litoral catarinense, como também da Serra.

O resultado foi a abertura de seu próprio restaurante no bairro Sambaqui, em Florianópolis, ao lado de dois sócios manezinhos, Eduardo Capela e Tiago Soar.

O Ludum abriu as portas ao mesmo tempo em que a pandemia da Covid-19 dava seus primeiros passos em solo catarinense, no início do ano de 2020. O desafio foi adaptar o novo negócio ao cenário.

Matheus Emerick gosta de frequentar as praias de Florianópolis – Foto: Acervo pessoal/NDMatheus Emerick gosta de frequentar as praias de Florianópolis – Foto: Acervo pessoal/ND

A saída encontrada foi unir técnica à produção local e apostar no formato “menu degustação” no jantar. Por conta da pandemia, o Ludum vinha atendendo apenas 12 pessoas, apesar de ter capacidade para 40. Com o novo decreto estadual, que impôs medidas mais restritivas, o restaurante agora atende somente no formato delivery e take away.

Amor pelas praias 

Há três anos em Florianópolis, o chef de cozinha já morou no Campeche, no Centro e hoje, está no Sambaqui. O que Matheus mais gosta são as praias, principalmente, a dos Açores e a Solidão, ambas no Sul da Ilha.

Outro lugar “mágico”, de acordo com Matheus, é a Lagoa do Peri. Ele conta que, assim que chegou à Capital, um amigo sugeriu que ele tomasse banho na Lagoa do Peri para que fosse “abençoado” pela Ilha.

Como morador de Florianópolis, a casa de Matheus virou reduto de quem busca fugir da agitação de São Paulo. “Meus amigos costumavam vir para cá. Já passaram Carnaval, férias. Aqui é o point!”, brinca.