Conheça a história do patrono dos ecologistas de Santa Catarina

Reconhecido até mesmo fora do país, Raulino Reitz, o maior botânico catarinense, teve uma impressionante capacidade de trabalho ao longo de 52 anos de pesquisas

É comum surgirem aqui e ali listas de catarinenses ilustres, que fazem muitas justiças – e cometem incontáveis injustiças. Um cientista como Raulino Reitz, por exemplo, costuma ser esquecido nessas horas, apesar da grande contribuição que deu à botânica não só de Santa Catarina, mas do país, e do reconhecimento que obteve fora das fronteiras nacionais.

Raulino Reitz (à esq.) visitou 51 países e colheu quase 30 mil plantas para estudos. Na foto, estava no Peru – Foto: Herbário Barbosa Rodrigues/Itajaí/divulgação/NDRaulino Reitz (à esq.) visitou 51 países e colheu quase 30 mil plantas para estudos. Na foto, estava no Peru – Foto: Herbário Barbosa Rodrigues/Itajaí/divulgação/ND

Há um mês, no dia 19 de setembro, a passagem dos 100 anos de seu nascimento só foi lembrada em Antônio Carlos, município onde nasceu, e em uma sessão especial do IHGSC (Instituto Histórico e Geográfico do Estado), que também lançou uma reedição do livro “Santa Bárbara – Primeiro núcleo da colonização alemã em Santa Catarina”, que ficou pronto poucas semanas antes da morte de Reitz, em 1990.

Tendo vivido numa época de poucas bandeiras ambientais, ele é considerado o patrono dos ecologistas catarinenses e deixou rastros em diversas cidades e Estados.

O que mais chama a atenção na biografia do grande pesquisador das plantas – das bromélias, em especial – é sua impressionante capacidade de trabalho, que transformou em milhares de espécies catalogadas, páginas escritas, estampas e mapas que resultaram de suas andanças pelos sertões do Sul do Brasil.

Foram 52 anos de pesquisas, 953 excursões botânicas, 28.769 plantas herborizadas (colhidas para estudo ou aplicações medicinais), 350 novas espécies descobertas e mais de um milhão de quilômetros percorridos de jipe, charrete, carroça, barco, navio, trem, moto, bicicleta, a pé ou no lombo de animais. E algumas de avião, porque ninguém é de ferro… A monumental “Flora ilustrada catarinense” é obra única no Brasil, com 149 volumes, 12.489 páginas, 2.700 estampas, 1.983 mapas, 149 famílias de plantas, 734 gêneros, 3.333 espécies e 237 variedades.

Raulino (à dir.) descobriu 350 novas espécies ao percorrer mais de um milhão de quilômetros – Foto: Herbário Barbosa Rodrigues/Itajaí/divulgação/NDRaulino (à dir.) descobriu 350 novas espécies ao percorrer mais de um milhão de quilômetros – Foto: Herbário Barbosa Rodrigues/Itajaí/divulgação/ND

Aluno de Raulino Reitz no Seminário de Azambuja, em Brusque, e admirador do cientista, o padre José Raulino Besen é um dos que custam a entender como o filho de Antônio Carlos fez tantas coisas ao longo da vida. “No legado que ele deixou, nunca pensou em si, mas nas pessoas e na sociedade”, afirma. Era um homem simples, cujo interesse era passar para frente o conhecimento e as descobertas que fazia – “um homem de partilha”, como define o padre Besen.

Seu conterrâneo, foi Besen quem revisou, completou e organizou a edição do livro “Santa Bárbara”. Nele, Reitz sustenta, ao contrário do que afirmam muitos historiadores e a própria população de São Pedro de Alcântara, que o primeiro assentamento dos imigrantes alemães que vieram para Santa Catarina no final da década de 1820 se deu num local chamado de Santa Bárbara, no caminho entre São Pedro e Angelina, que também foi a estrada pioneira entre Lages e o litoral do Estado.

Pesquisas começaram no seminário

O que pode explicar a amplitude do legado do padre Raulino Reitz é seu trabalho paciente, metódico e perseverante durante mais de cinco décadas, acredita José Artulino Besen. As origens desse personagem peculiar podem ser encontradas na comunidade do Louro, em Antônio Carlos, onde ele nasceu em 19 de setembro de 1919 e onde foi batizado e fez os primeiros estudos.

Como os pais e irmãos (dois deles também padres), trabalhou na roça e nos engenhos de cana e farinha da família. Os domingos eram destinados à missa e a poucas brincadeiras com os meninos de sua idade. Foi coroinha na matriz do município e acabou, com menos de 14 anos, entrando no Seminário de Azambuja, onde um dos reitores era o padre Jaime de Barros Câmara, que viria a se tornar o primeiro cardeal catarinense.

Além de biólogo, Raulino teve uma intensa atuação religiosa – Foto: Herbário Barbosa Rodrigues/Itajaí/divulgação/NDAlém de biólogo, Raulino teve uma intensa atuação religiosa – Foto: Herbário Barbosa Rodrigues/Itajaí/divulgação/ND

Foi no Seminário Central de São Leopoldo (RS), onde cursou filosofia e teologia, que Raulino foi picado pela mosca azul do naturalismo e pelo desejo de coletar plantas que iriam, mais tarde, integrar o acervo do Herbário Barbosa Rodrigues, até hoje funcionando em Itajaí. Após a ordenação, em 1943, ele foi vigário em Turvo, Sombrio, Itajaí e Orleans, nomeado pelo bispo Dom Joaquim Domingues de Oliveira. Encerrou sua missão como padre em Camboriú, cidade onde morreu, em 1990. “Já abordava temas de ecologia nos sermões, e nunca se mostrava cansado de suas viagens pelo interior”, ressalta o padre José Besen.

Entre as muitas heranças que Raulino Reitz deixou está a autoria da minuta do decreto que criou a Fatma (Fundação do Meio Ambiente de Santa Catarina), atual IMA (Instituto do Meio Ambiente). Está entre os criadores da fundação e foi seu diretor e pesquisador entre os anos de 1976 e 1986. O atual instituto, estranhamente, não dispõe sequer de uma foto de Reitz em seu acervo.

O padre das bromélias e dos gravatás

Além da obstinação do padre Raulino Reitz pelas plantas, chama a atenção sua dedicação ao magistério. Só no Seminário Menor Metropolitano de Azambuja ele passou 24 anos, de 1947 a 1971, como diretor de ensino e professor, e lecionou latim, inglês, alemão, espanhol, ciências naturais, biologia, religião, anatomia, história natural, filosofia humana, química, agronomia, cosmografia, história das Américas, geografia geral e do Brasil e história geral.

O padre Afonso Niehues, que viria a ser arcebispo de Florianópolis, era reitor do seminário e facilitava seus trabalhos de pesquisa de campo, marcando suas aulas para a primeira parte da semana, de segunda a quarta-feira. Ao deixar Brusque, Reitz assumiu a direção do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, desfalcando o seminário e deixando inconsoláveis os seus colegas e alunos – vários deles também botânicos e naturalistas.

Em tantas peregrinações, o maior botânico catarinense palmilhou todos os municípios do Estado, andou pelo Paraná e Rio Grande do Sul e participou dos trabalhos de erradicação da malária no Sul do país.

Algumas áreas hoje conservadas no Estado devem sua condição ao empenho de Reitz, que ajudou a criar e implantar o Parque Estadual da Serra do Tabuleiro (1975), a Reserva Biológica do Sassafrás (1977), o Parque Estadual da Serra Furada ((1980), a Reserva Biológica da Canela Preta (1980) e a Reserva Biológica Estadual do Aguaí (1983). Também se envolveu na criação das estações ecológicas dos Carijós (na Ilha de Santa Catarina), dos Timbés (Timbé do Sul e Meleiro) e da Babitonga (Garuva, Joinville e São Francisco do Sul).

O Herbário Barbosa Rodrigues começou a nascer numa caixa de papelão onde Reitz guardou as primeiras amostras de plantas que coletou enquanto estava no Seminário de São Leopoldo, em 1942, e em 15 livros que o acompanhavam aonde ia.

Quando chegou a Itajaí, quatro anos depois, já tinha 1.500 plantas herborizadas. A sede do herbário foi construída em 1953 e hoje reúne exemplares de cerca de 96% das espécies existentes em Santa Catarina e Estados vizinhos. Nome muito associado ao estudo das bromélias, o cientista também é chamado de “padre dos gravatás” e exibe no currículo o Prêmio Global 500 da ONU, concedido na Cidade do México em 1990.

Um vilarejo chamado de Santa Bárbara

Tudo o que envolve Raulino Reitz é superlativo, por isso é importante ressaltar que ele visitou em 51 países nos 52 anos de carreira como botânico, estudou na Iowa State University (EUA), publicou 45 livros (entre eles o portentoso “Bromeliáceas e a malária – Bromélia endêmica”, de 808 páginas, editada com seus próprios recursos) e tem o nome associado a 59 espécies e três novos gêneros botânicos.

*Espécie catalogada por Reitz

Foi de sua iniciativa a indicação da orquídea Laelia Purpurata como flor símbolo e da imbuia como árvore símbolo do Estado de Santa Catarina. A revista botânica “Sellowia”, que editou, teve 65 volumes, com um total de 6.715 páginas, 182 artigos e 1.460 figuras que registram 210 novas espécies de plantas.

Na vida religiosa, que nunca relegou a segundo plano, destacou-se como agente de evangelização, “no contato com as pessoas humildes, a quem consultava e instruía”, segundo o padre José Artulino Besen. Por outro lado, deve-se a ele o início da organização do Museu Arquidiocesano Irmão Joaquim, instalado no antigo prédio do Seminário de Azambuja, em Brusque e que dirigiu durante muitos anos.

O recém-lançado livro “Santa Bárbara – Primeiro núcleo da colonização alemã em Santa Catarina” (reedição do IHGSC, série Ensaios) é uma homenagem aos antepassados que se instalaram na estradinha que ligava o litoral à Serra catarinense, saindo de São José e passando por Angelina.

De alguma maneira, a obra (a primeira edição foi lançada postumamente, porque ele morreu 14 dias antes da festa de Santa Bárbara, quando haveria o evento de lançamento) encerrou a carreira do cientista, que assim, no final da vida, resgatou as raízes de seus ancestrais. O padre José Besen diz que só uma orada em ruínas e uma capelinha permanecem na rodovia de terra batida onde já existiu um vilarejo chamado Santa Bárbara, que no século XIX contava com uma igreja, escola, cemitério, uma venda e algumas casas de família.

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