Conheça Rafa Fernandes, uma das primeiras alunas do Bolshoi em Joinville

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Rafaela começou a fazer balé aos oito anos, com dez entrou para o Bolshoi e hoje, aos 30 anos, dança em uma das companhias mais importantes do país

REPORTAGEM: Luana Amorim
EDIÇÃO: Raquel Schiavini Schwarz

Para homenagear a Escola do Teatro do Bolshoi do Brasil, que completa 20 anos neste domingo, dia 15, o nd+ preparou uma série de reportagens especiais que têm como protagonistas os alunos que tiveram suas vidas transformadas por meio da dança. É vida, é sacrifício e glória.

As páginas de um jornal são capazes de despertar diferentes sentimentos a cada nova matéria. Têm aquelas que assustam, que trazem reflexão ou que simplesmente levam um “quentinho no coração”. Mas, na família da bailarina Rafaela da Silva Fernandes existe uma modalidade inédita que é capaz de abrir portas, muitas vezes, inimagináveis: a capacidade de trazer o início de um sonho.

O sonho de ser bailarina transformou não só a vida de Rafa, mas de toda a família – Foto: Michelle Deslandes/Divulgação ND

A jovem de apenas 30 anos viu a vida mudar após a mãe ler uma matéria em um jornal na cidade de São Paulo. Logo nas primeiras linhas, a mulher se interessou por aquele assunto: A chegada da Escola do Teatro Bolshoi em Joinville. 

“O mais curioso é que a minha mãe não entende nada de dança, mas quando ela leu, ela se encantou e falou: minha filha vai estudar nessa escola”, relembra.

Mas o desejo da mãe de ver a filha nos palcos não foi algo que despertou apenas com a ideia da vinda do Bolshoi ao Brasil. Pelo contrário, desde bebê ela já via na filha caçula um futuro promissor no mundo das artes, principalmente na dança.

O começo 

Natural de Santos, Rafa iniciou seus estudos na capital paulista aos 8 anos por incentivo da mãe. Foi na escola que a bailarina começou a ter as primeiras noções de balé clássico.

“Ela (a mãe) sempre teve o sonho de ter uma filha bailarina. Percebeu que eu gostava de dançar, de ficar pulando pela casa o dia inteiro, foi aí que ela enxergou uma possibilidade de realizar o sonho”, conta. 

Rafa permaneceu na escola de balé por dois anos. Ao saberem da vinda da Escola Bolshoi para Joinville, as duas decidiram viajar a Santa Catarina a fim de realizar o teste, já nos anos 2000. Ao chegar na cidade, ela lembra que a escola ainda estava em construção. 

“Eu fiz (o teste) e passei. Com 10 para 11 anos, entrei no Bolshoi e só sai depois de formada. Eu acho isso muito curioso, ela (a mãe) totalmente leiga nessa questão de dança, de artes, sentia no coração que eu tinha que fazer parte daquilo”, enfatiza. 

Rafa, a primeira na foto, iniciou no universo da dança aos oito anos – Foto: Jackson Nessler/Divulgação ND

Outro momento que ainda está marcado na lembrança de Rafa foi justamente a etapa mais temida para aqueles que sonham com uma vaga na Escola do Teatro Bolshoi: a seleção. Ela relembra que, ao chegar para realizar o teste, ela se assustou com o tamanho e a experiência dos candidatos. 

“Lembro que eu fiz a audição na verdade para um curso superior. Quando eu cheguei, era a menor da turma e uma das mais novas. Então o que me assustou mais foi me deparar com o pessoal que era mais velho. Mas como sempre gostei muito de dançar, isso não me afetou. Eu fui e fiz a aula. Lembro que foi muito difícil, fiquei com dor no corpo depois, mas nada que me desmotivasse, pelo contrário, eu queria fazer mais daquilo”, relembra. 

Mãe acompanhou de perto os passos da bailarina 

O sonho de ser bailarina transformou não só a vida de Rafa, mas de toda a família. Com a notícia de que seria uma das integrantes da escola, mudou-se com os irmãos para Joinville que, junto dela, embarcaram na aventura chamada Bolshoi. Além disso, o apoio da mãe foi um dos principais estímulos para que a bailarina desse início ao sonho. 

Rafaela com sua mãe – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND

“Minha mãe jamais ia me deixar sozinha em uma cidade que ela não conhece e em algo que ela não sabia se ia dar certo. Então, ela deixou o emprego em São Paulo e veio comigo. Largou tudo e bancou meu sonho. Na verdade, era mais o sonho dela do que meu. Eu gostava muito de dançar, mas ainda não tinha noção do que eu queria ser quando crescesse, do que estava me aguardando no futuro”, relembra. 

Já instalada em Joinville, era hora de dar os primeiros passos. Como tudo ainda era novidade na escola e na vida de Rafa, ela relembra que os primeiros meses foram complicados. Tanto a mudança de escola quanto na rotina trouxeram desafios na vida da jovem. 

Um dos pontos que ela destaca é a disciplina, uma das características do ensino de balé russo. Ela conta que isso exigia dela não só muita atenção, mas também muita doação. Apesar de ter vontades comuns de adolescentes, como querer sair ou fazer outras atividades, ela deixava algumas delas de lado para poder se dedicar à escola. 

“Eu respirava dança, acordava pensando em coreografia, aulas e repertórios de balés, então, foi minha vida e tudo para mim”, conta encantada enquanto relembra os momentos em que percorreu os corredores da unidade. 

No Bolshoi, além das disciplinas de dança clássica, ela também teve aulas de dança contemporânea, gênero em que a bailarina se encontrou e que segue na vida dela até os dias atuais. “Ao ter contato com o estilo, senti que foi um divisor de águas para mim”. 

“Eu comecei a entender que aquilo era de verdade, não estava ali somente para brincar, para passar tempo, eu estava ali para ser realmente uma profissional da dança, então isso começou a fazer muita diferença na minha vida”, enfatiza. 

Do Bolshoi para os palcos do mundo 

Após oito anos estudando na escola, Rafaela se formou no Bolshoi e logo passou a integrar a Cia. Jovem da escola onde permaneceu por dois anos. Para ela, a experiência foi importante, principalmente por perceber que, após a formação, ela estava pronta para seguir na carreira de bailarina. 

“Quando a gente se forma, a gente pensa: para onde vou agora? O que eu vou fazer?, o que faço com esse diploma na minha mão, com esse currículo todo?. A Cia Jovem foi importantíssima justamente por isso foi uma demarcação de que eu estava pronta para seguir na carreira de artista”, enfatiza. 

Ainda dentro da Cia, Rafa, então, resolveu fazer uma audição para uma das companhias de dança mais importantes e tradicionais do país: o Grupo Corpo, de Belo Horizonte, em Minas Gerais. O grupo, que tem como foco a dança contemporânea, atua há 45 anos no Brasil.

Rafaela no Grupo Corpo, de Belo Horizonte – Foto: Michelle Deslandes/Divulgação ND

O teste mais uma vez veio com um resultado positivo: ela foi uma das selecionadas. Mudou para Minas Gerais em 2011 e permanece dançando em palcos mineiros até hoje. Inclusive, Rafa já teve a oportunidade de voltar a Joinville em duas ocasiões onde competiu com o grupo no Festival de Dança.  

“Participamos e dançamos no mundo inteiro. Somos convidados para participar de eventos, de aberturas de festivais, de vários eventos culturais e artísticos pelo mundo. Sempre tem uma viagem ou para Europa ou para os Estados Unidos ou as duas coisas no ano, dependendo o calendário, então é uma agenda bastante cheia, com muitas apresentações e muitas coreografias”, explica. 

As coreografias são de autoria de Rodrigo Pederneiras que a cada dois anos monta um novo espetáculo inclusive com trilhas sonoras exclusivas. No momento, por exemplo, o grupo vem se apresentando com o espetáculo “Gil” com composição de Gilberto Gil.  

“O Bolshoi é tudo”

Olhando para toda a trajetória nesses 20 anos inserida não só no mundo da dança mas também na história do Bolshoi um verdadeiro filme passa na memória de Rafa. A menina de São Paulo, que veio realizar o sonho em terras catarinenses, hoje é uma das grandes bailarinas em ascensão e um dos principais “destaques” da escola. 

Para Rafa, toda essa trajetória é resumida em apenas uma palavra de quatro letras que para ela define bem o que é a escola Bolshoi na vida dela. 

“Quando penso em Bolshoi e penso na minha trajetória, a única palavra que vem na verdade é TUDO. O Bolshoi foi tudo para mim e ele continua sendo tudo para mim. Foi lá que eu me descobri como artista e como pessoa e me encontrei”, resume o sentimento.