Conheça Uda Gonzaga, referência no Morro da Caixa, em Florianópolis

Com uma vida dedicada à educação, Uda Gonzaga é referência no Morro da Caixa por suas lutas sociais, atuação no Carnaval e catequese

Poucas pessoas ostentam tanta identificação com uma comunidade quanto Uda Gonzaga, 83 anos, com o Morro da Caixa, em Florianópolis. É uma vida inteira dedicada especialmente à educação, mas também à catequese, às causas sociais, ao Carnaval e à luta pela afirmação e aumento da autoestima das famílias que ali residem.

Uda se inspirava em Antonieta de Barros para seguir seus passos dentro da comunidade – Foto: Leo Munhoz/NDUda se inspirava em Antonieta de Barros para seguir seus passos dentro da comunidade – Foto: Leo Munhoz/ND

Esses moradores a têm como uma líder nata que se tornou protagonista com base no convencimento, na fala mansa, no aconselhamento, na valorização e estímulo a milhares de crianças e jovens que foram seus alunos.

Essa brilhante trajetória será oficialmente registrada no livro “Uda Gonzaga: a primeira-dama do Morro da Caixa”, cujo título resume o conceito da professora na comunidade e na cidade onde nasceu e que ajudou a mudar para melhor.

Em dez capítulos, o jornalista Ricardo Medeiros e a acadêmica de jornalismo Suyane de Lima narram aspectos da vida pessoal, as conquistas, os percalços eo reconhecimento que a professora obteve, após décadas de dedicação ao magistério e à melhoria das condições de vida num dos morros mais populosos da Capital.

O lançamento está marcado para o dia 10 de fevereiro, às 17h, nos jardins do Palácio Cruz e Sousa, em Florianópolis, mas o livro está na fase de pré-venda – uma maneira de custear a edição, bancada pela editora Dois por Quatro. Até o dia 9, véspera do lançamento, o volume sai por R$ 35. Depois disso, será vendido a R$ 39,90. A pré-venda pode ser feita pela internet ou pelo telefone (48) 98409-8222.

História de Gonzaga virou tema de livro – Foto: Arquivo pessoal/Reprodução/NDHistória de Gonzaga virou tema de livro – Foto: Arquivo pessoal/Reprodução/ND

Maria de Lourdes da Costa Gonzaga admite que já está nervosa com o evento do dia 10, mas se emociona ao contar, pela enésima vez, cada passo de sua vida e carreira. Ela trazia a marca de morar no morro, ser negra e de família humilde, e cada vitória representou um salto adiante no sentido da autoafirmação.

Foi a primeira mulher negra a se tornar professora normalista na comunidade e a terceira na história da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina) a concluir o curso de pedagogia, já com a idade de 40 anos.

Também quebrou barreiras ao se tornar membro titular do Conselho Estadual de Educação, tradicionalmente dominado por professores da rede privada e por reitores de universidades. Ali, quando teve poder de decisão, impediu mais de uma escola de abrir as portas sem atender às condições de funcionamento, sem biblioteca e laboratório, resistindo a pressões de diretores ávidos por encher as salas de aula de alunos.

Como ninguém é de ferro, e atendendo a apelos da comunidade, foi diretora da escola de samba Embaixada Copa Lord, em substituição ao marido, Armandino Gonzaga, que morreu jovem, aos 40 anos, em 1978.

O livro e a gratidão de um ex-aluno

Assim como a maioria dos antigos e atuais moradores do Morro da Caixa, também conhecido como MontSerrat, Ricardo Medeiros foi aluno de Uda Gonzaga na escola Lúcia do Livramento Mayvorne, entre 1971 e 1974.

Ele cursou jornalismo na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), estudou na França, onde realizou seu mestrado, passou por vários veículos de comunicação, foi professor em instituições de ensino superior e é assessor de imprensa. No ano passado, teve a ideia de ligar para dona Uda Gonzaga e saber como ela estava. O resultado da conversa é o livro que está prestes a ser lançado.

Como uma forma de gratidão à mestra de quem se lembrava com carinho, fez pesquisas e entrevistas, foi atrás da história da ex-professora e diretora e hoje sabe tanto de sua vida quanto a própria Uda, que esqueceu de detalhes que Ricardo, na empolgação do trabalho, cita com conhecimento de causa.

Sem filhos, dona Uda adotou e se tornou madrinha de filhos dos outros, no sentido de dizer-lhes que deveriam persistir, que uma vida melhor os esperava, desde que persistissem. Na vocação para ensinar, ela sabia que a educação abriria portas, e os médicos, advogados e professores que a agradecem hoje são a prova disso.

Como Antonieta de Barros, em quem se inspirou, ela sabe que o reconhecimento tarda a chegar, mas se satisfaz com o resultado que vê no morro onde mora. “Deus me ajudou muito”, afirma, com humildade.

Determinação para superar os preconceitos

Como fizeram seus pais, Júlio Sebastião da Costa Filho, pedreiro, dono de venda e funcionário dos Correios, e Angelina Veloso, lavadeira, Uda Gonzaga viu no estudo um atalho para a ascensão social. Por isso, como professora, incentivou crianças e jovens do Morro da Caixa a fazerem da educação o meio para superar as dificuldades que castigam as comunidades da periferia.

Foi aluna do Grupo Escolar Arquidiocesano São José, que recebia filhos de famílias pobres, e precisava andar três quilômetros, quase sempre correndo, para não perder as aulas. Concentrou-se nos cadernos e nos livros, e quando chegou ao IEE (Instituto Estadual de Educação) já tinha desenhado os passos futuros – como normalista, a partir de 1963, sabia que seria professora pelo resto da vida.

No IEE não havia professores negros – a exceção foi Antonieta de Barros, que dirigiu a instituição entre 1944 e 1951 e foi a primeira mulher negra eleita deputada no Brasil. Da mesma forma, Uda era a única negra na turma do curso de pedagogia da Udesc, que frequentou a partir de 1974.

Formatura do curso de pedagogia em 1978 – Foto: Arquivo pessoal/Reprodução/NDFormatura do curso de pedagogia em 1978 – Foto: Arquivo pessoal/Reprodução/ND

“A gente sente quando é discriminado pelos colegas”, diz ela. Perguntada se o preconceito refluiu de lá para cá, não dá uma resposta definitiva, mas é taxativa quanto à reação: “Hoje, não deixaríamos isso acontecer”.

Nada disso impediu que a professora extrapolasse a causa da educação e também liderasse campanhas e projetos que deram outra configuração ao Morro da Caixa. “Tinha muito barro e pedra nas ruas daqui”, recorda Uda. As professoras tinham que tirar o calçado no começo da rua e lavar os pés quando chegavam.

Com o esforço de todos, a rua General Vieira da Rosa, uma das principais vias do bairro, mudou de cara e hoje, além de pavimentada, é um caminho seguro para todos os que a utilizam.

Outra bandeira de dona Uda tem relação com a negritude. Em 1985, ela ajudou a fundar o Grupo de Mulheres Negras, depois transformado em Associação de Mulheres Negras Antonieta de Barros. Por essa entidade, recebeu a Medalha Zumbi dos Palmares, conferida pela Câmara de Vereadores de Florianópolis.

Samba com comida na mesa

A vizinhança e a identificação natural com a Embaixada Copa Lord fizeram com que Uda Gonzaga também entrasse na história do samba e do Carnaval de Florianópolis. Um mês depois de se formar na Udesc, em 1978, ela perdeu o marido, Armandino Gonzaga, que por sua causa havia deixado a escola Os Protegidos da Princesa, grande rival, para comandar a agremiação do Morro da Caixa.

Eles se casaram em 1965, e Armandino comandou a escola durante 13 anos. Com a morte dele, a comunidade entendeu que dona Uda seria a herdeira natural da presidência. “A Copa não tinha um tostão”, relembra ela. O jeito foi bater na porta das autoridades e viabilizar o desfile do primeiro ano para tentar, depois, reorganizar a agremiação.

Tema do desfile da Copa Lord em 2014 – Foto: Arquivo pessoal/Reprodução/NDTema do desfile da Copa Lord em 2014 – Foto: Arquivo pessoal/Reprodução/ND

Além de alcançar seus objetivos, ela conseguiu fazer a escola de samba ir além do Carnaval e se envolver com o dia a dia da comunidade, olhar para os problemas sociais, “pensar nos irmãos que passam por dificuldades”. A folia é sinônimo de alegria, mas não é tudo. “A felicidade tem que estar na mesa, no emprego, na educação dos filhos”, ensina.

Daquela época, dona Uda recorda, às gargalhadas, das brigas entre componentes e adeptos da Protegidos e da Copa Lord. “Eles vinham aqui e jogavam pedras na gente”, lembra.

Aposentada desde 2010, quando tinha 72 anos, Uda Gonzaga ainda teve tempo de receber muitas homenagens, medalhas e troféus. Em 2014, foi contemplada, no sambódromo, ao emprestar seu nome ao tema do enredo daquele ano, por iniciativa dos carnavalescos da Copa Lord. A última condecoração foi uma moção de aplauso dado pela Assembleia Legislativa do Estado pela sua dedicação a causas de inclusão social e ações afirmativas, em novembro de 2021.

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