Laudelino Sardá

Causos da Ilha, seus personagens, histórias e momentos do cotidiano de Florianópolis com quem conhece os cantos da Capital de Santa Catarina.


Da Santa semana ao insaciável consumo

Hoje, os hábitos mudaram com os insaciáveis desejos de consumo. Ao lado da canjica, a carne quebra a tradição

Padre Pedro Koehler não vai concordar, mas não se faz mais Semana Santa como antigamente, principalmente aqui na Cachoeira do Bom Jesus e em outras regiões do Norte da Ilha, onde parte das novas gerações se arrepia só ao sentir o cheiro da canjica.

Coelho da Pascoa – Foto: Gabriela Milanezi/NDTVCoelho da Pascoa – Foto: Gabriela Milanezi/NDTV

Até o fim dos anos 1970, colhia-se o milho na quinta-feira, bem cedo, e num alguidar ele ficava de molho até o dia seguinte, quando se iniciava seu cozimento em panela de barro sobre o fogão à lenha, adicionando-se o leite tirado da vaca de manhã bem cedo e o coco ralado.

Próximo do meio-dia, a família sentava-se à mesa para as orações, ao cheiro do mungunzá. Hoje, os hábitos mudaram com os insaciáveis desejos de consumo. Ao lado da canjica, a carne quebra a tradição.

Na época, só se comia carne se o gado, porco, cabrito e aves estivessem no pasto, mas, mesmo assim, o ardor religioso estancava o desejo de saborear o alimento de modernos ansiosos na sexta. Os nativos devotos já se adequaram à nova realidade, e o camarão e a corvina estão ao lado da canjica.

E na praia da cachoeira…

– Ô Venanço, és contra a brincadeira do boi? – Nem a favor. Quando soltavam o boi na rua e na praia, era um corre-corre danado. Meu pai trancava todo mundo em casa. Só no fim da tarde, quando carneava o boi, a gente ia lá pegar um pedaço. E tu ainda come canjica, Lelo?

– Sim, muita. Mas o peixe entra junto. Até o camarão. Eu tenho lembrança que naquela época ninguém trabalhava, tudo era fechado e a gente nem podia falar alto em casa, porque tinha gente na reza. Tu recebesse muito esporro da Mariquinha?

– Muito, muito. Mas hoje posso até berrar, porque agora ela só reza na Igreja e além de tudo tá meio que surda. (risos).

– Mas hoje tá tudo aberto, Visse ontem? Até açougue funcionou!

– É, a semana parece menos santa. Naquela época, o povo se reunia com abraços e no domingo de Páscoa era uma grande festa entre família e vizinhos.

– Os tempos são outros, Venanço. Não se olha mais na cara. Tudo agora está no celular. Até careta e beijos vão por esse aparelho.

– E tu tens visto a santa no celular? Nem tu, né?

– Tás brincando. Eu não uso isso não, tás tolo, tás?

– Nós tamo nas antigas, véio, esse povo é que tá na frente. Ao menos, acha que tá.

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