Marcos Cardoso

marcos.cardoso@ndmais.com.br A sociedade da Grande Florianópolis, os eventos culturais e as tradições da região analisadas pelo experiente jornalista Marcos Cardoso.


Desativada a última das grandes sociedades carnavalescas de Florianópolis

Tenentes do Diabo conquistou mais de 50 troféus em concursos de carros alegóricos e de mutação

Com a foto melancólica de um chassi enferrujado, a Sociedade Carnavalesca Tenentes do Diabo anunciou na internet em outubro de 2021 a interrupção de uma história iniciada em Florianópolis, em 1905, por militares transferidos do Rio de Janeiro.

Junto da Granadeiros da Ilha (1948), da Trevo de Ouro (1969) e da Limoeiro (1978) formou o quarteto das grandes protagonistas dos desfiles de carros alegóricos e de mutação, ganhando mais de 50 títulos.

As agremiações ficaram sem desfilar de 1993 a 2005 por falta de recursos, até que a prefeitura apoiou o retorno em 2006, permanecendo na programação até 2012. Em seguida, mais três anos sem participar do Carnaval; voltaram a se apresentar em 2016; e pararam outra vez.

O presidente, Rodrigo Leifer, em frente ao estandarte da Sociedade Carnavalesca Tenentes do Diabo – Foto: Acervo SCTD/Divulgação/NDO presidente, Rodrigo Leifer, em frente ao estandarte da Sociedade Carnavalesca Tenentes do Diabo – Foto: Acervo SCTD/Divulgação/ND

Presidida desde 1996 por Rodrigo Leifer – sucessor do pai, o delegado aposentado da Polícia Civil Paulo Leifer (que assumiu o cargo em 1983) -, sem galpão e apoio, entre paradas e retornos, assim como as coirmãs, encerrou mais uma memorável tradição, embora sua diretoria permaneça constituída.

“Agradeço por ter participado com muito amor, carinho e alegria com meu pai e amigos, representando a centenária vermelho e preto. Uma grife na Ilha! Foi maravilhoso”, diz Rodrigo, desde criança envolvido na agremiação.

Quando ocorreu a apresentação do primeiro carro alegórico da Tenentes do Diabo?

Suas atividades carnavalescas desenvolveram-se em março de 1949, sob a presidência do primeiro membro civil, o senhor Orlando Scarpelli. Sua sede estava localizada nos altos da rua Felipe Schmidt. Sua primeira alegoria foi sob um chassi de carroça, homenageando a Granadeiros da Ilha, saudando a entidade.

A Granadeiros, fundada em 1948, começou a desfilar carros na mesma época?

A Granadeiros da Ilha, tradicional da família Xavier, iniciou seus desfiles no mesmo período (1949). Teve a primeira presidente mulher na sua história, a senhora Marlene Xavier Nobre, em 2012.

Primeira alegoria da Tenentes do Diabo homenageava a coirmã Granadeiros da Ilha: “Os Tenentes saúda a Granadeiros na gestão do seu presidente Jairo Calado” – Foto: Acervo SCTD/Divulgação/NDPrimeira alegoria da Tenentes do Diabo homenageava a coirmã Granadeiros da Ilha: “Os Tenentes saúda a Granadeiros na gestão do seu presidente Jairo Calado” – Foto: Acervo SCTD/Divulgação/ND

Quando começou a competição entre as grandes sociedades?

As competições iniciaram quando começaram a surgir sociedades carnavalescas em Florianópolis, na década de 1950. Segundo o pesquisador Alzemi Machado, tínhamos num período nostálgico, mais de 40 grandes sociedades na cidade. Algumas apresentavam-se apenas uma única vez e logo fechavam as portas.

Quais eram o quesitos avaliados? Quantos carros cada sociedade podia apresentar?

Eram quatro quesitos em disputa: conjunto, carro da rainha, carro de alegoria e o principal, carro de mutação. Mínimo de quatro carros e máximo de seis alegorias.

“Escadaria Imperial”, carro da rainha de 1989 – Foto: Acervo SCTD/Divulgação/ND“Escadaria Imperial”, carro da rainha de 1989 – Foto: Acervo SCTD/Divulgação/ND

A Trevo de Ouro nunca ganhou um título. Não é curioso?

A Trevo de Ouro, a única sociedade sediada inicialmente na região continental, próxima à ponte Hercílio Luz, foi presidida pelo senhor Lauro Severiano Margarida. Jamais foi campeã do Carnaval muito em função dos trabalhos apresentados pelas concorrentes ao título.

Foi vice-campeã em 1992, quando reuniram-se pela última vez para participar do concurso, já sem a grande campeã em inovação (Limoeiro). Em 1993, desfilaram apenas Tenentes e Trevo de Ouro, sendo novamente vice-campeã. Em 1994, todas fecharam as portas por falta de projeto por parte da Secretaria de Turismo.

Quantos títulos a Tenentes conquistou?

A Tenentes do Diabo, ao longo da sua história, possui mais de 50 títulos, sendo nove consecutivos entre 1970 e 1978. Os troféus foram todos doados para o Museu do Carnaval, cujo tutor era o senhor Luizinho Santana. Inclusive o estandarte de 1949.

A banda que sempre acompanhou foi a Amor à Arte, com sede na rua Tiradentes, cujo presidente é o senhor Nélio Schmidt. Repertório somente de marchinhas carnavalescas, ou seja, bem raiz. Aos embalos de “Mamãe Eu Quero”, “Me Dá um Dinheiro Aí”, a sociedade carnavalesca desfilava.

Paulo Leifer, presidente da Tenentes do Diabo entre 1983 e 1996, na sala de troféus – Foto: Acervo SCTD/Divulgação/NDPaulo Leifer, presidente da Tenentes do Diabo entre 1983 e 1996, na sala de troféus – Foto: Acervo SCTD/Divulgação/ND

Um carro alegórico e um carro de mutação que consideras os mais marcantes para a Tenentes e por quê?

Dentre algumas alegorias marcantes, temos o navio denominado “Duas Épocas”, de autoria do artesão Donga, que faleceu antes de terminar o carro alegórico. Era um enorme navio, de cuja base um helicóptero decolava. Em sua homenagem, o navio levou o seu nome “Donga” (1973).

Tivemos o carro do Vitor Pedro da Silva, um complexo de antenas e bolas, denominado “Maravilha das Telecomunicações” (1985).

O ponto forte era o tema infantil: “Caixa Forte do Tio Patinhas” (1987), “Smurfs” (1987), “Balão Mágico” (1983), “Família Dinossauro (1993), “A Nave da Xuxa” (1989).

“Galéria Chinesa” desfila em 1972, na praça 15 de Novembro – Foto: Acervo SCTD/Divulgação/ND“Galéria Chinesa” desfila em 1972, na praça 15 de Novembro – Foto: Acervo SCTD/Divulgação/ND

Quem foram os principais artistas da agremiação?

Dentre os mais citados, o multicampeão David Gevaerd – em suas obras mais destacadas temos os “Pagodes Chineses” e as mutações arranha-céus; o artista plástico Murilo Pereira e suas caricaturas ou esculturas; o popular Cláudio Vieira, conhecido como Baca; e o senhor Nilton Manoel de Souza.

O artista plástico Murilo Pereira (à esq.) com Rodrigo Leifer e sua filha, Gabriela, em 2007 – Foto: Acervo SCTD/Divulgação/NDO artista plástico Murilo Pereira (à esq.) com Rodrigo Leifer e sua filha, Gabriela, em 2007 – Foto: Acervo SCTD/Divulgação/ND

Ainda há alguém com este conhecimento por aqui?

Embora em crescente processo de extinção, ainda temos alguns membros da geração de ouro (década de 1980) vivos. Temos consciência que jamais será como antigamente, mas o objetivo era não deixar perecer essa nossa linda cultura popular. Assim como o boi de mamão, Terno de Reis e procissões.

Leia também:

Participas da Tenentes desde os oito anos de idade. Quais atividades desempenhaste?

Eu, menino à época, era apenas figurante, desfilava nos carros da sociedade, única em que desfilei e aprendi a amar! Posteriormente, fui colador, decorador e projetista nas mutações, conhecendo a técnica adotada entre cabos de aço, roldanas e caixarias.

Me tornei presidente por acreditar que seria possível reunir em nossa cidade o tradicional e o contemporâneo, uma vez que estamos falando de uma arte/cultura genuinamente manezinha; que era possível povoar a praça 15, local histórico e berço dos desfiles, tornando o local mais uma atração do Carnaval em tempos de folia. Com menos funk, música sertaneja (nada contra, mas é Carnaval!). É preciso reverenciar as tradições locais.

Rodrigo Leifer (à dir.) figurando no carro de mutação “Bolo de Aniversário”, na avenida Paulo Fontes, em 1987 – Foto: Acervo SCTD/Divulgação/NDRodrigo Leifer (à dir.) figurando no carro de mutação “Bolo de Aniversário”, na avenida Paulo Fontes, em 1987 – Foto: Acervo SCTD/Divulgação/ND

Por que consideras os desfiles da avenida Paulo Fontes os melhores do Carnaval de Florianópolis?

Na avenida Paulo Fontes tínhamos o melhor Carnaval que a cidade já presenciou. Atrações em todas as noites. Sempre lotado. Próximo ao Centro Histórico. Contemplávamos blocos, escolas e as quatro grandes sociedades carnavalescas.

O último desfile das grandes sociedades ocorreu em 2016. Houve tentativa de retomada?

Foram realizadas várias tentativas na época. No gabinete do prefeito César Souza Jr., na Assembleia Legislativa, com o até então pré-candidato Gean Loureiro, com o intuito de que fosse contemplado um projeto global para que tivéssemos mais essa atração na cidade. Detalhe: custo-benefício irrisório, uma vez que a prefeitura tem um grande poder de captação ou venda do Carnaval.

Conseguimos sair do papel com o secretário de eventos da Setur, senhor Tiago Silva (nos confessou que a sua avó adorava os desfiles à moda antiga, sobretudo os carros das grandes sociedades). Foi uma alegria.

Longe de termos uma estrutura compatível aos tempos de outrora, abraçamos o projeto mais no entusiasmo do que propriamente na razão. Duas sociedades sob o mesmo teto, rivais, é impossível! Muito pior do que Avaí x Figueirense ou Lira x Clube Doze.

Desfile em 16 de abril de 1949, um Sábado de Aleluia – Foto: Acervo SCTD/Divulgação/NDDesfile em 16 de abril de 1949, um Sábado de Aleluia – Foto: Acervo SCTD/Divulgação/ND

Por que as sociedades não elaboraram um projeto em comum ou se uniram às escolas de samba para sobreviverem?

Chegamos a ter audiências públicas com o intuito de salvaguardar as grandes sociedades carnavalescas na Cidade do Samba, cada qual com o seu espaço para promover duas alegorias para apresentação. Cogitaram na época abrir os desfiles das campeãs, no aniversário da cidade, mas, infelizmente, nada saiu do papel.

Por sermos patrimônio artístico e cultural da cidade, amparados em lei de utilidade pública, seria muito mais fácil a prefeitura promover um projeto global de captação e repassar às grandes sociedades carnavalescas.

Vamos ser sinceros, nos dias atuais, precisa primeiro estruturá-las para posteriormente desfilarem novamente.

“Fonte do Desejo”, criado por David Gevaerd para o Carnaval de 1957 – Foto: Acervo SCTD/Divulgação/ND“Fonte do Desejo”, criado por David Gevaerd para o Carnaval de 1957 – Foto: Acervo SCTD/Divulgação/ND

O que poderia ser feito para resgatar as sociedades e de que forma elas poderiam voltar a participar do Carnaval?

Acredito que as três entidades podem contribuir: Limoeiro, Granadeiros da Ilha e Tenentes do Diabo.

Sem galpão, recursos e calendário é quase impossível tirá-las do álbum de acervo para os desfiles. Suas comunidades não possuem mais espaço físico para barracões. Precisava ser no complexo Cidade do Carnaval, anunciado algumas vezes pelo poder público municipal.

Talvez a praça 15 seja o local mais adequado (assim como ocorreu a Parada de Natal), por ser o coração da cidade e onde tudo acontece… fatos históricos, manifestações e Carnaval.

Tudo depende do poder público, do interesse. Por serem entidades exclusivas, não precisa de muita burocracia. Basta ser manezinho, ter uma sociedade no coração e boa vontade.

Mas, de todo coração, sinceramente, acho muito difícil retornarem. Quem vivenciou não esquecerá jamais! Nossa linda história na Ilha está escrita, registrada.

Participe do grupo e receba as principais notícias
da Grande Florianópolis na palma da sua mão.

Entre no grupo Ao entrar você está ciente e de acordo com os
termos de uso e privacidade do WhatsApp.
Loading...