Dia do Manezinho: as figuras mais icônicas e diversificadas de Florianópolis

Dos ilustres nascidos em Florianópolis aos anônimos que aqui moram e aos apaixonados por Floripa, sábado (5) é dia de celebrar a cultura da capital catarinense

Muitos manezinhos célebres já se foram, mas quem nasceu na Ilha de Santa Catarina há pelo menos meio século conheceu ou ouviu muito falar dessas figuras. Entre tantos deles é possível citar Cláudio Alvim Barbosa (o Zininho), Arante José Monteiro, o “senador” Alcides Ferreira, Armando Luiz Gonzaga, Chico Amante, Túlio Carpes, Nega Tide, Neide Mariarrosa, Tullo Cavallazzi, Manoel de Menezes, Darci Lopes, Saul Oliveira – e, é claro, Franklin Cascaes.

Escritor e folclorista Franklin Cascaes, um dos mais conhecidos florianopolitanos, ganhou a merecida homenagem em um mural no centro da cidade em 2017 - marcos jordão/ND
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Escritor e folclorista Franklin Cascaes, um dos mais conhecidos florianopolitanos, ganhou a merecida homenagem em um mural no centro da cidade em 2017 - marcos jordão/ND

Arante José Monteiro - Divulgação/ND
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Arante José Monteiro - Divulgação/ND

Zininho - Divulgação/ND
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Zininho - Divulgação/ND

Nega Tide - Divulgação/ND
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Nega Tide - Divulgação/ND

Dia do manezinho, - Divulgação/ND
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Dia do manezinho, - Divulgação/ND

No entanto, há os manés anteriores, aqueles que se esgueiravam pelas roças e ranchos de pesca do passado e que tinham essa denominação porque eram vistos como matutos, toleirões, avessos às modas da cidade.

Há menos tempo, surgiram os manezinhos de classe média, bem falantes e com bons salários, que incorporaram o epíteto da década de 1980 para cá.

Neste 5 de junho comemora-se o Dia do Manezinho, criado pela lei municipal nº 6.764, de 2005, e todas essas vertentes podem se considerar contempladas pela data.

Afinal, quem é o verdadeiro manezinho? Pode ser o homem do interior da Ilha que fala atropelando as palavras, o nativo que adora uma malinagem (expressão, aliás, típica dos manés), o sujeito que passeia com o curió na gaiola ou o que é simplesmente apaixonado pelas coisas de Florianópolis.

Diz-se ainda que mané de quatro costados é o que conhece todos os peixes das baías e do mar aberto, atravessou a ponte Hercílio Luz a pé quando nem se pensava em interdição, comprava roupas de domingo na loja A Modelar e assistia aos desfiles de escolas de samba, blocos e grandes sociedades no meio-fio da praça 15 de Novembro.

MEMÓRIA RECENTE

Os nativos mais fiéis ao modus vivendi ancestral pouco saem de casa nessa pandemia, mas alguns dão as caras nas bancas de peixe e tomam o ônibus de volta no fim da tarde.

O que não falta são manés urbanos, que defendem com vigor as coisas da Ilha, mas que nunca puxaram uma enxada e nem sabem jogar uma rede em dias de lestada ou vento sul.

Entre esses manés com diploma estão o engenheiro e artista plástico Átila Ramos e o funcionário público aposentado Décio Bortoluzzi, que se criaram no Centro ou próximo dele e têm a memória recente da cidade na cabeça.

Sentados num bar do Mercado Público, eles relatam saudades dos clubes sociais (Doze de Agosto, Lira, Quinze, Democrata), dos bares por onde os boêmios peregrinavam no fim da tarde, da “sessão das moças” no extinto cine Ritz (era para mulheres, mas a calçada oposta era um mar de marmanjos), dos pombeiros que vendiam de porta em porta, dos engenhos de farinha e açúcar do interior da Ilha, das rendeiras, benzedeiras e dos carroceiros que o asfalto expulsou.

“Hoje, o café do shopping é o ponto de encontro do pessoal do extinto Ponto Chic”, constata Átila, autor de um livro sobre os finados cinemas de rua da Capital.

Lista de personagens feita à mão

Se há um consenso em torno do tema, é o de que Florianópolis deve ao jornalista Aldírio Simões, morto em 2004, a valorização da figura do manezinho.

Ao criar o Troféu Manezinho da Ilha, em 1987, ele passou a condecorar uma vasta gama de personagens intimamente ligados à vida da Ilha, à sua história, memória e cultura.

Fosse no Mercado Público, fosse no calçadão da rua Felipe Schmidt, fosse em algum clube social da cidade, Simões, nativo de Canasvieiras, reunia a nata dos ilhéus mais empedernidos e distribuía homenagens a quem, por seu trabalho e resistência, investia no que a cidade tinha de mais autêntico e representativo.

Décio Bortoluzzi, que ajudava a montar a lista dos homenageados, lembra que a ideia do prêmio surgiu no bar Petit, depois Canto do Noel, na rua João Pinto, um dos locais mais caros aos florianopolitanos da gema.

Ainda hoje ele exibe as folhas com os nomes manuscritos, que incluem gente como Zé do Cacupé, Roberto Alves, Luiz Henrique Rosa, Édio Mello, Athos Jacinto, Orlando Pessi, Edison Andrino e Iriê Silva.

Ao lado de cada figura lembrada ia um pequeno currículo, a título de justificativa, explicando as razões da indicação.

“Eram figuras folclóricas, esportistas, comerciantes, jornalistas, músicos, políticos, gente ligada ao teatro e ao cinema, que de uma maneira ou outra contribuíam para o engrandecimento de nossa cidade”, diz Décio, que embute uma crítica no seu comentário:

“Hoje, nossos vereadores concedem medalhas a figuras que ninguém conhece e esquecem pessoas e marcas autênticas da cidade”.

Símbolos que os verdadeiros manés não esquecem

Falar de manezices implica citar lugares, situações e figuras que marcaram a vida de Florianópolis. Décio Bortoluzzi fala dos antigos motoristas de ônibus que sabiam onde cada passageiro morava e paravam o coletivo na frente de suas casas.

E de taxistas (ele lembra de Pachequino e Padeirinho) que eram chamados pelo nome por toda a cidade, do multiartista Valdir Agostinho, “autêntico mané” que ainda cria seus shows performáticos, de Gedeão Mansur, “mané turco” que foi comerciante do Mercado Público, e de lugares como o Bar do Ori, em Coqueiros, onde ocorria o “esquenta” da banca Mexe Mexe, de saudosa lembrança para os carnavalescos da Ilha.

Referências obrigatórias dos nostálgicos também são o Roda Bar, o Miramar, a Confeitaria do Chiquinho e o bar Bossa Nova.

No Ori, ainda há fotos da manés que já partiram, num espaço que Bortoluzzi chama de “painel das almas perdidas”.

Muitas dessas figuras são hoje lembradas no Carnaval, como bonecos gigantes nos desfiles do Berbigão do Boca – outra peça de resistência da cultura popular de Florianópolis.

Os hotéis com piano-bar também reuniam personalidades que, melhor aquinhoados do ponto de vistas financeiro, curtiam boa música e bebida num ambiente que a época considerava o suprassumo do requinte.

O empobrecimento que veio depois tem a ver com essas ausências, mas também com a falta de políticas de valorização da história e da cultura locais. “Não se vê mais alguém fazendo uma canoa de garapuvu ou brincando de boi de mamão”, lamenta Bortoluzzi.

Para Átila Ramos, o maior baque nas tradições que os manezinhos sustentavam foi o fim do Ponto Chic, bar e café que durante décadas reuniu nativos de todos os tipos na equina das ruas Felipe Schmidt e Trajano, no ponto mais central da Capital.

“Ficou caro para o proprietário manter a casa, e ele abriu um café na cabeceira da ponte Hercílio Luz, onde tem bom movimento”, afirma.

“A ponte restaurada, outro ícone mané, é a nossa Torre Eiffel, um dos principais atrativos atuais da cidade, onde as famílias vão passear no fim de semana, ver as gaivotas e os barcos passando”.

Outro manezinho de boa cepa é o publicitário George Peixoto, o Picolé, que se reúne com amigos em bares do Centro e mantém a prática da boa conversa sobre futebol, música, viagens e os bastidores do mundo político.

“Seja no Mercado Público, seja no Tralharia, seja na rua Vidal Ramos ou nas praias, esses bares são a cara da cidade”, garante. Ele vê como normal a transformação dos hábitos na Ilha: “Não há como esperar que uma cidade que saltou de 70 mil para 500 mil habitantes em poucas décadas mantenha os mesmos hábitos de sempre”.

O aposentado Décio Bortoluzzi e o artista plástico Átila Ramos relembram com saudades de bares, clubes e histórias da cidade – Foto: Leo Munhoz/NDO aposentado Décio Bortoluzzi e o artista plástico Átila Ramos relembram com saudades de bares, clubes e histórias da cidade – Foto: Leo Munhoz/ND

Um quiosque no calçadão

Esboço de quiosque feito por Átila Ramos para reavivar o centro histórico da cidade – Foto: Átila Ramos/Divulgação/NDEsboço de quiosque feito por Átila Ramos para reavivar o centro histórico da cidade – Foto: Átila Ramos/Divulgação/ND

A vontade de voltar a ter um ponto de encontro no coração da cidade fez com que Átila Ramos elaborasse o esboço de um quiosque nos moldes dos que existem em Curitiba e em outras capitais, em calçadões que servem de pontos de encontro dos moradores.

O engenheiro e pintor diz que gostaria de ver um equipamento desse tipo na esquina do Senadinho, substituindo o café Ponto Chic.

A sugestão é que o poder público invista na construção do quiosque, cedendo-o depois em comodato à Associação dos Amigos de Florianópolis, que já tem sua sede simbólica naquela esquina privilegiada.

“A prefeitura quer revitalizar os lados da praça 15 de Novembro, e um espaço como esse ajudaria a reavivar o centro histórico”, avalia. “E nade impede que o nome Ponto Chic seja mantido”.

FRASES

“Hoje, para encontrar um verdadeiro mané é preciso batalhar. Para piorar, os administradores da cultura de nossa cidade não tem iniciativa e criatividade”.

Décio Bortoluzzi

“Hoje, os manezinhos se reúnem nos cafés dos shopping centers. Dizem que ali é o Ponto Chic dos ricos”.

Átila Ramos

“Eu ainda brinquei de bola de gude, bola demeia e carrinho de rolimã. Isso tudo foi substituído por jogos de computador”.

George Peixoto, o Picolé

ALGUNS TERNOS MANÉS

O jornalista Fernando Alexandre, que morreu em abril deste ano, publicou o “Dicionário da Ilha – Falar & Falares da Ilha de Santa Catarina”, obra que somava 3.732 verbetes. A seguir, alguns deles, que retratam o modo de falar dos manezinhos autênticos.

  • Tresontonte – três dias atrás
  • Mazanza – tolo
  • Ajojado – quieto, manso, meio doente
  • Dicroca – de cócoras
  • A migueli – Muito, bastante
  • Intisicar – provocar
  • Canaro – canário
  • Onodi – eu não dei
  • Adepôgi/Adispôgi – depois
  • Carambota – cambalhota
  • Catredal – catedral
  • Dijahoje – ainda agora
  • Galfo – garfo
  • Minervei – fiquei nervoso
  • Pópará – pode parar
  • Quecoquero – o que eu quero

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