Documentário é boa porta de entrada para ideias e ações de Helio Jaguaribe

FOLHAPRESS – Nascido há 95 anos, Helio Jaguaribe tem feito incursões pelas ciências sociais, pela filosofia, pela história, pelas relações internacionais. É um enciclopedista, como diz um amigo em cena do recém-lançado “Tudo É Irrelevante”. 

Dirigido por Izabel Jaguaribe, uma das filhas de Helio, e Ernesto Baldan, o documentário começa pelas implacáveis observações do intelectual carioca em torno da metafísica. “O homem é um momento fugaz entre o nada que precede seu nascimento e o nada que se segue à sua morte.” 

Apesar da clareza e da assertividade, reflexões como essa não bastam para fazer cinema. Os diretores usam outros meios para desenvolver o filme, mais um ensaio ou um recorte biográfico do que uma cinebiografia convencional.

A narração de Fernanda Montenegro faz a ligação entre comentários de Jaguaribe e de amigos. As imagens de todos aparecem combinadas com intervenções sobre fotos, ilustrações e vídeos, uma aposta bem-sucedida da direção de arte assinada por Baldan e Indio San. O recurso ajuda a diluir o efeito monocórdio da sucessão dos depoimentos, mas, ainda assim, o filme ganharia com seleção mais rigorosa das declarações. 

Além das observações do próprio Jaguaribe, os mais valiosos depoimentos são do diplomata e filósofo Sérgio Paulo Rouanet. É ele quem faz referência ao Iseb (Instituto Superior de Estudos Brasileiros) como a “mais formidável máquina de pensar que o Brasil já teve”.

Criado em 1955, o Iseb foi o centro teórico do nacional-desenvolvimentismo, projeto que estimulava a industrialização do país. Como um dos principais nomes do Iseb, Jaguaribe exerceu influência sobre o governo Juscelino Kubitschek (1956-1961). Em nenhuma outra época como nesses anos 1950, o sociólogo assumiu tão fortemente o papel de intelectual público, aquele que, nas suas palavras, “procura contribuir para o aperfeiçoamento da sociedade”. 

O filme não aborda a participação de Jaguaribe como secretário de Ciência e Tecnologia do governo Collor (1990-1992), talvez porque os diretores não a julguem relevante, talvez porque tenham optado por manter o documentário longe do vespeiro da política brasileira recente. É uma pena porque o intelectual público se constitui como tal ao, entre outras coisas, correr os riscos do exercício do poder.

Mas a omissão não chega a macular o filme, uma boa porta de entrada para o conjunto de ideias e ações de Helio Jaguaribe.

TUDO É IRRELEVANTE, HELIO JAGUARIBE

QUANDO Brasil, 2017

CLASSIFICAÇÃO 10 anos

DIREÇÃO Izabel Jaguaribe e Ernesto Baldan

AVALIAÇÃO Bom

+

Cultura

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