‘Dona da noite’, Helena de Lima celebra 91 anos cantando

ETEL FROTA

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Enquanto na quarta (17), o mundo recebia mais uma delação, a fiel e arrebatada plateia de Helena de Lima a assiste cantar em um bar do Leblon.

No dia exato de seu 91º aniversário, em pé e altiva, vai desfiando uma verdadeira antologia de seus quase 70 anos de carreira em 16 canções. “A Moça não deixa por menos”, diz a socióloga Marina Teixeira, 70, produtora e curadora informal da obra da cantora, seu anjo da guarda.

De vestido longo, preto, salpicado de brilhos, e com pouca maquiagem, Helena ostenta como ornamento principal o sorriso amplo que, junto com a voz, lhe angariou uma legião de fãs apaixonados -Ary Barroso entre eles.

“Ela emociona porque desenha a música com o olhar, com as mãos, com todo o corpo”, afirma Antenor Luz, 73, há mais de 20 anos seu violonista, arranjador, roteirista, vocalista. “Meu maestro”, repete a cantora seguidamente, com um olhar cúmplice e grato.

Em uma mesa na fila do gargarejo, o jornalista, crítico, pesquisador e historiador musical Rodrigo Faour, 44, acrescenta: “Helena é uma das últimas remanescentes da era de ouro da noite. Ao contrário de outras cantoras de sua geração, ela não fez carreira no rádio; seu primeiro grande sucesso e seu auge discográfico só foram acontecer nos anos 1960”.

Ele se refere à gravação de “Estão Voltando as Flores”, de Paulo Soledade, em 1962, e ao fato de que mais da metade de toda a discografia da cantora tenha sido lançada durante essa década. “É uma ‘última de série’, tem um estilo que vai morrer com ela. Os tons em que ela canta hoje são os mesmos de 50 anos atrás. É impressionante”, diz.

“As cordas vocais são músculos, envelhecem e perdem a tonicidade, como o resto do corpo”, ensina a professora de canto Ana Cascardo, 45. “A prática persistente do canto e o correto uso de técnicas vocais, no entanto, podem desacelerar a velocidade dessas perdas”, completa.

Haja prática e técnica. Aos 91, regendo seu maestro -a quem indica, com um gesto delicado, os momentos em que o acompanhamento deve ceder um espaço de silêncio aos seus formidáveis vibratos- Helena de Lima mantém impecáveis a afinação e sustentação da voz, interpretando, sem um vacilo sequer, as letras das canções. Haja, também, alegria. “Como a música faz bem à gente, né?”, exclama, à guisa de agradecimento pelos aplausos entusiasmados, repetindo o que tem sido um verdadeiro bordão ao longo de sua longa vida.

Daqui a pouco, a fiel e arrebatada plateia de Helena de Lima deixará o bar do Leblon e será, finalmente, confrontada com o mundo que está se acabando lá fora, na noite dessa quarta (17). Mas ainda não. Sob o encantamento daquela a quem César Ladeira chamou “a dona da noite”, há quem enxugue uma lágrima, há quem combine um próximo encontro no show dos 92 anos. Ainda há, sobretudo, tempo para cantar junto com ela a marcha-rancho. “Estão voltando as flores, como é bonita a vida, há esperança ainda”. Haja música.

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