Marcos Cardoso

A sociedade da Grande Florianópolis, os eventos culturais e as tradições da região analisadas pelo experiente jornalista Marcos Cardoso.


Entrevista: Alessandra Gutierrez Gomes

Bailarina, professora e coreógrafa de danças espanholas pesquisa a história deste gênero artístico em Florianópolis, e tem feito descobertas fascinantes

Alessandra Gutierrez Gomes – Foto: Leda Lacintra/Divulgação/ND

Licenciada em geografia e especialista em Educação e Meio Ambiente, Introdução aos Estudos Africanos e da Diáspora pela Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), ela também pratica e estuda dança desde muito cedo. Há sete anos, dá aulas a bailarinas de todas as idades num estúdio de arte e terapia que criou em sua casa e coreografa um grupo amador de alunas. Alessandra, agora, cursa especialização em dança educacional pela Faculdade Censupeg, tendo como tema de pesquisa a história das danças espanholas em Florianópolis.

Como despertou teu interesse pela dança e, especificamente, pelas danças espanholas?

Desde criança, tive oportunidade de ter contato com a dança nos mais diversos espaços da cidade e nos projetos oferecidos para a comunidade, como os da UFSC, Sesc, Paula Ramos (Esporte Clube). Maravilhosos professores. O que mais me marcou foi na adolescência, e me inspira até hoje, por sua capacidade criativa sem limites, o professor Ildo Rodrigues, que dava aulas no Sesc.

Meu primeiro contato com a dança espanhola foi em uma viagem a Sevilha, no início dos anos 2000, em um bar onde havia música flamenca ao vivo. Ver aquele povo todo dançando com aquela força e energia foi algo que me impactou, porque foi uma experiência real, não foi no teatro. Acho que é o que acontece com os estrangeiros quando caem nas rodas de samba pela primeira vez aqui no Brasil.

Que outros gêneros de dança praticaste?

Na infância, passei pelo balé. Na adolescência, pelo jazz, dança rítmica, ginástica rítmica, experimentei a dança de salão com o saudoso Silvio Luna. Já na época da faculdade, passei pela capoeira, dança do ventre e depois fui me aventurando pelo teatro, tribal fusion. Finalmente chego ao flamenco, já adulta, com filhos pequenos, uma outra fase da vida, sem outras pretensões, como ser professora, buscando na dança apenas atividade física recomendada por médico.

Como a dança-educação pode facilitar o aprendizado para os estudantes?

Além de todos os aspectos positivos no quesito bem-estar/saúde que a dança proporciona, seja físico ou mental, a dança dentro da escola precisa se posicionar como possibilidade de espaço para reflexão na afirmação das diferenças e valorização da diversidade. Conhecer a cultura do outro, valorizar e conhecer a nossa cultura. Dentro das danças de matrizes africanas ou indígenas, por exemplo, como foco de identidade brasileira, afirmar a importância destas danças enquanto manifestações de arte, memória, criação.

Onde estudaste danças espanholas? Quem foram os teus professores?

Comecei a fazer o flamenco na escola Kirinus, passei pela escola de Carol Ferrari e por diversos professores que vinham de fora dar workshop, que sempre foi a oportunidade de aprender coisas novas.

Assim que comecei a estudar o flamenco de uma forma mais teórica, tentar compreender todo esse universo (que nunca se esgota), fiquei muito curiosa em fazer aulas com professores da América Latina e conhecer esses corpos que foram colonizados por espanhóis e a relação com essa arte.

Afinal, são países diversos, com culturas diferentes, o índio, o negro e o espanhol. Então, embarquei nessa aventura, fiz aula com professoras argentinas, uruguaia, paraguaia, mexicana e colombiana, algumas em seus países. E ainda tem muitos lugares para explorar, coisa de geógrafa.

“Todas Somos Carmen”, espetáculo de dança espanhola coreografado por Alessandra Gutierrez Gomes – Foto: Rafael Gerent/Divulgação/ND

O tema da tua especialização é a história dança espanhola em Florianópolis. O que provocou este assunto?

A partir de um trabalho desenvolvido na disciplina de história da dança, da especialização em dança educacional, assistindo aos vídeos das precursoras da dança moderna da América do Norte, percebi que havia alguns movimentos que lembravam o flamenco, e comecei a pesquisar para ver se encontrava relações – e, sim, encontrei muitas!

Esta descoberta me encantou, especialmente, com esse período da história na dança. Assim, comecei a mergulhar naquela época – fim do século 19 e início do 20 –, apaixonada por toda a troca cultural, transformação, aprendizagem e intercâmbio desses bailarinos, entre o novíssimo e o velho Continente, num tempo onde o deslocamento no espaço era feito por navios, não havia recursos de apoio como vídeos, internet, para auxiliar na aprendizagem da dança.

Quando esses bailarinos começaram a se aventurar pelo mundo, lá no “início de tudo” (fins do 19), quem veio para o Brasil?  E para Florianópolis, veio alguém? Em que época? Como as pessoas daqui do Brasil e de Desterro/Florianópolis entram em contato com esta cultura da dança e música espanhola?

Eu ainda estou em fase de aprofundamento das fases históricas da dança na Espanha e traçando paralelos com o Brasil, pois é preciso investigar a movimentação desses bailarinos pelo território nacional, para poder chegar em Florianópolis/Desterro.

Quem está me orientando também nas pesquisas é o meu marido, Rodrigo Rosa, que é historiador. A troca de experiências é assunto que não acaba mais. E eu sou uma geógrafa dançarina ou dançarina geógrafa, que ama os mapas, a história e a geografia da Ilha de Santa Catarina, e a dança espanhola como um todo.

O foco da pesquisa que desenvolvo é contar curiosidades da história da dança espanhola em Florianópolis. Este movimento no território nacional refletiu neste intercâmbio cultural aqui na Ilha, que é correspondente ao período pré- flamenco – “Edad de Oro e Ópera Flamenca” (da história do flamenco na Espanha: 1860/1955 para Caballero; 1864/1936 para Nuñez)

Tens encontrado material de pesquisa?

Este trabalho está sendo pesquisado em periódicos do final do século 19 e começo do 20, fontes primárias. É através deles que irei contar essa história, escrevendo em primeira pessoa, haja vista a absoluta falta de fontes bibliográficas abordando o tema, embora eu tenha feito já alguns conatos com professores e pesquisadores e ainda não há nada formalizado sobre o assunto.

Conte um pouco sobre o conteúdo garimpado.

Dentro do período histórico que eu delimitei e com as fontes que escolhi pesquisar, que foram os jornais impressos, pois também quero mostrar a importância deste veículo de comunicação para se fazer história, buscar dados que muitas vezes não se encontra em livros ou mesmo em outras pesquisas, o que percebi, a princípio, foi um contato com a arte como espectador.

No sentido de assistir a apresentações em teatro da dança e música espanhola, havia muitos recitais de pianos no TAC (Teatro Álvaro de Carvalho) e mesmo no Clube Doze de Agosto. Pianistas estrangeiros, concursos com cantores e musicistas de Florianópolis.

No repertório, muitas músicas orquestradas de Falla, pois a dança espanhola dentro de período chamado Ópera Flamenca, que vai até por volta 1955, era conhecido pelas apresentações também em teatros, e as grandes orquestras eram as protagonistas, na Espanha. Então, a música e a dança aconteciam juntas, e nós, aqui na Ilha, tínhamos contato com essas músicas. Vinham bailarinas, grupos ou, às vezes, os músicos.

Depois, com o cinema, o contato com essa cultura também se estabeleceu. Os jornais faziam críticas dos filmes, que sempre tinham um bailado, falavam dos bailarinos, cantores, os artistas espanhóis em geral. Encontrei nos nossos jornais, dentro do período que pesquiso matérias, nomes como Carmen Amaya, Pastora Império, Vicente Escudero, Argentinita, Niña del Peines.

Quem conhece um pouco da arte flamenca, sabe o peso destes artistas dentro da sua história, e é fantástico saber que essas informações circulavam por aqui nos jornais.

Agora, dentro de uma visão mais de aulas ou escola de dança específica, do espaço-tempo que eu pesquiso, no jornal, só encontro referência a uma apresentação de dança espanhola de alunas do Colégio Educandário Coração de Jesus, em 1963, no jornal “O Estado”, mas, infelizmente, não aparece o nome da professora que ensina.

Acredito que nas escolas de balé se tenha estudado dançados dos clássicos espanhóis, mas ainda não encontrei nas fontes dos jornais especificamente, e, como a pesquisa está aberta e em desenvolvimento, toda colaboração é bem-vinda.

Nota publicada no jornal “O Dia”, de Florianópolis, em 1917, encontrada por Alessandra Gutierrez Gomes em sua pesquisa – Foto: Divulgação/ND

Entre as tuas descobertas, o que tem te surpreendido?

O que tem me deixado bem apaixonada são as “dansarinas hespanholas”, o protagonismo delas nessa época dentro da cena artística, principalmente na Espanha, e suas peripécias. “Hespanholas”, entre aspas, porque muitas são falsificadas, algumas vêm dos países vizinhos, consegui monitorar pela entrada nos portos.

E Thelma Elita, uma bailarina de dança espanhola que nasceu em Florianópolis e foi morar no Rio de Janeiro ainda criança. Estudou balé clássico, mas, ainda menina, se encantou pelo bailado de Madiquita Flores, uma consagrada bailarina espanhola. Foi aluna de Antônio de Córdoba, fez muitas apresentações quando criança no TAC e no Lira Tênis Clube, no começo dos anos de 1950.

Qual o registro mais remoto que encontraste até agora?

A primeira apresentação em teatro foi de Mendoza Ruiz, em 1863, pré-flamenco, no antigo Theatro São Pedro de Alcântara (particular).

E a época de “ouro”, quando foi? Quem eram as artistas de sucesso daqui ou que passavam por aqui?

No anos de 1940 aos 1950 foi a época que mais encontrei registros nos jornais,  de bailarinas que passaram por aqui: 1940, Maruja Natal; 1954, Rosita Mils, Carmen Sebrian; 1950, Triana Romero; 1954, Thelma Elita.

Alessandra Gutierrez Gomes no palco – Foto: Toia Oliveira/Divulgação/ND

Achaste registros sobre o ensino da dança espanhola em Florianópolis?

Não encontrei ainda, não avancei as pesquisas além daquele período que estipulei. Estou pensando como capítulos de um livro. Fiz uma entrevista há pouco tempo com a Isabel Soares, que acredito ter o espaço mais antigo dedicado ao flamenco em Florianópolis, que é dos anos de 1980, mas ainda não posso afirmar, pois preciso aprofundar as décadas de 1960 e 1970.

A arte flamenca na Espanha vem sofrendo “mutações, transformações com a interação com as variadas ‘formas sociais’, e isso reflete dentro das distintas etapas de sua evolução e definições de estilos, desde o dito pré-flamenco – meados do século 18 às últimas décadas do século 19 – até atualidade”.

Os primeiros professores de flamenco de Florianópolis vieram de vários lugares do Brasil, trazendo toda uma bagagem de repertórios conforme a época que vinham chegando por aqui e o que aprenderam em sua época.

Isabel, neta de espanhol, por exemplo, vem para Florianópolis nos anos de 1980. Paulista, aprendeu as danças espanholas ainda criança com a família e em meio aos imigrantes espanhóis em Cafelândia (SP). Em entrevista, diz que, na época em que veio trabalhar aqui, nas férias, ia para a Espanha aprender o flamenco. Dava aulas particulares a pequenos grupos e, quando se aposenta, em 1995, abre a sua escola na Lagoa da Conceição, e a mantém por 12 anos.

Segundo ela, com a chegada de professores mais jovens em Florianópolis, nos anos 2000, com um flamenco mais técnico, ela percebeu muita diferença, e já não conhecia e se reconhecia no seu flamenco de outros tempos. Temos aí, dentro da história do flamenco em Florianópolis, um ponto de “mutação, transformação”.

Dos anos 2000 para cá, surgiram, em média, 20 professores de flamenco, muitos de fora, passagens rápidas, sem dúvida, trazendo muita contribuição para o desenvolvimento desta arte. Dentre estes professores, os formados e formando outros professores dentro do flamenco em Florianópolis.

Cena do espetáculo “Todas Somos Carmen” – Foto: Rafael Gerent/Divulgação/ND

Quando se fala em dança espanhola, é comum nos remetermos ao flamenco. Quais outras modalidades existem?

Danças espanholas podem ser divididas em quatro grupos: danças folclóricas (ou regional), escola Bolera, flamenco e danças estilizadas (ou clássico espanhol).