Marcos Cardoso

A sociedade da Grande Florianópolis, os eventos culturais e as tradições da região analisadas pelo experiente jornalista Marcos Cardoso.


Entrevista: Margarida Baird

Carioca radicada em Florianópolis, a atriz dirige o Círculo Artístico Teodora e, agora, declama letras de música no Instagram, com o projeto “A Noite do Meu Bem”

Foto: Mariana Rotili/Divulgação/ND

Carioca radicada há 36 anos em Florianópolis, ela já chegou atriz experiente para dar aulas. Atuou com grandes nomes nacionais em teatro, televisão, cinema e, desde 2013, dirige o Círculo Artístico Teodora, na casa onde morou, no Campeche. Em junho, Margarida estreou em um novo canal, a internet, declamando no Instagram letras de música em “A Noite do Meu Bem”. Aos 75 anos, tem outros projetos, grandes e a longo prazo, mas ainda não é hora de contar.

Quando e por que vieste morar em Florianópolis?

Vim para Florianópolis, de vez, em 1984. Eu já tinha estado aqui no ano anterior, quando dei oficinas em Florianópolis e em Brusque. Eu vim porque queria dar aula de teatro, não estava feliz com a minha vida no Rio de Janeiro. Estava uma coisa meio descompassada, não estava bom. Aí, uma amiga, a Isolete Dozol, me convidou para vir dar cursos aqui, já que o Sesi tinha construído um espaço que seria um teatro. Topei e vim por isso, para ficar dois anos e já estou há 36 anos.

Trabalhaste com grandes nomes do teatro brasileiro, como Augusto Boal, José Celso Martinez Corrêa, Marco Nanini, Marieta Severo, Marília Pêra e Wolf Maya, no eixo Rio-São Paulo. O que sentiste quando conheceste o panorama teatral catarinense da época?

Olha, essa coisa da celebridade, né? No eixo Rio-São Paulo você está em contato com as celebridades, pois é o núcleo da produção cultural no Brasil. E aqui, obviamente, a coisa estava bem mais para trás. Mas eu vim para dar aulas, para incentivar. Foi meio chocante no começo, porque havia muita desarmonia entre os grupos e eu sentia muita falta de ser atriz, estar no palco como atriz. Eu estava no palco como professora, mas é diferente.

Com a criação do curso de artes cênicas na Udesc [Universidade do Estado de Santa Catarina], as coisas foram melhorando muitíssimo. Acho que agora nós temos, realmente, grupos de muito valor trabalhando. Sempre tivemos atores bons, sabe? Eu estava pensando no [espetáculo] “Eu Vivo Numa Ilha”, com a Fátima Lima, do Grupo A.

Vi muitas coisas muito boas, O Dromedário Loquaz, o Isnard Azevedo… Mas o problema que eu via na época, e continuo vendo agora, é a criação de plateia. Não há o hábito de se ir ao teatro, porque há muito pouco teatro infantil que estimula a criança a gostar do que está sendo apresentado no palco. Um dos meus sonhos é, realmente, fazer, montar um espetáculo para crianças. E eu conto histórias, mas é diferente, não é fazer teatro, é outra coisa.

Foto: Mariana Rotili/Divulgação/ND

És formada em secretariado. O curso contribuiu em algum aspecto da vida teatral?

Olha, o secretariado… não, não me serviu. Ele me serve, até hoje, um pouco para como organizar melhor as minhas coisas. Fiz para poder trabalhar. Minha tia era secretária, e eu sabia que eu ia ter que trabalhar e também para terminar o segundo grau, que na época não chamava segundo grau. Porque eu sabia que mesmo fazendo teatro, um dia, eu ia querer fazer faculdade. Porque eu sou assim. E isso aconteceu, e eu tinha lá meu diplominha muito bonitinho de secretária.

Dizes que és uma mulher urbana, com vivência forjada na cidade. Mas vieste morar no Campeche, apesar do crescimento, um bairro praieiro e interiorano, longe do centro nervoso. Resolveste buscar sossego?

Sou urbana, sim. Fui criada na cidade do Rio de Janeiro. Fui para o Campeche porque eu queria comprar um lugar aqui. Eu queria ter ficado na Trindade, era mais próximo do meu trabalho, mas não foi possível, e apareceu esse lugar no Campeche. Era um espaço lindo, cheio de abacateiros e muito picão, e eu sabia que ali eu ia construir alguma coisa. Sou assim: aparece a oportunidade e eu vou, sou corajosa! Então, não é que fui em busca de sossego, eu queria ter um espaço meu.

No momento, não moro mais no Campeche. Lá funciona o Círculo Artístico Teodora. É claro que vou lá e fico muito lá. A parte de cima do prédio é ocupada por mim e pelo meu marido, e o Círculo funciona embaixo. É um lugar que eu sempre sonho em voltar, porque eu gosto muito de ter a horta, do ar livre, do contato com a natureza, de criar ervas. Gosto muito disso. Tem todo um lado meu voltado à natureza.

O público de Florianópolis, apesar de ávido por cultura e frequente no circuito, às vezes, decepciona com a ausência nos teatros. Se na região central, de acesso mais fácil, já ocorre isto, por que abrir uma casa de espetáculos em um local escondido, no Campeche?

É porque eu tenho o Sol na casa 12, de peixes – o que acontece é porque há uma sintonização com os mistérios da vida. Aconteceu que era a minha casa e eu sempre a abri para eventos, encontro aos domingos… Faz parte da história daquele lugar ter cursos, fazer ensaios, trazer pessoas, e continua sendo assim.

São poucas pessoas, é um espaço pequeno. Mas é um grande prazer, porque eu sempre quis ter um teatro. E eu tenho! Eu tenho uma sala, que tem refletores, tem mesa de luz, tem cadeiras, tem cortina… E por que não? Só porque é escondidinho? As pessoas sempre descobrem. Quem quer, chega! E chegam, dependendo do que a gente oferece.

Nem sempre é satisfatório. Nós temos que nos virar de outras formas, mas ao mesmo tempo é um grande prazer. Quando fizemos “Maria Madalena” e aquela salinha lotou, foi inenarrável! Quando tivemos um espetáculo com o Régius Brandão e a sala lotou, foi um prazer enorme. Quando as pessoas ficam tomando vinho depois, sabe, é muito bom!

O que importa não é tanto a quantidade, é a qualidade. Quem vai, sabe que vai ter coisa boa para ver. Porque eu confio nisso, confio na qualidade do que é apresentado lá. E também fiz isso porque eu sou ousada, quando quero fazer alguma coisa, eu vou lá e faço. Se é plausível ou não, eu não sei, mas vou lá e faço, se é o que eu quero fazer.

Foto: Massashi Murahara/Divulgação/ND

Certa vez, em um sonho, dizias a um amigo que precisavas investir em projetos antigos. O Círculo Artístico Teodora, oficializado em 2013, era um deles?

Não. Investir em projetos antigos foi o que me levou à montagem de “Maria Madalena”, em 2018. O Círculo já existia e, no sonho, o amigo era o Paulo Wolf, que trabalhava no Círculo na época. Eu o convidei para dirigir “Maria Madalena”, que foi um grande presente do universo para mim, e a peça ainda está presente. Me fez ver a sincronicidade, prestar atenção nos meus sonhos e ver que realmente coincidência não existe.

Até há pouco tempo, um ator podia dizer que “fez de tudo”, referindo-se ao teatro, à televisão, ao cinema, ao circo e ao rádio. A internet abre mais uma possibilidade. Já havias pensado em criar para este meio ou o projeto “A Noite do Meu Bem” foi um insight na pandemia?

O projeto “A Noite do Meu Bem” veio por conta da pandemia. Comecei a fazer aulas de dança virtuais. Danço aqui, na minha sala, mas a aula é virtual. E eu amo dançar. Nós dançávamos muito “Cavalgada”, do Roberto Carlos, e eu tenho paixão por esta música. Acho que é uma poesia dedicada ao amor físico, com muita delicadeza e com muito tesão também. E eu pensei “acho que eu poderia dizer isso”.

Eu sabia que poderia tirar a instrumentação, o acompanhamento, porque a minha filha é cantora, e ela fez isso no aniversário dela. Ela pegou as músicas que ela gostava de cantar e fez um karaokê. Foi maravilhoso.

E eu sempre gostei muito das letras de fossa, de dor de cotovelo, da música brasileira. Fui criada com isto. Os sambas-canção são da minha geração, anos 1940 e poucos, 1950… Nasci depois, mas tudo bem. São letras muito bonitas e muito doloridas.

Sempre fui apaixonada pelas letras de Antônio Maria. E agora, na pandemia, eu tava lendo o livro do Ruy Castro, que eu tinha na minha estante há um tempão e eu não tinha lido ainda, que se chama “A Noite do Meu Bem”, e que ele conta a história do samba-canção no Rio de Janeiro. E aí, “ah! eu vou dizer essas músicas que eu amo”.

Então, botei “Chove lá Fora”, que é uma música com meu namoradinho, que tinha 16 anos e eu tinha 13. Essa foi uma homenagem para ele, não sei por onde anda, se está neste planeta ainda ou não. E assim vai. As outras músicas também eu cantava. Tem outras mais leves, que ainda virão, mas foi realmente a pandemia que trouxe “A Noite do Meu Bem”.

Como funciona o projeto?

“A Noite do Meu Bem” começou em junho, e no começo nós postávamos duas canções por semana, mas achei que foi muito. Como funciona? Você vai no Instagram e ouve! Agora, para fazer não é tão simples assim. Você precisa tirar o acompanhamento, fazer a orquestração. Eu tenho as músicas no meu ouvido. Então, preciso usar palavras sem ser cantada, mas seguindo de certa forma o ritmo da música.

Não é uma coisa que você faça com os pés nas costas. Tem que prestar bastante atenção, exige! Às vezes, me atropela uma emoção enorme. Outro dia, fui fazer “Chão de Estrelas”, mas não pude gravar porque eu chorava copiosamente. Estou esperando ficar um pouquinho mais calma para gravar esta que é um poema deslumbrante. Tá no Instagram!

Foto: Mariana Rotili/Divulgação/ND

A ideia é transformar boleros, sambas-canção e músicas românticas dos anos 1930 aos 1970 em poesia declamada. Por que estes gêneros musicais e deste período?

Fui criada ouvindo essas músicas, que são muito bonitas. São declarações de amor, amor frustrado. É toda uma época em que as pessoas faziam canções de dor de cotovelo. Vai explicar isto para um francês, o que é dor de cotovelo! As pessoas faziam essas letras porque era uma coisa que era o momento, era assim. As pessoas dançavam juntas, de rosto colado, aquela coisa de amor. Por ser assim, por achar bonito e por ter me acompanhado.

Como tem sido a receptividade, a reação dos internautas?

O pessoal está gostando, tenho recebido respostas bem boas. Inclusive, eu tenho um amigo que canta para mim “tal música assim, lembra? Anísio Silva!” Claro que eu lembro do Anísio Silva. A receptiva está bem grande, bem gostosa e eu quero que muita gente veja a beleza da língua portuguesa, que é tão linda, tão bonita. Acho uma pena que seja tão maltratada, sabe? É como se ela tivesse sendo deletada. Em vez de ser jogada fora, ela tá sendo deletada. Jogada fora tem outro sabor.

Já homenageaste Chico Buarque com o monólogo musical “Beatriz”. No projeto atual, pode acontecer de cantares também, além de declamar?

Eu ainda não pensei em cantar, mas, de repente, me dá uma vontade, porque é uma das coisas que mais gosto de fazer. Mas o Chico vai ter que ter um núcleo especial, porque neste projeto escolhi 12 músicas e a gente já postou cinco ou seis. Então, se eu começar a escolher as músicas do Chico, eu não paro mais. Porque é paixão, né? Imagina. E, às vezes, eu tenho vontade de pegar assim, de repente, e dizer “ó, vou cantar, vou aproveitar essa instrumentação e vou cantar em cima”. Mas isso é ainda para mais adiante.

Estás casada com o ator, dramaturgo e professor José Ronaldo Faleiro há bastante tempo. É difícil para um casal tão cúmplice na profissão não falar em teatro no dia a dia?

Estamos juntos há 30 anos. Nós nos encontramos, começamos a ficar juntos no dia 1° de agosto de 1990. Aí, dois anos depois, a gente foi morar junto e, logo mais um ano e pouquinho depois, a gente casou. Fizemos um festão. Foi bem legal. Há pouco tempo, 10 ou 12 anos atrás, através de sonho, resolvi pedir ao José de novo para a gente casar na igreja. Casamos na igrejinha do Campeche, bem linda. Então, são 30 anos. Já tem 25 de casamento. A gente fala de teatro. A gente fala muito de teatro no dia a dia. É inevitável. A gente fala, e assim vai! Assim vai!

Margarida Baird e José Ronaldo Faleiro – Foto: Divulgação/ND

Aos 75 anos, dizes que tens projetos a longo prazo. Quais?

Tenho projetos a longo prazo, sim. Um que é muito grande, não tem nada a ver com o teatro. De repente, eu pensei: “por que não?”. E resolvi que vou investir nesse projeto, mas por enquanto ele está fechado a sete chaves e na cabecinha de muito pouca gente. Não vou divulgar porque ainda não é a hora. Mas, realmente, é um projeto que é grande, que vai longe, e vai ser lindo, lindo mesmo. Tenho certeza.

A arte cênica pressupõe a presença, o toque, o contato, a troca em cima, atrás e defronte ao palco ou às câmeras. Como é este fazer remoto, com cada um da equipe e da plateia isolado em seu canto?

Olha, esse fazer remoto não é teatro. Teatro, você olha no olho da plateia, você sente o calor de um corpo humano que está na sua frente, a reação daquele ser que está na sua frente – e isso é outra coisa. Teatro, meu Deus, é a presença! Esse fazer remoto, é uma maneira de você não perder o fio, sobreviver, é poder estar em contato.

Eu acho uma delícia declamar letras de música, por exemplo. Eu até já fiz algumas poesias, mas não gostei muito, não, do que eu fiz. E é uma maneira de você dar um gingado no corpo, e de estar sobrevivendo de alguma forma. Esta é uma época muito esquisita, esta pandemia…

Estou há cinco meses e meio de dentro de casa, saí uma vez só, para ir ao banco, e foi a única vez que eu encontrei com meu marido. Porque tenho um apartamento em Coqueiros, e ele tem outro no mesmo bairro, fora nossa casa lá no Campeche. A gente se fala e tudo, mas só se vê pelo vídeo.

Então, volta e meia, a gente toma um champanhe. No nosso aniversário de 30 anos, fizemos uma comida especial, ele na casa dele e eu na minha. Tomamos um bom espumante, nos olhamos, brindamos, mas é uma coisa assim, é um momento muito esquisito.

Agora, é um momento especialíssimo para o autoconhecimento. Porque, realmente, você está em contato com você, você não tem muito fora de você para te tirar do foco, tirar do centro, tirar de si, e é isso o mais difícil. É por isso que as pessoas não aguentam. Porque elas não aguentam estar em contato com elas mesmas. É preciso muita coragem para isso, é preciso ser “macho”, entre aspas, porque a gente vê coisas que nem sempre nos agradam. Eis a importância.

Então, esta pandemia, este momento é especialíssimo, íssimo, íssimo. E espero que dê resultados para a maioria das pessoas. Coisa que eu não acredito! Porque eu acho que a humanidade é muito pouco propensa a olhar para si. Ela é extremamente imatura. Ela tem uma inteligência enorme e uma desinteligência emocional tão grande quanto.

Não sou lá muito otimista a respeito do aprendizado humano. Mas, enfim, não dá para ficar nessa também, vamos ver o que vai resultar. Cada dia é um dia. Então, a gente vai se encontrando dessa forma, vai fazendo Zooms, áudio… É assim que se toca a vida!

Entre prêmios e honrarias recebidos, foste homenageada em 2013 com o troféu Isnard Azevedo, o mesmo que Faleiro recebeu em 2010. Qual o sabor, para uma profissional que veio de fora, já pronta, ganhar este que talvez seja o maior reconhecimento do teatro catarinense?

Eu achei absolutamente maravilhoso. Acho que um prêmio de reconhecimento é sempre bom. Você acha que a Fernanda Montenegro não gosta de receber prêmios? É claro que gosta! É muito bom! É aquilo assim: “poxa, o que eu faço vale a pena, o que eu faço as pessoas gostam, apreciam, entendem, curtem, urram”. A minha prateleirinha com os prêmios tem uma atenção especial, olho com um carinho enorme. Gente, são 36 anos de trabalho aqui, como que eu não ia ficar feliz? Eu fico felicíssima. Quero é mais, quero fazer na medida em que for possível.

Foto: Mariana Rotili/Divulgação/ND

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