Marcos Cardoso

A sociedade da Grande Florianópolis, os eventos culturais e as tradições da região analisadas pelo experiente jornalista Marcos Cardoso.


Entrevista: Marina Tavares

Ela e o marido, Arturo Valle Junior, transformaram a sua agência de publicidade em produtora cultural e de eventos para desenvolver projetos artísticos que têm impactado o cotidiano de Florianópolis

Arturo Valle Junior e Marina Tavares com o filho, Pedro – Foto: Volo Filmes e Fotografia/Divulgação/ND

 Manezinha da Ilha, Marina Tavares cursou graduação em publicidade e propaganda na Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina) Pedra Branca, em Palhoça, e pós-graduação em comunicação e moda no Senac (Serviço Nacional do Comércio) de Blumenau. Em 2011, ela e o sócio, Arturo Valle Junior, colega de faculdade que se tornou marido e pai do filho, Pedro, de 13 anos, transformaram a sua agência de propaganda em produtora cultural e de eventos. Por meio do Studio de Ideias, já desenvolveram vários projetos de música, cinema, literatura e artes visuais, como o grande mural “Cisne Negro”, junto ao Museu Histórico de Santa Catarina – Palácio Cruz e Sousa.

Por que a mudança do Studio de Ideias de agência de propaganda para produtora cultural?

Em 2011, as nossas atividades migraram todas para produção cultural e de eventos. A arte sempre esteve presente na minha vida por influência dos meus pais, que sempre me proporcionaram, desde pequena, contato com obras de arte em casa, cursos e oficinas de arte, exposições, peças de teatro, música. Foi natural migrar para uma área a qual eu tinha total identificação.

Foto: Volo Filmes e Fotografia/Divulgação/ND

Em geral, seus projetos são viabilizados por meio de patrocínios públicos e privados, com acesso gratuito à população ou a funcionários de uma empresa. A gratuidade é uma linha proposta pela produtora?

Muitos dos projetos culturais do Studio de Ideias são realizados por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, que possibilita tanto pessoa física como jurídica a utilizarem até 20% dos seus impostos de IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) ou ISS (Imposto Sobre Serviço de Qualquer Natureza) para viabilizar um projeto cultural na cidade, sendo um produto totalmente gratuito para o público. Também desenvolvemos eventos privados com caráter cultural onde a empresa acredita que o conteúdo artístico é essencial para o bem-estar dos seus colaboradores. A produtora também realiza eventos com bilheteria.

Por que envolver os espaços públicos nos projetos culturais?

Nossa cidade é linda! Mas as pessoas aqui sempre tiveram o hábito de ir para a praia, o lazer acaba sempre sendo fora da região central. O Centro nunca foi a primeira opção. A Ilha é diversa e com praias belíssimas, mas observamos que temos áreas verdes na região central e que há muito tempo estavam esquecidas e pouco valorizadas.

Em outros, países é muito comum vermos piqueniques no parque, apresentações diversas, de música, teatro e cinema em áreas verdes similares às que encontramos em Florianópolis. Também conhecemos lá fora a força da arte urbana e o que ela representa para cada grande cidade.

Isso tudo inspirou o Studio, eu e meu sócio, a realizar ações e eventos que pudessem trazer essas características para uma cidade que tem um pouco de metrópole e muito ainda de cidade de interior.

Hoje É Dia de Jazz Bebê! no Parque da Luz – Foto: Volo Filmes e Fotografia/Divulgação/ND

Hoje É Dia de Jazz Bebê!, projeto de música instrumental para crianças, também passou a ocupar espaços públicos. Como era antes?

Quando o evento iniciou, era realizado em espaços privados e com a cobrança de ingresso. Em 2018, decidimos levá-lo para um número maior de pessoas e ocupar as áreas verdes e públicas da cidade, assim passamos promovê-lo de forma totalmente gratuita. O projeto sempre teve como principal atividade a música instrumental direcionada para crianças. Ao levarmos para a rua, conseguimos abranger outras atividades que transformaram o evento e passaram a ser também tradicionais e característicos em cada edição, como a interação com os músicos, as oficinas de arte e a contação de histórias.

Em 2019, iniciou-se a execução do projeto Street Art Tour em parceria com o artista Rodrigo Rizo. Qual era o objetivo?

Eu, meu sócio (Arturo Valle) e o nosso parceiro, o artista Rodrigo Rizo, planejamos o Street Art Tour durante três anos. No início, tínhamos uma proposta completamente diferente, só nós três sabemos tudo que o SAT já foi (risos!). Conversamos muito sobre como promover a arte urbana na cidade, até que surgiu a ideia de mostrar que Florianópolis já era um grande museu a céu aberto no que se refere a arte de rua, porém sem que os seus “visitantes” conhecessem os seus artistas e a história por trás de cada obra.

Assim, demos o start no projeto. Primeiro, por meio da catalogação de diversos trabalhos já existentes na cidade e da publicação deles em uma ferramenta onde as pessoas pudessem ter esta informação de forma rápida e fácil. Para isso, desenvolvemos um aplicativo que mapeia os trabalhos existentes na rua com sua localização, fotos e ficha técnica e que também informa a biografia de cada artista.

Além disso, outra proposta do SAT é a de aumentar o acervo da cidade, sendo com murais de pequeno ou de grande porte. Simultaneamente ao lançamento do app, realizamos a produção de cinco murais: dois de pequeno porte, dois de médio porte e um de grande, o mural “Cisne Negro”.

Mural “Cisne Negro”, do artista Rodrigo Rizo, nos jardins do Museu Histórico de Sata Catarina – Palácio Cruz e Sousa – Foto: Márcio Henrique Martins/Divulgação/ND

Depois dos grandes murais com as figuras de Franklin Cascaes (rua Deodoro), Antonieta de Barros (rua Tenente Silveira), ambos projetos do artista Thiago Valdi, e Cruz e Sousa (jardim do Museu), assinado por Rizo, agora, “Natureza do Desterro” (rua Felipe Schmidt), também de Rizo, é o primeiro que não homenageia personagens. Futuramente, pode haver outro estilo na parede, como arte abstrata?

Depois do mural “Cisne Negro”, que homenageia o poeta simbolista Cruz e Sousa, recebemos várias sugestões, desde figuras públicas a temas diversos. Já temos previsto novos murais, sim, com outros artistas, em diversos formatos, locais diferentes e também com estilos diferentes. A arte abstrata, com certeza, está contemplada.

Arte urbana em paredes e muros de diferentes dimensões não é uma novidade em Florianópolis. Porém, o que faz estas obras de hoje impactarem tanto?

Acreditamos que os murais de grandes proporções vêm gerando grande impacto porque retratam a história da nossa cidade por meio de figuras importantes, que muitas vezes foram esquecidas. O planejamento para um mural de grandes proporções é um trabalho de pesquisa e estudo minucioso do artista junto ao tema escolhido.

Também o tamanho destes murais acaba aguçando ainda mais a curiosidade das pessoas, sendo até mesmo pela forma como é produzido ou pela coragem dos artistas de estarem lá em cima. Também é mérito do projeto dar contexto para essas produções e levar as informações ao público. Isto, para nós, é muito importante.

O artista Rodrigo Rizo (à esq.) com Marina e Arturo – Foto: Victor Moraes/Divulgação/ND

Qual são as maiores dificuldades para se executar um mural de grandes proporções?

É preciso ter um planejamento prévio do local, formação de equipe e viabilidade financeira para cobrir todos os custos de produção. Envolvemos muita gente no processo, desde equipe técnica de segurança, contratação de equipamentos, fotógrafos, videomaker, assessoria de imprensa, comunicação e alimentação.

Mas a maior dificuldade é a captação de recursos. Mesmo sendo um projeto via lei de incentivo, ainda é um pouco difícil sensibilizar as empresas para que utilizem seus impostos como forma de incentivo. Por isso, somos eternamente gratos aos parceiros incentivadores que estão com a gente: Angeloni Supermercados, Corporate Park, Zip Hotel e Fiori Empreendimentos.

Seria muito importante que os órgãos de imprensa ressaltassem isso e dessem visibilidade para estes incentivadores. Dessa forma, com certeza, este projeto e diversos outros que temos na cidade conseguiriam realizar suas ações com muito mais facilidade.

O projeto mais recente é o Curta o Parque. Como funciona?

Nos aproximamos do Parque da Luz com a realização do Jazz Bebê (e mesmo sendo moradores de Floripa, não tínhamos o hábito de frequentar aquele espaço). Descobrimos um “lugar único” em Florianópolis. Como um espaço daquele podia estar esquecido?! A partir daí, começamos a criar um projeto juntamente com a Associação dos Amigos do Parque da Luz para potencializamos esta área verde no Centro da cidade com arte e cultura. As atividades são gratuitas e diversas, pois a cada edição vamos focar em uma atividade cultural diferente.

Marina Tavares e o filho, Pedro – Foto: Volo Filmes e Fotografia/Divulgação/ND

Com a pandemia, como estão as agendas dos projetos? Algum se perdeu?

Antes do início da pandemia, conseguimos realizar uma edição do projeto Curta o Parque. Foi no primeiro fim de semana de março. Tínhamos mais três programadas até junho.

O Street Art Tour teria também o início das suas atividades em março,  quando a cidade fechou devido à pandemia. Estávamos com toda a estrutura montada para iniciar o mural “Natureza do Desterro”. Com a liberação de algumas atividades no começo de junho, finalmente, foi dado início ao mural.

Já o Jazz Bebê, sempre iniciamos as anuais no fim de semana do aniversário de Florianópolis. Portanto, não conseguimos realizar nada ainda. Para este ano, tínhamos seis edições itinerantes e o festival programados. Esperamos conseguir realizar algo ainda.

Realização de exposições, que é outra de nossas atividades, todas que tínhamos programadas para este ano foram transferidas para 2021.

Em relação aos eventos que acontecem em espaços abertos, no momento não temos previsão nenhuma de quando poderemos realizar. Mas serão feitos assim que for possível e devidamente liberados pelos órgãos públicos de saúde.

Há algum projeto novo em gestação ou pronto para iniciar logo após o controle da pandemia?

O que temos e podemos no momento é conseguir realizar o que já havíamos planejado para este ano.

Entregaremos o mural “Natureza do Desterro” agora no mês de julho. Em agosto, lançaremos a nova versão do aplicativo do Street Art Tour e a segunda parte do mural do Franklin Cascaes, que terá uma grande novidade na experiência do público junto à obra. Também teremos diversas ações promovidas pelo projeto até o final do ano.

Dos outros projetos, estamos aguardando as liberações por parte das autoridades.

O cantor e compositor Arnaldo Antunes entre Marina e Arturo na abertura da exposição “Palavra e Movimento”, que o artista apresentou no Museu de Arte de Santa Catarina, em 2017 – Foto: Volo Filmes e Fotografia/Divulgação/ND

Qual a tua opinião sobre a nova Lei de Incentivo à Cultura do Estado, publicada em maio deste ano?

A lei estadual é aguardada há bastante tempo pelo setor cultural e, no momento, está em fase de regulamentação. Será um mecanismo importantíssimo para o desenvolvimento do setor de arte e cultura no nosso Estado.

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Marcos Cardoso