Marcos Cardoso

marcos.cardoso@ndmais.com.br A sociedade da Grande Florianópolis, os eventos culturais e as tradições da região analisadas pelo experiente jornalista Marcos Cardoso.


Cantora lírica japonesa radicada em SC conta o que viu no país-sede da Olimpíada

Ela fala também sobre a adaptação no Brasil na década de 1990, sua entrega à música profissional, a viagem ao Japão em plena pandemia e os primeiros concertos na cidade-natal

Intérprete de personagens consagradas da ópera, como Micaela (“Carmen”), Mimi (“La Bohème”), condessa (“Bodas de Fígaro”) e a principal de “Madama Butterfly”, a cantora lírica japonesa Masami Ganev voltou em maio para Florianópolis, onde vive desde 1998, após uma temporada de nove meses em sua cidade-natal, Shikoku Chuō, na província de Ehime.

Formada em relações internacionais pela atual Universidade Federal de Osaka, ela trabalhou como executiva até vir para o Brasil, casada com um brasileiro. Aqui, sem falar português, ela retomou tardiamente à atividade musical, que começou no piano, aos seis anos.

Depois de se apresentar com maestros, orquestras e em palcos importantes no Brasil, a soprano fez seu primeiro concerto no Japão, que corre para controlar a pandemia e realizar a Olimpíada.

Masami Ganev em uma das apresentações com a Camerata Florianópolis – Foto: Tóia Oliveira/Divulgação/NDMasami Ganev em uma das apresentações com a Camerata Florianópolis – Foto: Tóia Oliveira/Divulgação/ND

Por que saíste de Shikoku Chuō e em que lugares já moraste?

Com 18 anos saí para estudar relações internacionais na atual Universidade Federal de Osaka, e depois trabalhei dois anos como executiva numa empresa chamada Toray Medical. Depois, direto para Santos (SP), em 1997, aos 24 anos de idade, casada com um brasileiro que conheci na minha universidade.

Quando chegaste a Florianópolis e por que escolheste esta cidade para viver?

Cheguei em 1998. Eu quis viver numa casa com cachorro, como eu cresci na minha cidade. Meu sogro, em Santos, que viajava o Brasil todo, recomendou que o ideal seria Floripa. E me apaixonei. As paisagens e clima lembram muito a minha cidade-natal. E quando comi ostras, eu decidi morar aqui.

Iniciaste os estudos no piano aos seis anos, participaste de corais infantis e juvenis. Já adulta, levaste a atividade musical em paralelo ou ela ficou de lado?

Eu quis estudar piano na faculdade de música, mas isso ia requerer muitos recursos financeiros. Eu tinha passado na faculdade de música também, mas meu irmão aconselhou para colocar “os pés no chão” e pensar nos nossos pais. Concordei com ele. Talvez foi o maior erro que cometi, e que deu certo posteriormente.

Estudei relações internacionais, que eu adoro também, e, assim que me formei, consegui um bom emprego no cargo de carreira na empresa de medicina. Trabalhei naquele esquema famoso de japonês: saía às 7h e voltava à meia-noite, às vezes, no fim de semana também. Gostava do desafio e da responsabilidade do trabalho, mas logo percebi que não era o ritmo da vida que eu queria.

Onde estudaste música? Quem foram os teus professores?

Cheguei no Brasil casada, e me tornei dona de casa de repente. Porque não falava português, não tinha como arrumar um emprego. Eu só chorava. Não nasci para ser somente dona de casa. Sentia muita falta em fazer parte da sociedade também. Nessa hora, encontrei a Polyphonia Khoros, da maestrina Mércia Mafra Ferreira, e ingressei. Pelo menos sabia ler partitura, mesmo não falando português, né?

Em 2003, este coro participou de uma montagem da ópera “Carmen”, em Floripa. Eu me apaixonei por completo, e voltou toda aquela paixão pela música. Eu tinha 30 anos e um bebê neste momento. É muito tarde para ser cantora de ópera. Já é difícil ser cantora profissional começando muito jovem, imagina com 30! Mas eu não tinha opção de não tentar. Meu coração gritava demais que era aquilo que eu precisava. Então, agarrei todas as oportunidades de aprendizagem.

Estudei canto com a famosa Neyde Thomas, uma das divas brasileiras que fez carreira fora, Eiko Senda, Samira Hassan, Elaine Boniolo. E trabalhei música com Alberto Heller. Tive coach, pianista correpetidor com Rafael Andrade. Fora curso de teatro, trabalho de postura, aulas de dicção de italiano, alemão, francês, russo, checo, português… Participei de todos os festivais de música, masterclass, etc… Viajei muito atrás de conhecimento e aperfeiçoamento. Enfim, gastei igual a uma faculdade particular.

Hoje me aperfeiçoo com a lenda do Metropolitan Opera, Aprile Millo, e sua colega, Maria Vetere. Participei de um masterclass com elas na Itália, há dois anos. Até hoje, nesta pandemia, faço aulas on-line com elas. Mais uma que a pandemia possibilitou. É sonho e honra poder ter aula com elas. Porque arte não tem fim. Preciso crescer, modificar na procura da perfeição que, aliás, talvez nunca exista.

Cantora mudou-se para o Brasil em 1997 – Foto: Luiza Filippo/Divulgação/NDCantora mudou-se para o Brasil em 1997 – Foto: Luiza Filippo/Divulgação/ND

Quais foram os palcos mais importantes em que já te apresentaste?

Theatro Municipal de São Paulo, cantando como solista da “Nona Sinfonia”, de Beethoven. Experiência indescritível. Consegui esta oportunidade depois de participar de uma audição aberta com mais de 200 cantores. Fora mais dois papéis de ópera lá: em “Fosca”, de Carlos Gomes, e em “Elektra”, de Strauss. Cantar um papel importante (Délia) da obra de um compositor brasileiro (Carlos Gomes) no teatro mais importante de ópera do Brasil foi algo tão honroso para mim… Ali senti a generosidade do Brasil.

Palco importante também, posso dizer, uma vez cantei para uns 300 convidados vips do Chile num vinhedo de Santiago. Foi uma noite surreal. Era a comemoração de 30 anos do vinho ícone daquele vinhedo, chamado Santa Rita. Fui tratada como rainha lá.

E quais as grandes orquestras e maestros?

Orquestra do Theatro Municipal de São Paulo; Orquestra do Teatro Nacional Claudio Santoro, de Brasília; Orquestra Sinfônica de Minas Gerais; Orquestra Sinfônica do Paraná; Orquestra do Theatro São Pedro, de São Paulo; Orquestra Sinfônica de Santo André (SP); Camerata Antiqua de Curitiba; entre outras.

E grandes maestros, como John Neschling, Alessandro Sangiorgi, Abel Rocha, Luis Gustavo Petri, Gabriel Rhein-Schirato, André dos Santos, Tobias Volkmann, Claudio Cohen, Eduardo Strausser, John Boudler. Com alguns deles, aprendi muito sobre o que é ópera.

Mas a mais importante para mim é a Camerata Florianópolis, sob regência do maestro Jeferson Della Rocca, onde foi dada minha primeira oportunidade como solista e crescermos juntos nesses quase 20 anos. Muito amor, respeito e gratidão. Aliás, eles têm minha gratidão eterna.

Hoje fazes parte de alguma companhia?

Essa vida de cantora solista no Brasil não existe onde pertencer. Sempre sozinha. Lobo solitário. Quem não gosta da solidão, não aguenta esta profissão. Viajar, dormir, comer sozinha por dias, semanas, às vezes, meses. Continuo a relação de muito amor, respeito e gratidão com a Camerata Florianópolis. Eles têm minha eterna gratidão. Dou aulas lá na escola Camerata também. Eu piso naquela escola, minha alma respira. A única coisa a qual pertenço hoje, oficialmente, é a maior agência de música erudita do país, Arte Matriz, que fica em São Paulo.

Alguém na tua família era profissional de música antes de iniciares?

Ninguém profissional de música. Mas meu pai tocava acordeão, violino e tinha uma voz incrível! Minha mãe tocava koto, um instrumento japonês. Também cresci ouvindo meus irmãos mais velhos tocando piano. Eles tinham aulas de piano em casa. Eu implorava para me colocar na aula também. Mas tive que esperar até meus seis anos de idade. Eu adorava quando vinha visitas em casa, era o momento karaokê, com meu pai acompanhando tudo no seu acordeão.

Tua filha, Elena, de 11 anos, demonstra interesse pela música?

Elena é uma artista incrível. Tem olhar mais artista do que eu. Pinta, confecciona, experimenta, escreve poesia, assim, criando o tempo todo. Estudou um pouco de piano e violino, mas agora quer tocar guitarra. Fica ouvindo música o dia inteiro, de todos os gêneros, decora minha ópera antes de eu decorar, ouvindo meu estudo (inveja!!!). Mas cantora de ópera jamais. Diz que é muito barulhento.

Quando a pandemia começava a se espalhar por Santa Catarina, disseste que voltarias às origens japonesas para cumprimentar as pessoas, à distância, comum na cultura oriental. Foi estranho ter de voltar aos antigos hábitos de etiqueta social?

Nada estranho. Parece que eu tenho interruptores dentro de mim. Mudo expressão corporal e tudo, dependendo do ambiente. Muito interessante isso. Mas confesso que não 100%. Há certa parte que denuncia que não sou 100% brasileira, nem mais 100% japonesa.

Que impressões tiveste do Japão após dois anos sem ir lá?

Nada mudou, só chegou a pandemia. Coisa mais triste que vi foi o aeroporto de Tóquio. Cheguei em agosto de 2020, quando era para acontecer a Olimpíada. Pouquíssima gente, muitas lojas fechadas e tantas decorações prontas. Era muito triste ver. Voo para o Japão também tinha pouquíssima gente, uma dúzia na classe econômica, que cabe umas 300.

Nas ruas vazias de Shikoku Chuō, em 2020. No poste, uma bandeira alusiva aos Jogos Olímpicos de Tóquio – Foto: Divulgação/NDNas ruas vazias de Shikoku Chuō, em 2020. No poste, uma bandeira alusiva aos Jogos Olímpicos de Tóquio – Foto: Divulgação/ND

Qual era o sentimento dos japoneses em relação ao adiamento dos Jogos Olímpicos?

Não tem jeito, são o povo da terra dos desastres naturais. Eles sabem muito bem aceitar o fenômeno da natureza. Sabemos que só podemos nos adaptar para sobrevivermos. Todos se esforçando para conter vírus, óbvio que Olimpíada também.

Na tua opinião, o Japão está seguramente preparado para realizar os Jogos e receber público?

Seguramente? Com certeza, não. Sabemos que tem muito dinheiro em jogo, inclusive nossos impostos. Iriam fazer de qualquer jeito, eu sei. O governo está muito tenso para conter a pandemia e vacinar o povo o quanto antes. A grande maioria dos japoneses é contra ou duvidosa sobre a Olimpíada agora. Sei que o governo de Tóquio está preparando o melhor possível, planejando tudo meticulosamente.

Mas japoneses não são um povo muito criativo como os brasileiros. Então, não sei se eles vão conseguir se adaptar a situações inesperadas. Esta é a minha preocupação. Mas já que vão fazer, espero que dê tudo certo, que seja oportunidade de inspirar pessoas e melhorar o astral do mundo!

Mesmo quando a China era o epicentro da pandemia, o Japão, um dos países próximos mais populosos, conseguiu manter baixos os índices de infecção e mortalidade. Como os japoneses conseguiram este controle?

O Japão tem uma cultura que eu posso chamar de “Cultura de Vergonha”. É terrível incomodar alguém, imagine passar vírus para outros! Desonra sua, da sua família, da sua empresa, da sua escola! Posso dizer que todos morrem de medo de contaminar seu ambiente de trabalho, sua sociedade.

Então, todos evitam a viagem. Se tiver que viajar para outra província, depois quarentena. Tanto que o governo teve que incentivar a viagem dando cupom de desconto. Tentativa de salvar a indústria de turismo. Lançava esses cupons de viagem, de restaurante, conforme avanço e contenção do vírus.

Fiz um mês de quarentena. Duas semanas porque cheguei do exterior, mesmo dando negativo no exame ao chegar no aeroporto, e mais duas semanas porque cheguei de Tóquio para minha província.

Junto com isso, temos um senso de coletividade muito forte. Nas dificuldades, todos nos unimos. Claro, os japoneses também não são santos, estão cansados de cuidados da pandemia também. Escapam muitas coisas. Mesmo assim, ainda é uma tendência muito forte desse país, por bem ou por mal. A coletividade.

No momento em que boa parte do mundo pensava em se afastar da China e região, com medo da probabilidade do contágio, por que fizeste exatamente o caminho inverso?

Primeiro, porque perdi todos os compromissos de 2020 restantes. Cancelaram todos os trabalhos quando começou a pandemia. Uma das profissões que a pandemia atingiu em cheio. Segundo, a escola da minha filha começou esquema de aulas on-line, e ela já estava cansada de se recolher no quarto depois de três meses. Terceiro, minha cidade não tinha registrado nenhum caso de Covid (até início de 2021!). Pensei, minha filha pode conhecer a vida no Japão, até frequentar escola japonesa, brincar num ambiente mais seguro, e fazia 24 anos que eu não ficava mais de um mês no Japão. Então, tive que ir aproveitando todas estas situações que a pandemia trouxe.

Elena (quinta da esq. para dir.), filha de Masami Ganev, com colegas do colégio japonês – Foto: Divulgação/NDElena (quinta da esq. para dir.), filha de Masami Ganev, com colegas do colégio japonês – Foto: Divulgação/ND

Enquanto a maioria das cidades brasileiras ainda não permite a realização de eventos e a abertura de teatros e casas de espetáculos, no Japão eles praticamente não pararam. Como é feito lá? O método poderia ser seguido aqui?

A situação da pandemia é muito mais controlada do que no Brasil. Se aqui dava 80.000 novos casos diariamente, no Japão nem chegava a 2.000. O total de mortes no Brasil era de 510 mil contra 15 mil no Japão, onde a população nem chega à metade da brasileira. Então, ainda é possível ter uma vida normal, mas com muito cuidado e responsabilidade. Os governos de cada província estão fazendo bom trabalho de apertar e soltar as rédeas conforme a situação da pandemia.

Poderia seguir aqui no Brasil? Com certeza. Mas antes precisa unir o povo, deixando toda esta discussão política que divide o país. Não adianta seguir somente metade das pessoas neste caso. Precisa de coletividade.

Junto da pianista Megumi Ikeda, fizeste os teus primeiros concertos no Japão. Foi uma emoção especial?

Sonho que nem tinha sonhado. Honestamente. Meu pai, por exemplo, faleceu sem nunca ter me ouvido ao vivo. Cantar cercada por pessoas que me conhecem desde a minha infância, que achei que nunca mais ia se ver, empolgadas e inspiradas comigo de várias maneiras, é algo mágico. Até agora eu não encontrei nenhuma palavra para expressar a minha emoção.

Masami Ganev (à dir.) em concerto na sua cidade-natal, Shikoku Chuō – Foto: Divulgação/NDMasami Ganev (à dir.) em concerto na sua cidade-natal, Shikoku Chuō – Foto: Divulgação/ND

Uma live de canções japonesas que farias despretensiosamente acabou sendo transmitida numa TV local. Como foi a repercussão?

Quando tem que acontecer é porque tem que acontecer. Pensei muito nessa frase. Cheguei na minha cidade, precisei me dar motivo para continuar cantando mesmo não tendo trabalho. Cantora sem cantar definha! Fui conversar com minha professora de piano, Tomie Takahashi, que queria fazer algo junto. Ela gentilmente topou fazer uma live com canções japonesas. Ela sugeriu a sala de ensaio do teatro da cidade, mas o acústico estava muito ruim. Logo, notamos que o saguão do teatro tinha acústico maravilhoso.

Minha professora convidou duas dúzias de alunos para assistirem ao vivo. Pessoal do teatro se empolgou com o evento, recomendou falar com uma TV por cabo da cidade. Foi muito bonito, e deu umas 2.000 visualizações no Facebook e Instagram juntos. O concerto foi transmitido várias vezes na cidade. Uma das pessoas que assistiu foi a minha regente de coro infantil, professora Takako, que me procurou tão orgulhosa de mim e marcou a visita ao prefeito da cidade.

E o jornalista que cobriu a minha visita assistiu ao meu concerto posteriormente com outra pianista, Megumi, se emocionou e escreveu a coluna. Megumi, a pianista que mora na capital, tem programa de rádio. Ela me convidou para participar. A notícia correu e a TV da província me convidou para uma entrevista.

Pronto, na minha cidade já todo mundo sabia de mim. Toda vizinhança, até os entregadores de encomendas me perguntavam se eu era a cantora de ópera que viram na TV. Não podia mais sair de casa sem maquiagem. Tudo isso ajudou muito no sucesso dos concertos que eu produzi posteriormente.

Quando deixaste o Japão em maio, a vida lá já se aproximava mais do “normal” dos japoneses?

Não. Abril e maio tiveram uma onda (de contágio) que fechou muitas coisas. Teatros, parque de diversão, shopping center grande, museu, etc. Os restaurantes fechavam às 20h. Não podia servir bebidas alcoólicas. Minha intenção era aproveitar cidades grandes, como Osaka e Tóquio, antes de voltar para o Brasil. Na verdade, não vi quase nada. Em junho voltou mais para normal. Mas, como a Olimpíada se aproxima, o governo está muito tenso.

Masami em entrevista para a TV japonesa – Foto: Divulgação/NDMasami em entrevista para a TV japonesa – Foto: Divulgação/ND

De volta ao Brasil, o que estás fazendo ou preparando profissionalmente?

Voltei sem nenhum compromisso, sem intenção de assumir até que eu tomasse a vacina, pois cantar é um ato muito contagioso. Mas, desde que cheguei, já recebi algumas sondagens da minha agenda. Graças a Deus! Primeiro, foi o convite do maestro Jeferson Della Rocca, da Camerata Florianópolis. Faremos um concerto on-line no dia 22 de julho, às 20h, no YouTube, com o grande barítono Douglas Hahn. Eles fazem teste de Covid em todos os integrantes antes do evento. Trabalho muito sério. Em outubro e novembro, pretendo ir ao Japão novamente para cantar num evento e produzir mais um concerto! Muito feliz com este vínculo que consegui criar nesta última estadia.

Organizaste um concerto beneficente para enviar recursos às vítimas da tripla catástrofe (terremoto, tsunami e acidente nuclear) que se abateu sobre o Japão em 2011 e outro para arrecadar fundos para humanizar a Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso de Florianópolis. Pretendes fazer outros?

O que eu produzi foram somente esses dois. Já participei de vários concertos beneficentes. Muita gente me elogia, que atitude nobre, etc… Mas é puro ego meu. Eu vi aquelas situações e me choquei profundamente na altura de chorar, de não poder fazer mais nada (afinal, artista é dramático e tem muita empatia, geralmente). Me fez tão mal… Precisava fazer algo para me sentir melhor. Sou cantora, fiz o que sei fazer. Cantar. Só isso. E ganhei tanta coisa boa com isso. Pessoas de bom coração se oferecendo para ajudar, participar do evento.

Também ganhei minha paz no coração. Não posso resolver tudo de vez, mas fiz algo que eu pude fazer naquele momento. Fiz minha parte. Continuo acompanhando Delegacia de longe. Já mudaram muitas coisas para melhor e além. Pois essa boa energia influenciou a Delegacia e continua agindo lá dentro. Foi um pouco de dinheiro (R$ 12.000), mas não foi só dinheiro, foi afeto das pessoas que se preocuparam com bem-estar da Delegacia. Isso fez a grande diferença.

Tenho algumas ideias que estou discutindo com eles o que não tem nada a ver com canto, mas como uma mera cidadã (ainda por cima uma estrangeira. Viva a generosidade brasileira!). Depois do sucesso do concerto, os policiais estão com braços completamente abertos para minhas ideias. Vi algumas coisas interessantes no Japão que poderia trazer para o Brasil. Estou procurando a pessoa certa para conectar as pessoas certas dos dois países.

Também, durante a pandemia, criei uma conta no Instagram chamada Quarentena Cantabile. Um espaço para os cantores líricos se sentirem em casa. Fiz mais de 30 lives, falando sobre a ópera e canto com os cantores, diretores, regentes, figurinistas. Me ajudou muito a me manter conectada com meu mundo que tanto amo. Vou fazendo o que eu posso para ter meu coração tranquilo, mas sem me estressar. Hoje me considero cantora lírica e ativista nas horas vagas.

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