Espaço cultural icônico de Florianópolis fecha as portas por conta da pandemia

Idealizada pelo palhaço espanhol Pepe Nuñez, a Casa do Palhaço foi palco de espetáculos, aulas de acrobacias aéreas e teatro durante oito anos

O tradicional espaço cultural Casa do Palhaço, localizado no Sul da Ilha de Santa Catarina, anunciou no dia 9 de abril que estaria fechando as portas em decorrência de fatores oriundos da pandemia do novo coronavírus. O anúncio foi feito por meio de uma nota publicada nas redes sociais da empresa.

Casa do Palhaço, no Sul da Ilha, fecha as portas – Foto: Pepe Nuñez/Divulgação/NDCasa do Palhaço, no Sul da Ilha, fecha as portas – Foto: Pepe Nuñez/Divulgação/ND

O espaço foi idealizado por Pepe Nuñez, palhaço espanhol que reside em Florianópolis desde 1999. A Casa do Palhaço, que durante oito anos foi palco de espetáculos, aulas de acrobacias aéreas e teatro, não resistiu à crise que percorre o setor da cultura e eventos.

“Esta pandemia e crise política que vive o Brasil está provocando muito sofrimento e perdas, está nos separando a cada dia mais, pervertendo a convivência, apodrecendo o ambiente, minando o respeito e amor aos outros, talhando a liberdade e a confiança”, afirmou Pepe em comunicado.

A companhia recebeu ajuda do governo participando de ações como o Pronampe (Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte) e o auxílio emergencial cultural. Mas, para Pepe Nuñez, já era tarde demais.

“Nós começamos a receber ajuda em dezembro de 2020, mas a pandemia teve início em maio e nos mantivemos com dificuldades até novembro”, afirma. “Depois não recebemos nenhum tipo de ajuda. É um absurdo!”, ressalta.

“Somos um espaço cultural. Fazemos parte da formação da cidadania e valores, mas ficamos muito abandonados”, afirma. “Nos últimos anos perdemos muito, foi ficando inviável manter o espaço, mas quando a pandemia chegou, deu o toque final na situação”.

Ajuda ao setor

No dia 15 de abril, a governadora Daniela Reinehr se reuniu com o secretário especial da Cultura, em Brasília, para tratar sobre auxílio ao setor de eventos. Durante a conversa, o secretário contou que uma linha de financiamento para o setor, no valor de R$ 405 milhões, deve ser ativada pelo Governo Federal em breve via BNDES.

A ajuda pode chegar tarde para aqueles que têm sobrevivido há pouco mais de um ano com a situação pandêmica. Com as dívidas acumuladas e funcionários tendo que seguir outros caminhos, a ajuda inicial dada pelos programas de apoio não foi suficiente.

“Os custos ficaram altos demais, entre IPTU e taxa de lixo eram pagos R$ 22 mil por ano, e durante a pandemia não houve redução ou isenção desses pagamentos, o que para o setor seria de grande ajuda. “Pequenos comerciantes tem sofrido muito, e a classe artística muito mais“, diz o artista.

Pepe afirma ainda que a ajuda foi insignificante já que todos os outros valores se mantiveram os mesmos. Para ele, as oficinas online não eram viáveis. O forte da companhia eram as aulas de acrobacias aéreas e demandava que os alunos tivessem uma estrutura própria em casa, o que não era a realidade. Com seus outros empreendimentos funcionando, ele teve que dar atenção àquilo que ainda mantinha o lugar.

Espaço Casa do Palhaço no Morro das Pedras, no Sul da Ilha – Foto: Pepe Nuñez/ Divulgação/NDEspaço Casa do Palhaço no Morro das Pedras, no Sul da Ilha – Foto: Pepe Nuñez/ Divulgação/ND

Reinvenção em 2018

O espaço se reinventou já em 2018, se tornando uma Companhia que abrigava, além do Espaço Cultural Casa do Palhaço, o restaurante Dom Pepe cujo cardápio apresentava opções da culinária espanhola e frutos do mar. Na cozinha, os chefes eram espanhóis – e da família do fundador.

No mesmo ano, o espetáculo ‘Bom Apetite’, dirigido e atuado por Pepe, que circulava pelo Brasil e pelo mundo teve sua sede firmada, levando espetáculos abertos para todas as idades e público.

A Oficina de Iniciação à Arte do Palhaço teve início e contribuiu para a formação de diversos palhaços. Em sua oficina, ele buscava encorajar o aluno a reconhecer e aproveitar seu próprio ridículo, a rir de si mesmo, estimulando um encontro com sua espontaneidade, sua generosidade e sinceridade no relacionamento que estabelece com a plateia, rompendo barreiras e limites, possibilitando se apresentar com um alto grau de liberdade e ousadia.

O espaço também contou com o Empório da Mari, com produtos naturais, orgânicos, feira de orgânicos, castanhas, farinhas, grãos, biscoitos integrais, temperos e outros produtos.

Um recomeço: o Sítio do Palhaço

Ainda sem data para funcionamento, o artista busca agora uma nova oportunidade para continuar a fazer o que mais ama.

“Em um lugar maravilhoso em Rancho Queimado, continuaremos com nossas atividades de formação, através de retiros de palhaçaria e abertos a outras práticas de autoconhecimento e terapêuticas”, conta Pepe.

“Cultivaremos e viveremos a terra com a filosofia da permacultura. Seguiremos cozinhando e oferecendo nossos produtos da feira e do empório com entregas às terças e sextas-feiras”, continua. “Seguimos sonhando, seguimos juntos, confiamos no apoio de todos. Acreditamos que é uma oportunidade para uma vida melhor, com mais tempo, mais perto da natureza, mais simples, mais profunda e mais leve”, explica.

Por fim, o artista revela que tem sido difícil. “Na última semana estivemos chorando muito, cada pessoa que vem aqui, temos fieis compradores, todos vamos sentir uma falta muito grande”.

“É uma tristeza, se formos mais a fundo é uma tragédia, mas eu particularmente criei um mantra para pensar mais no que eu ganho do que eu perco. Perdi muita coisa, mas vou morar no meio da natureza, criar um espaço para formação”, finaliza.

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