Fechado desde 2009 Café Matisse pode ser reaberto

Fechamento do espaço deixou um vácuo boêmio e cultural no Centro Integrado de Cultura, mas há um novo projeto para o local

Um lugar como o Café Matisse faz muita falta porque todo mundo sabia que independente da hora ou do dia, invariavelmente, encontraria alguém interessante para bater um papo. Uma dessas pessoas era o escritor Olsen Jr. Aliás, as palavras acima são dele, que de palavras e de memórias do extinto café-bar que funcionava no CIC (Centro Integrado de Cultura) entende.  “Cedo descobri que quando se tem de conviver com artistas, alguns temas, ideias ou projetos podem ser melhor desenvolvidos em torno de uma mesa de café ou bar”, diz ele, um habitué conhecido do Matisse.

Arquivo pessoal Daniel Dias/Divulgação/ND

Café reunia boas atrações musicais, como Dudu do Banjo

Fechado desde 2009, quando todo o CIC teve as principais atividades interrompidas por causa de uma reforma que durou três anos e que ainda não foi 100% concluída, o Matisse tinha um papel de reunir e ser ponto de encontro das pessoas. “Era como estar numa confraria amorosa em termos do fazer artístico”, define Mary Garcia, diretora de difusão artística da FCC (Fundação Catarinense de Cultura) que, como outros funcionários da Fundação, frequentava o bar depois do expediente.

A boa nova para os saudosos fregueses e para os que não tiveram a oportunidade de experimentar o clima do CIC quando o Matisse ainda funcionava é que será lançado ainda este ano um projeto para reforma do café – um projeto separado da reforma da ala norte do prédio que ainda precisa passar por restauração.  Se depender de Beto Martins, atual secretário de Estado de Turismo, Cultura e Esporte, o projeto será lançado até o final do mês, quando ele deixa a pasta.

Um bar que tinha alma

Em 1994 foi inaugurado no CIC o Café Matisse, nome com o qual o bar-café ficou consagrado. “O café já existia, o nome Matisse veio depois. Ele passou a ser uma espécie de âncora, ponto de referência na instituição, e com o passar do tempo criou seus habitués”, conta Jayro Schmidt, professor de artes e funcionário do CIC há 30 anos.

Nos anos 1990, o bar ficou famoso pelos shows de rock que aconteciam até a madrugada, e que causavam constrangimentos entre os donos do bar e a direção do CIC. “Na época não tinham na cidade muitos bares. Então era um caminho meio natural entre o Centro e a Lagoa da Conceição, que eram os principais pontos de encontro”, lembra o diretor de cinema Iur Gomes, freguês dos mais assíduos. “Era um lugar que eu frequentava todos os dias. Quando se pensava em fazer qualquer coisa, qualquer manifestação artística, leitura, recital de poema, quando tinha uma ideia para compartilhar, era tudo ali.”

Iur lembra também dos shows das bandas da cidade, uma delas já nem existe mais, a Phunk Buddha, até hoje considerada uma das melhores bandas que já surgiram no Estado. “O Café Matisse foi um dos únicos locais em que se podia apresentar shows de músicas autorais. E o público comparecia, era interessante”, lembra Gustavo Barreto, ex-vocalista do grupo e hoje integrante da Sociedade Soul.

Arquivo pessoal Daniel Dias/Divulgação/ND

Matisse era o lugar que reunia as pessoas em torno de um papo cultural

Bar, café, galeria

Uma das fases de ouro do Café Matisse foi a partir do ano 2000, quando Angela Gudole Dias, seu filho Daniel Dias, e o jornalista André Gassen venceram uma licitação e passaram a administrar o café. “A inauguração foi em 1º de setembro de 2000”, lembra Gassen. “Fizemos uma reforma, pintamos. Na época tinham uns globos brancos, feios, e trocamos por luzes para iluminar as paredes.”

“Nossa proposta era fazer tudo em consonância com o que acontecia no cinema e no teatro Ademir Rosa”, diz Daniel Dias. “Quando começamos aconteciam ainda muitos shows de rock, mas devido aos problemas passamos a diversificar os gêneros”, comenta o outro ex-sócio. Ele também lembra que a acústica era ruim, porque o bar era fino e comprido. Mesmo assim o pequeno palco localizado no fundo era ambicionado por músicos da cidade. “Não tinham muitos outros lugares pata tocar em Florianópolis. Fizemos shows de muito sucesso lá”, diz Ulysses Dutra, 39, músico fundador da Phunk Buddha, que durou até o ano 2001.

Além da música tinham as apresentações de teatro e dança, como o Teatro de Quinta, espetáculos de stand up comedy que animavam as quintas-feiras e começou por lá. As exposições de arte também eram frequentes. “No começo as pessoas nos procuravam para mostrar seus trabalhos lá, e a gente fazia na loucura. Tiveram muitas coisas ruins. Depois chamamos o pessoal das oficinas de arte do CIC para palpitar”, comenta Gassen. As mostras mudavam a cada 20 dias e artistas novos, desconhecidos ou já consagrados, passaram por lá.

“O próprio centro cultural, com o cinema e o teatro, o MIS (Museu da Imagem e do Som), as oficinas de arte, isso tudo reunia as pessoas. Nós levávamos as atrações para dentro do bar”, diz o ex-sócio. Não era raro ver artistas que acabavam de se apresentar no palco do Ademir Rosa dar uma canja no Matisse.

O fechamento em 2009

A festa de despedida do café Matisse, em 2009, não foi divulgada na imprensa, mas os fregueses assíduos sabiam que era evento de adeus. “Quando fechou ninguém estabeleceu um prazo tão longo para reabertura. Eu tinha expectativa que iria reabrir em breve”, diz Iur Gomes. Para Daniel Dias, disseram que iria fechar por um ano e meio. “Mas eu não acreditei muito.”

Na festa de despedida, Daniel vendeu grande parte do mobiliário e objetos do Matisse. Dois meses depois do fechamento ele viajou para a Nova Zelândia. “Mas teria interesse em voltar sim.”

Novo bar terá 175 m²

O projeto do novo bar no CIC será apresentado ao secretário de Estado de Turismo, Cultura e Esporte, Beto Martins, na semana que vem.  “Tenho orçamento. Estou só esperando o projeto ficar pronto”, assegura. Há cerca de dois meses, duas arquitetas e um engenheiro da FCC (Fundação Catarinense de Cultura) trabalham na reformulação do projeto, readequado depois que Martins anunciou restaurar o bar numa obra separada da reforma total da ala norte do CIC.

Na readequação, o Matisse ficará junto ao jardim, com a possibilidade de estender um deque para fora. “A área prevista de bar é de 175 m² e vai pegar parte do espaço Lindolf Bell. Esta será a área durante o dia, podendo dobrar de tamanho à noite”, detalha a diretora. Na nova proposta, o bar poderá se apropriar de parte do acesso a outros espaços do centro cultural.  “O bar foi programado de modo que possa ser independente dos outros espaços do CIC.”

Está previsto também um deck de 52 m² no jardim localizado ao lado da rampa de acesso ao teatro Ademir Rosa. Segundo Andréa, o cronograma ainda não foi fechado. “Vamos deixar o projeto pronto dentro das melhores condições técnicas, mas estamos vivendo a entrada e saída de diferentes gestores.” Orçamento, bem como detalhes de como e quando será feita a licitação da obra ainda não foram definidos.

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