‘Foi uma das coisas mais tristes que já vi’, diz estudante que resgatou itens do Museu Nacional

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – “Foi uma das coisas mais tristes que já vi na minha vida. Era desolador”, descreve a estudante e servidora pública Tatianny Araújo, 40, que entrou no Museu Nacional na noite deste domingo (2), quando as chamas já tomavam parte do palacete bicentenário na zona norte do Rio, para tentar salvar o que ainda restava ali dentro.

“Você fica um pouco em transe, vai tirando o que é possivel, um pote com formol, mas no fundo você conhece o tamanho do museu, sabe que é uma partezinha ínfima do total”, conta ela pausadamente, com a voz embargada.

Tatianny, que estuda Serviço Social na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), responsável pelo museu, e era frequentadora assídua do local, estava em casa quando viu a cena na TV. Se passaram cerca de 40 minutos até que ela deixasse o filho de seis anos na casa de uma amiga, corresse para lá e conseguisse entrar no prédio.

“Quando eu cheguei já tinha gente tentando salvar as peças há um bom tempo, e ainda fiquei mais cerca de uma hora lá”, diz. “Éramos em umas 50 pessoas, entre decanos, reitoria, assessores e trabalhadores do museu e da UFRJ.” Entre eles, segundo ela, estava o reitor da universidade, Roberto Leher, “suando e correndo de um lado para o outro”.

Ela conta que o grupo ficou no térreo, em salas localizadas em uma espécie de anexo, saindo e entrando por uma porta lateral. Nesse momento, as chamas já se alastravam pelo segundo andar —que depois acabou caindo. “Não estava pegando fogo ali onde estávamos, mas a gente sentia o calor, a fumaça.”

Ela se lembra de terem conseguido tirar alguns computadores e frascos com espécies em formol, como répteis, e fósseis. “Teve uma hora que, sabendo que teríamos que sair, tentamos tirar um armário inteiro, mas ele se abriu derrubando os potes no chão”, lamenta. “A preocupação era não explodir, por causa do material inflamável.”

Enquanto tirava o que podia, Tatianny, que costumava levar seu filho ao museu desde os dois anos de idade, relembrava os momentos que passou ali. “Eu lembro dos frascos enormes de uma parte do museu, onde a criançada via víboras em formol.”

O grupo teve que parar a operação de “resgate” quando a parte de trás do Museu Nacional começou a pegar fogo e madeiras começaram a cair. Quando ela e os companheiros voltaram para a frente do prédio, a parte da frente e o telhado já estavam tomados. “Aí já era o fim”, diz.

Ela afirma que até aquele momento os bombeiros ainda enfrentavam problemas com a água. O combate ao fogo foi prejudicado por hidrantes desabastecidos próximos ao edifício. As equipes tiveram que recorrer a caminhões-pipa da Cedae (Companhia Estadual de Água e Esgoto), e foi instalada uma bomba para retirar água do lago próximo.

“Teve um momento que, enquanto a água nao chegava, a gente só conseguia ficar sentado num banco observando. É violento demais”, diz. “Aqueles tabalhadores são meus amigos, meus companheiros, que lutam por verba todo dia. Vi eles suando, com cheiro de fumaça. Ali ficou uma parte da história do mundo.”

+

Cultura

Loading...