Galos, marcianos e quintais: a arte de Meyer Filho nas ruas de Florianópolis

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Mural em homenagem à obra de Meyer Filho será inaugurado em Florianópolis nesta terça-feira (7), às 17h

“O Baile Místico de Meyer Filho” é um mural em homenagem ao artista catarinense. Na parede do edifício Comasa, estará exposta a figura do pintor e seus sonhos, os galos, casarios, quintais e bois de mamão.

Meyer Filho em seu processo artístico de criação – Foto: Arquivo pessoalMeyer Filho em seu processo artístico de criação – Foto: Arquivo pessoal

A partir de terça-feira (7), às 17h, as artes de Meyer Filho estarão representados num enorme painel. Ali, deve chamar a atenção dos transeuntes que passam pelo centro de Florianópolis .

Florianópolis é um lugar que sempre abrigou figuras criativas, que às vezes fundiam o gênio com o escracho, o folclórico com o vanguardista. Poucas delas, no entanto, superam Ernesto Meyer Filho (1919-1991) em inventividade e irreverência.

Numa terra de poucas ousadias, ele se dizia embaixador de Marte na Terra, desenhava enquanto bebia com os amigos em bares (e distribuía pequenas obras de arte aos circundantes).

Ernesto criava alucinadamente e desafiava a pasmaceira reinante, especialmente no meio artístico, fazendo performances, xingando os desafetos em outdoors e condenando a hipocrisia social em charges que espalhou pelos jornais do século 20.

A par disso, o instituto que leva o seu nome está executando um amplo projeto que prevê exposições, a edição de um livro e muitos eventos e ações educativas e de interação via internet em 2022.

Este trabalho vem sendo desenvolvido há mais de dois anos, quando se festejou o centenário de nascimento do artista.

Um outro mundo possível

Visitar o Memorial Meyer Filho, instalado numa casa da família no bairro Parque São Jorge, é mergulhar num mundo fantástico, multicolorido, de telas que impressionam pela força do traço.

Sandra Meyer, filha do artista, no acervo Meyer Filho – Foto: Leo Munhoz/NDSandra Meyer, filha do artista, no acervo Meyer Filho – Foto: Leo Munhoz/ND

Ali também estão cerca de 2.600 desenhos protegidos por acetato, crônicas, recortes de jornais, livros que ele comprou na busca do conhecimento que sua condição de autodidata requeria.

Quem administra o instituto é a filha do artista, a professora universitária aposentada Sandra Meyer Nunes, que luta para manter a vasta obra em evidência e promove eventos com recursos de patrocínios e apoios diretos. Ela fala sobre os aspectos marcantes da personalidade do pai:

“Ele sonhava com outro mundo possível e dizia que em Marte não havia guerra nem fome e os jardins eram bem cuidados. Misturava realidade com ficção e brincou com a invasão do mundo por marcianos como fez o cineasta Orson Welles em 1938.

Lia Carl Segan e teóricos da física e tinha orgulho de nunca haver pintado o que não quisesse. Via os artistas como seres sociais, em perspectiva crítica, e se dizia o primeiro modernista de Santa Catarina a expor fora do Estado.

Deixou registros sobre cada obra que fez, por isso é fácil seguir todas as fases e características de sua carreira, que durou quase toda a segunda metade do século passado”.

Um projeto ambicioso para popularizar o artista

O livro a ser lançado no ano que vem – que traz o título do projeto, “Arquivos Implacáveis de Meyer Filho” – abordará a transição entre o modernismo, movimento no qual Meyer se inseria, e o que depois se convencionou chamar de “arte contemporânea”.

Além de textos já conhecidos, críticas e textos do próprio artista, o livro vai conter fotografias, desenhos, correspondências, documentos e matérias de jornal. Será um documento fiel de seu legado, tanto no aspecto gráfico e técnico quanto no registro de suas ideias e convicções.

O projeto prevê também uma grande exposição, a ser realizada no Masc (Museu de Arte de Santa Catarina), com uma linha do tempo e textos, vídeos e imagens, dados históricos, relatos e memórias do artista e de pessoas que o conheceram.

Uma retrospectiva feita no ano 2000, vista por mais de 12 mil pessoas (a maioria estudantes), dá a noção do impacto que a mostra terá em 2022.

O projeto curatorial dos Arquivos Implacáveis prevê ilhas com nomes como Respeitável Público, Embaixada de Marte no Planeta Terra, Plantando Dá, Pessoal e outros que fazem referência a expressões que ele usava.

Complementam o projeto um seminário sobre as conexões do artista com o contexto da arte moderna nacional e internacional. O curso “Meyer Filho, terra em fuga”, uma plataforma digital.

Na plataforma, estarão disponíveis o acervo ao público, o tratamento arquivístico do material que deixou e uma ação educativa que prevê oficina online/presencial a ser ministrada pelo Núcleo de Arte-Educação do Masc durante o período da exposição.

Cursos formativos para professores da rede pública completam a programação.

“Marte é mais avançado que a Terra”, dizia o pintor

Meyer Filho costumava contar que foi abduzido pela primeira vez quando se encontrava num hotel, em São Paulo, e que extrapolou o trivial privilégio de quem vê um disco voador, coisa para pessoas comuns – ele esteve em Marte, e não foram poucas vezes!

Mayer Filho e seu outdoor – Foto: Pedro Alipio Nunes/NDMayer Filho e seu outdoor – Foto: Pedro Alipio Nunes/ND

Não permanecia muito tempo por lá, porque os amigos do Ponto Chic (café e local de encontro de manezinhos na rua Felipe Schmidt, hoje desativado) podiam desconfiar das razões de sua ausência.

Numa conversa – real ou imaginária? – com o escritor Salim Miguel (1924-2016), seu amigo, Meyer afirmou que “Marte é uma civilização muito mais avançada do que a nossa, lá também opinam os galos”.

Talvez tenha sido por isso que os marcianos o nomearam embaixador daquele planeta na Terra! Certa vez, deu uma entrevista de quase quatro horas ao jornalista Manoel de Menezes, na rádio Jornal A Verdade, falando das incursões ao planeta vermelho.

Em outra entrevista, explicou sua missão como cidadão e mensageiro de Marte. “Eu vim para o planeta Terra em missão especial: melhorar o nível intelectual e cultural de Santa Catarina.

Eles me avisaram: ‘Olha, Meyer, tu vais ser chamado de maluco durante 30 anos’. Realmente eu fui. Mas disse para eles: ‘Se a missão é importante, eu topo’”. Meyer teve embates com pessoas e instituições que pareciam não perdoar seu estilo atrevido de viver e pintar.

Num outdoor que mandou colocar no bairro Trindade, desenhou um jacaré e um animal de quatro patas, com cabeça de galo, que perguntava: “Por que será que a UFSC vem, desde 1960, ignorando o talento e a arte de Meyer Filho?”

Em outra oportunidade, chocou a cidade – incluindo o arcebispo e as damas da sociedade – ao abrir uma individual com galos eróticos, de falos avantajados, na galeria Studio de Artes.

Em entrevista ao jornalista Raul Caldas Fº, Meyer tentou explicar sua posição: “Defendo o socialismo democrático, contra o capitalismo selvagem e o comunismo totalitário”.

Nunca pintou um político – ao contrário, desancou alguns deles, como Jânio Quadros e os criminosos de colarinho branco que compram Cadillacs enquanto os pobres não têm hospital para se tratar.

Galo criado por Meyer Filho - Arquivo pessoal
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Galo criado por Meyer Filho - Arquivo pessoal
Obra
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Obra "Interior da Ilha" de Meyer Filho - Arquivo pessoal
- Boi de mamão 2
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- Boi de mamão 2

Um manezinho com reconhecimento lá fora

Meyer Filho nasceu em Itajaí em 4 de dezembro de 1919 e quando tinha quatro anos a família se mudou para Florianópolis.

Foi funcionário do Banco do Brasil (onde nunca quis ascender profissionalmente) até se aposentar, mas o que mais apreciava era desenhar e pintar – inclusive na sala de trabalho.

Autodidata, aprendeu tudo por meio de livros e manuais. No fim da década de 1940, com os primeiros impactos do modernismo em Santa Catarina, aproximou-se do Grupo Sul, formado por intelectuais que aderiram ao movimento, e fez ilustrações para a revista “Sul”, porta-voz da vanguarda local.

Em 1949, foi criado o MAMF (Museu de Arte Moderna de Florianópolis), atual Museu de Arte de Santa Catarina. Foi ali que, em 1957, Meyer Filho realizou ao lado do pintor Hassis (1926-2001) uma exposição pioneira com pinturas e desenhos de motivos catarinenses.

Um ano depois, surgiu o GAPF (Grupo de Artistas Plásticos de Florianópolis), que promoveu eventos de artes aqui e levou exposições para fora do Estado. Meyer sempre foi ativo e buscou espaços em outras capitais, a ponto de ter exposto em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Curitiba e Belo Horizonte. Morreu em 22 de junho de 1991.

Foi em Curitiba, onde morou durante alguns meses em 1946, que teve contato com a arte europeia e percebeu que também poderia ser artista. Sua casa era um grande ateliê, porque desenhava e pintava em todos os ambientes.

Os alunos da extinta escola Silveira de Sousa, perto de sua casa, se esbaldavam entrando no quintal para vê-lo criando.

Quem conheceu e conviveu com Ernesto Meyer Filho pode atestar que sua irreverência não se deu só na arte que criou e deixou como legado. Ele era despachado também no dia a dia do trabalho e nas ocasiões em que aparecia em vernissages e eventos culturais em Florianópolis.

Chegava perto das obras e, com sua voz esganiçada, emitia uma opinião em baixo tom, demonstrando sua admiração ou opinião depreciativa acerca do que via.

Era comum ouvi-lo usando expressões como “O quê que há, ô?!” e “O ser humano tá fudiiiidoooo, ô!”, com sotaque manezinho.