Gênio na província: Fritz Müller validou teoria evolucionista de Darwin em Florianópolis

Foi na Ilha, mais precisamente na praia de Fora, hoje Beira-mar Norte, que o então professor do Liceu Provincial realizou pesquisas com crustáceos que corroboraram na práticas as teses do cientista

Sem querer ou fazer grande esforço, Florianópolis entrou para a história da ciência mundial quando Nossa Senhora do Desterro, antigo nome da cidade, abrigou o naturalista alemão Johann Friedrich Theodor Müller (1822-1897) entre seus habitantes, no período de 1856 a 1867.

Foi na Ilha de Santa Catarina, mais precisamente na praia de Fora (hoje avenida Beira-mar Norte), que o então professor do Liceu Provincial realizou pesquisas com crustáceos que vieram a convalidar a teoria evolucionista de Charles Darwin (1809-1882).

Uma prova da relevância dos estudos feitos na Baía Norte foi que o autor de “A origem das espécies” citou Fritz Müller pelo menos 17 vezes na segunda edição de sua principal obra – e a ele foi grato pelo resto da vida, a ponto de chamá-lo de “príncipe dos observadores”.

Daqui a dois anos, o mundo vai comemorar o bicentenário de nascimento de Fritz Müller, e Santa Catarina, onde ele viveu de 1852 até a morte, já se movimenta para não ficar para trás.

Um grupo multidisciplinar está preparando programação que vai constar de palestras com especialistas e eventos, além de pesquisas e estudos em diversas frentes, para marcar a data.

Fritz Müller em registro de 1891, aos 68 anos – Foto: Acervo Museu Ecologia Fritz Müller/Divulgação/NDFritz Müller em registro de 1891, aos 68 anos – Foto: Acervo Museu Ecologia Fritz Müller/Divulgação/ND

Se em Blumenau, onde o naturalista desembarcou em meados do século 19, há um museu e uma série de referências ao seu nome, a Capital ainda mantém um estranho alheamento em relação a esse cientista reconhecido em todas as latitudes do planeta. Os 200 anos de seu nascimento são oportunidade para reparar essa dívida histórica.

Formador da identidade catarinense

Mesmo com os impactos da pandemia de coronavírus, que atrasou todo o cronograma, a primeira etapa da programação está prestes a começar. A partir do dia 30 deste mês, e se estendendo até agosto, uma série de seminários online vai envolver professores, acadêmicos e cientistas que debaterão a vida, a obra e o legado de Fritz Müller, ressaltando seu trabalho como naturalista, botânico, ambientalista, pedagogo e humanista.

Na abertura, ninguém menos que o presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), Ildeu de Castro Moreira, e Luiz Roberto Fontes, um dos tradutores de “Für Darwin” (“Para Darwin”), livro publicado por Müller em 1864 na Alemanha, farão parte do seminário.

“Fritz Müller foi um personagem formador da identidade catarinense e precisa ser reconhecido como um dos ícones da ciência e da educação em nosso Estado”, diz o advogado e agente cultural Marcondes Marchetti, coordenador do grupo “Desterro Fritz Müller Darwin 200 anos”, que reúne entidades e instituições culturais e acadêmicas de Santa Catarina e que responde pela organização das comemorações.

Advogado, pesquisador e agente cultural Marcondes Marchetti coordena grupo “Desterro Fritz Müller Darwin 200 anos”, que reúne entidades e instituições culturais e acadêmicas de Santa Catarina que comemorarão o bicentenário do naturalista alemão que morou na Ilha – Foto: Anderson Coelho/NDAdvogado, pesquisador e agente cultural Marcondes Marchetti coordena grupo “Desterro Fritz Müller Darwin 200 anos”, que reúne entidades e instituições culturais e acadêmicas de Santa Catarina que comemorarão o bicentenário do naturalista alemão que morou na Ilha – Foto: Anderson Coelho/ND

Professores conhecem legado do naturalista

Os sete seminários voltados para os professores da rede estadual de ensino vão de 30 de junho a 11 de agosto, sempre no horário das 14h às 16h, e nas semanas seguintes ao encerramento desta etapa haverá atividades de ensino à distância, prolongando a transmissão de conteúdos até 30 de setembro.

Eles abordam o legado científico de Fritz Müller, o seu perfil humanístico, a herança que deixou como naturalista, sua análise das medusas, crustáceos, bromélias e orquídeas catarinenses, a interpretação da organização social de formigas e cupins e sua contribuição ao ensino laico, tentado pela primeira vez no Estado por meio do Liceu Provincial, que foi considerado uma das melhores escolas do Brasil pelo geógrafo e estatístico alemão Johann Eduard Wappäus (1812-1879).

“A proposta dos seminários foi muito bem recebida pelo secretário de Estado da Educação, Natalino Uggioni, e por sua equipe”, diz Marcondes Marchetti. Por usar a estrutura e as ferramentas da secretaria, o custo é apenas operacional.

Os especialistas e docentes envolvidos são professores e pesquisadores renomados, como Alberto Lindner, Mario Steindel, Maria da Glória Weissheimer, Maria Cristina Tonussi (todos de Florianópolis), Ana Maria Moraes, Evandro de Assis, Lauro Bacca (Blumenau), Dolores Tomazelli (Joinville) e Klaus Hartmann Hartfelder (São Paulo).

OS SEMINÁRIOS

30/6: Apresentação da proposta do curso e do personagem Fritz Müller

7/7: O olhar histórico do legado de Fritz Müller

14/7: O olhar naturalista de Fritz Müller (ep. 1)

21/7: O olhar naturalista de Fritz Müller (ep. 2)

28/7: O legado de Fritz Müller segundo a perspectiva ambientalista

4/8: O legado de Fritz Müller segundo a perspectiva pedagógica

11/8: O legado de Fritz Müller como proposta no desenvolvimento integral

12/8 a 30/9: Realização de atividades de EaD (ensino a distância)

Microscópio onde Fritz Müller desenvolveu grande parte de suas pesquisas – Foto: Acervo Museu Ecologia Fritz Müller/Divulgação/NDMicroscópio onde Fritz Müller desenvolveu grande parte de suas pesquisas – Foto: Acervo Museu Ecologia Fritz Müller/Divulgação/ND

Grande contribuição para a ciência

A vida e os feitos de Fritz Müller são dignos de um romance épico. Nascido numa vila próxima a Erfurt, na Turíngia, em 31 de março de 1822, ele se criou num ambiente religioso e já na adolescência foi apresentado ao mundo da ciência porque os tios eram químicos e farmacêuticos.

O ambiente e o momento histórico eram propícios para quem tinha curiosidade científica, pois nas primeiras décadas do século 19 os conhecimentos da física e da química e a evolução do capitalismo industrial estimularam as investigações biológicas, ao mesmo tempo em que se impunha uma visão mais materialista e tecnicista do mundo, levando à criação de instrumentos de precisão para a observação das espécies e a coleta de dados.

Disposto a se tornar naturalista, Fritz Müller ingressou na Universidade de Berlim. Formado, voltou para a cidade natal como professor, mas desistiu da carreira para fazer medicina na Universidade de Greifswald. Ali participou de discussões nos campos da filosofia e religião (eram os tempos de Kant e Hegel), reforçando convicções que o acompanharam pela vida a fora.

Não obteve o diploma de médico porque se recusou a citar o nome de Deus na colação de grau. Sem profissão e emprego, e influenciado pelas novas ideias científicas, decidiu emigrar para o Brasil. Seu reencontro com Hermann Blumenau, que conhecera como funcionário de uma farmácia em Erfurt, fê-lo vir para a colônia alemã recém-fundada no Vale do Itajaí.

Com a mulher, Karoline, e uma filha, e ao lado do irmão, August, foram quatro anos dedicados à sobrevivência como colono, até que a antipatia do Dr. Blumenau às suas ideias anticlericais e um convite do presidente da província de Santa Catarina, João José Coutinho, para dar aulas no Desterro, mudaram a vida de Fritz Müller.

Desavenças políticas e religiosas não impediram que o naturalista organizasse um jardim botânico e um laboratório de física e química na Ilha, porém acabou demitido, com outros professores protestantes ou estrangeiros, quando os jesuítas assumiram o Liceu Provincial, em 1864.

Nos 11 anos em que passou na Capital, Müller produziu a obra que o projetou na ciência mundial, porque pesou decisivamente para a consolidação da teoria evolutiva de Charles Darwin.

No livro “Für Darwin” ele descreveu inúmeras espécies de invertebrados e plantas de Santa Catarina, explicou fenômenos biológicos e apresentou modelos matemáticos para elucidar a seleção natural e provar sua pertinência.

Em outras palavras, de acordo com Marcondes Marchetti, ele comprovou, a partir da observação de elementos da natureza, “muitas coisas que Darwin apresentara como formulação teórica”.

QUEM ESTÁ NO PROJETO

Governo do Estado – Secretaria da Educação, Fundação Catarinense de Cultura, Fapesc, Instituto do Meio Ambiente, Museu da Escola Catarinense, Museu Histórico de Santa Catarina, Conselho Estadual de Cultura

Prefeitura de Florianópolis – Secretaria da Casa Civil, Fundação Franklin Cascaes

Câmara de Vereadores de Florianópolis

Assembleia Legislativa do Estado – Comissão de Educação e Cultura, deputada Luciane Carminatti, deputado Vicente Caropreso, deputado João Amin.

Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Instituto Carl Hoepcke

Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina (IHGSC)

Consulado do Reino Unido

Consulado da Alemanha

Prefeitura Municipal de Blumenau

Instituto Histórico de Blumenau

Arquivo Histórico de Blumenau

Universidade Regional de Blumenau (Furb)

Museu Fritz Müller

Associação Catarinense de Tecnologia (Acate)

Cocreation Labs

Estudo de orquídeas desenvolvido pelo naturalista – Foto: Acervo Museu Fritz Müller/Divulgação/NDEstudo de orquídeas desenvolvido pelo naturalista – Foto: Acervo Museu Fritz Müller/Divulgação/ND

CURIOSIDADES

– Fritz Müller e Charles Darwin não se conheceram pessoalmente, mas depois de muito relutar o naturalista radicado em Santa Catarina mandou uma foto sua para o autor de “A origem das espécies”, que mandou publicar em inglês o livro “Für Darwin”, escrito originalmente em alemão.

– Não se conhece o paradeiro das correspondências originais trocadas entre Müller e Darwin, mas especialistas suspeitam que estejam em algum acervo público nos Estados Unidos, perdidas em meio a outros documentos ainda não catalogados.

– Não há certeza de onde funcionou o Liceu Provincial, onde Fritz Müller deu aulas no Desterro, nem do local da casa onde morou com a família na Ilha. Pistas sugerem que a escola era próximo de onde está hoje a sede do Corpo de Bombeiros, na praça Getúlio Vargas.

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