Iniciativa mantém viva língua indígena falada em SC

Empresa Motorola Mobility do grupo chinês LeNovo, adicionou o idioma Kaingang falado por povos indígenas em celulares da marca

A empresa Motorola Mobility, do grupo chinês LeNovo, adicionou os idiomas Kaingang, falado por povos indígenas em Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo e o Nheengatú, falado em aldeias na Amazônia, em aparelhos celulares da marca. A iniciativa apoia a preservação das línguas maternas quando a evolução tende a esquecê-las.

Empresa Motorola passa a adicionar língua indígena falada em SC em celulares – Foto: Thiago Gomes /Agência ParáEmpresa Motorola passa a adicionar língua indígena falada em SC em celulares – Foto: Thiago Gomes /Agência Pará

Após a Motorola perceber que nenhuma das línguas indígenas faladas na América Latina estavam presentes no Android e analisar que os idiomas não faziam parte do padrão de codificação de caracteres universal, decidiu adicionar as línguas Kaingang e Nheengatu.

Para esse primeiro projeto, a marca atuou em parceria com o professor linguista Wilmar da Rocha D’Angelis, da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e representantes de cada uma das comunidades.

Com a inovação, é possível substituir no teclado o menu português para os idiomas indígenas. Sendo assim, culturas passam a ser beneficiadas e reconhecidas mundialmente.

Idioma Kaingang em Santa Catarina

Os Kaingang compõem a maior população indígena no sul do Brasil, estimada em mais de 50 mil pessoas.

No último senso realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2010, a população indígena em Santa Catarina totalizou 16.041 pessoas. Desse total, cerca de 6.543 são povos Kaingang vivendo em territórios indígenas.

Representatividade

Sueli Krengre Cândido é uma das tradutoras do projeto. Ela pertence ao povo Kaingang que vivem na Terra Indígena Guarita, no noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, com oito mil indígenas.

Sueli ou Krengre, seu nome indígena, possui um currículo extenso, desde formação em Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica com Ênfase em Linguagem pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) a pós-graduação em Educação Indígena pelo INE (Instituto Nacional de Ensino), e Gestão Escolar pela FAVENI (Faculdade Venda Nova Imigrante), até orientadora de professores cursistas do programa Saberes Indígenas nas escolas.

Ela conta que a vontade de representar o povo e desmistificar o que foi dito até hoje, sempre esteve no sangue, e a tecnologia contribuiu.

“Krengre foi me dado em homenagem a uma indígena guerreira que sempre buscou fazer as coisas para o bem de todos, muitos já me falaram que eu faço jus ao nome”, disse Sueli Cândido. “Estou sempre querendo buscar progresso em favor da nossa cultura, especificamente a língua materna”, conta.

“Hoje em dia, com essa nova evolução está sendo tudo mais fácil de levar ao conhecimento para a sociedade não indígena, não só a nossa cultura, onde mostramos a nossa vivência”, explica.

“Pois chega dessas pessoas ficarem imaginando que todos os indígenas têm a mesma vivência, que nós vivemos nus e vivemos da caça como dizem e mostram nos livros didáticos de uns anos atrás”, ressalta.

“Mas também nos permitiu [a tecnologia] mostrar a escrita da nossa língua materna, que hoje consideramos a nossa identidade, pois junto com essa evolução estamos perdendo muito da nossa cultura”, afirma.

População indígena em Santa Catarina totalizou aproximadamente 16.041 pessoas – Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil/NDPopulação indígena em Santa Catarina totalizou aproximadamente 16.041 pessoas – Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil/ND

Início da história

A participação de Sueli como tradutora começou com uma simples ajuda a uma amiga. “Essa introdução da língua para mim, pessoalmente, foi muito importante”, afirma. “Foi por uma simples tradução de umas frases para um cartaz que fiz, a um pedido de uma amiga professora de Campinas (SP),  sobre o coronavírus, logo que surgiu a pandemia”, conta.

“Esta tradução foi parar em um site das línguas mundiais, onde o doutorando estagiário, Robert Melo, da Motorola, tinha feito um projeto onde incluía línguas indígenas”, continua. “E foi lá que ele viu e chegou até mim, por meio da minha amiga, para a qual eu havia feito a tradução”, explica.

E foi assim que o projeto, chamado Jupy, começou a ganhar forma. Para Sueli, foi o começo de uma luta para manter a língua viva.

“Quando fui procurada pela pessoa que elaborou esse projeto fiquei muito feliz porque assim eu poderia ajudar a manter a nossa língua viva, pois junto com a evolução tudo da nossa cultura está indo junto”, conta. “Nas novas tecnologias, todas tem a escrita na língua portuguesa, inglesa ou outra. Por isso, aceitei fazer parte desse desafio”.

Em julho de 2020 começaram as reuniões, e em outubro do mesmo ano, os trabalhos com as traduções para a Motorola foram iniciados. Sueli conta que foi cansativo, devido ao tempo que tinham para concluir o projeto, mas no fim, conseguiram manter tudo dentro do prazo.

Vozes contrárias

Antes do lançamento do projeto, o professor Wilmar D’Angelis, participou de uma entrevista, onde uma indígena se manifestou contrária à iniciativa.

“Uma indígena do Paraná se manifestou contra o que tínhamos feito, dizendo que nenhuma liderança tinha sido consultada, que tínhamos violado o código sagrado”, conta Sueli Cândido. “Sabíamos que isso iria acontecer”, desabafa.

Para ela, os povos indígenas precisam lutar pelas causas. “Lutadora como nós em nossa área deveria fazer o mesmo”, continua .”Aproveitar as oportunidades que surgem e usá-las a nosso favor e não só dizer que é indígena quando vai para uma manifestação pintando-se, usando brincos com penas e cocares”, ressalta.

“Sabemos que a nossa língua está morrendo, pois nossos filhos e netos que vem aí já não estão mais dando importância”, indaga. “Tudo que estamos fazendo é tentar preservar enquanto professores e lutadores da causa indígena, pela educação”, defende.

Lançamento

O lançamento aconteceu em 25 de março. Alguns dias depois, Sueli comemorava a conquista mostrando o celular, Moto G, da Motorola, já configurado com a língua Kaingang.

“Acho que depois dessa divulgação a coisa foi normalizando, foi compreendida”, conta Sueli. “As pessoas que se manifestaram contra viram que não violamos nada, pois ela não traz nada que um ‘fóg’ (não índio) possa se aproveitar ou se apossar da nossa língua”, explica.

“Somente quem é falante ou escrevente poderá usufruir dessa tecnologia com nova configuração”, afirma. “Acharam que a empresa estaria ganhando em cima disso, mas na verdade ela só acrescentou uma, digo duas línguas a mais em sua configuração do idioma”, defende.

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