Marcos Cardoso

marcos.cardoso@ndmais.com.br A sociedade da Grande Florianópolis, os eventos culturais e as tradições da região analisadas pelo experiente jornalista Marcos Cardoso.


Jaqueline Aranha, a cidadã-samba recordista de Florianópolis

Ela, que também foi princesa e rainha do Carnaval da cidade, hoje mora e trabalha em São Paulo com o marido, o cantor e apresentador Netinho de Paula

Nascida no Balneário do Estreito, assim que completou um ano de idade, Jaqueline Aranha foi morar no Monte Cristo, também na região continental de Florianópolis, onde passou a maior parte de sua vida, até se radicar em São Paulo, em 2013.

Influenciada por um tio e por uma prima intimamente ligados ao Carnaval da Capital catarinense, ela começou a desfilar na adolescência, na escola de samba Embaixada Copa Lord.

Logo iniciou a coleção de títulos da realeza momesca: 1ª princesa (1996) e rainha (1997) do Carnaval da cidade, as imbatíveis sete vezes cidadã-samba da Capital (1999-2005), ao lado do saudoso Adilson Coelho, com quem desfilou depois como hors-concours de 2006 a 2010, entre outros tantos.

Ainda foi musa do Berbigão do Boca, a festa oficial de abertura do Carnaval florianopolitano, e, de quebra, miss Florianópolis 2007 – ganhando facilmente a faixa de miss Simpatia de Santa Catarina.

Jaqueline Aranha fez história no Carnaval de Florianópolis – Foto: Divulgação/NDJaqueline Aranha fez história no Carnaval de Florianópolis – Foto: Divulgação/ND

Desde que se transferiu para São Paulo, Jaqueline acompanha o Carnaval à distância. Formou-se em jornalismo, cursou um MBA, uma extensão e, agora, uma pós-graduação.

Prestes a completar 40 anos (30 de maio), hoje, é diretora executiva do programa de TV “É da Gente”, apresentado pelo marido, o cantor Netinho de Paula, na Rede Brasil e na TVWA.

Tua família tem tradição nas escolas de samba da Capital.

Fui “picada” pelo Carnaval ainda na infância. Meu tio, Néstor Aranha, irmão do meu pai, era apaixonado por Carnaval. Por meio dele e da minha prima, Elizangela Aranha, eu tive os primeiros contatos.

Desfilei na Embaixada Copa Lord como passista quando eu tinha 12 anos de idade. Foi mágico, inesquecível. Meu tio chegou a ser presidente da Copa Lord alguns anos depois. Elizangela também deixou registrado seu nome na história: foi rainha do Carnaval de Florianópolis, madrinha da bateria da Copa, entre outros títulos.

“Fui ‘picada’ pelo Carnaval ainda na infância” – Foto: Divulgação/ND“Fui ‘picada’ pelo Carnaval ainda na infância” – Foto: Divulgação/ND

O que te encantava quando pequena, assistindo ou desfilando em escola de samba?

Meus pais sempre me levavam em bailes infantis de Carnaval, desfile das escolas na praça 15, galpões de escolas de samba… Acredito que tudo isso tenha influenciado, mas minha vontade maior surgiu quando eu estava assistindo à TV, e no jornal das 19h anunciaram as inscrições para o concurso Rainha do Carnaval. Eu estava na casa da minha madrinha.

No dia seguinte, convenci minha prima, Luciana, a ir até a Setur [atual Secretaria Municipal de Turismo, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico] para fazer minha inscrição. E desde lá não parei mais.

Os quesitos do concurso de rainha do Carnaval e de cidadã-samba são muito semelhantes. O que pesa mais para um e para outro?

De verdade, acredito no conjunto. O de cidadã-samba, o foco é mais no samba no pé. Já o de rainha, é mais detalhado, precisa saber sambar, mas é necessário ter o conjunto: falar bem, ser simpática e atenciosa, se vestir bem.

Não podemos esquecer que a rainha juntamente com as princesas e o Rei [Momo] são o nosso “cartão-postal” do Carnaval. Eles são esperados em todos os eventos principais de Carnaval da cidade. A cidadã-samba o foco é mais no desfile das escolas de samba.

Em 1996, o primeiro título na corte momesca de Florianópolis: 1ª princesa – Foto: Divulgação/NDEm 1996, o primeiro título na corte momesca de Florianópolis: 1ª princesa – Foto: Divulgação/ND

Como era possível ir a tantos compromissos, entrevistas, eventos o dia inteiro e ainda ter energia para desfilar nas noites do concurso e das campeãs, de salto alto?

Excelente pergunta. Confesso que não faço ideia! Acho que somente o amor explica tanta dedicação e entrega. Quando paro para lembrar, parece impossível. Muitos anos nós chegávamos em casa por volta das 6h da manhã (quando não tinha horário determinado para os términos das festas) e tínhamos que estar prontas às 8h. Por muitas vezes eu entrava em casa, tomava um banho e já me arrumava para o próximo evento. Era surreal, mas ao mesmo tempo prazeroso.

A rainha, Jaqueline Aranha, e o Rei Momo Hernani Hulk, entre as princesas do Carnaval de Florianópolis 1997 – Foto: Divulgação/NDA rainha, Jaqueline Aranha, e o Rei Momo Hernani Hulk, entre as princesas do Carnaval de Florianópolis 1997 – Foto: Divulgação/ND

Fazias algum tipo de preparo?

Era 100% na raça e no amor! Antes do Carnaval, frequentava os ensaios com meu parceiro, amigo e agora anjo, Adilson Coelho [falecido em 2010]. Ele era ligado nos 220 volts. Se não existisse ele na minha vida, acredito que eu não teria conquistado tudo que conquistei no Carnaval. Um dependia do outro. E foi assim por muitos anos.

Como iniciou essa parceria tão afinada com Adilson Coelho, então cidadão-samba da Copa Lord?

Surgiu em 1999. Disputamos juntos como casal e, acredite, nós nos conhecemos pessoalmente uns dias antes do desfile. Não ensaiamos, e ainda assim nós apresentamos entrosamento. Era para ser, foi sem dúvida encontro de almas!

Vocês tinham um carisma incomum na avenida…

Não era planejado, era completamente natural. Éramos a força um do outro. Foi assim até o último dia da vida dele. Se eu tivesse mil vidas, ainda assim seria insuficiente para retribuir o que ele foi e continuará sendo para a minha vida.

Jaqueline e Adilson Coelho formaram uma das parcerias mais expressivas do Carnaval de Florianópolis – Foto: Divulgação/NDJaqueline e Adilson Coelho formaram uma das parcerias mais expressivas do Carnaval de Florianópolis – Foto: Divulgação/ND

Ficaste surpresa quando ganhaste o primeiro título de cidadã-samba?

Toda conquista é marcada por surpresa. Era uma experiência nova, eu mesma havia confeccionado a minha fantasia juntamente com família e amigos.

No primeiro ano, em 1999, eu desfilei com um costeiro gigante e pesado. Antes mesmo de chegar na metade da avenida eu já não conseguia mais levantar os braços. Completamente despreparada!

Foi um dos melhores momentos da minha vida, pois estava no meio da arquibancada no dia da apuração dos votos, e foi uma superfesta.

E aí veio uma sucessão de sete vitórias consecutivas.

Todo ano era uma expectativa e experiência novas. Cada concurso era como se fosse o primeiro, e a cada ano iam surgindo novos desafios. À medida que eu ia ganhando, as cobranças iam aumentando. Desde o samba à fantasia. Então, o jeito era se preparar sempre e melhorar cada vez mais.

Eu conquistei sete títulos. Antes de mim existiram mulheres incríveis, em especial a nossa eterna Nega Tide, com seis títulos. Tivemos o privilégio de conviver um pouco, e foi tão intenso que parecíamos ter vivido uma vida inteira juntas.

A coleção de faixas de Jaqueline Aranha – Foto: Divulgação/NDA coleção de faixas de Jaqueline Aranha – Foto: Divulgação/ND

Quando passaste a hors-concours, como ficou a tua participação no Carnaval?

Eu frequentava todos os eventos com a corte momesca. Amava!!! Em relação às escolas de samba, eu seguia desfilando somente na minha, Embaixada Copa Lord, como destaque e como rainha de bateria.

Quais foram as outras grandes cidadãs-samba de Florianópolis?

Tivemos muitas, antes e depois de mim. Algumas marcaram muito, como Patrícia Areias, Maristela Figueiredo, Jutiara Vieira, Nega Tide… e tantas outras.

As supercampeãs do concurso Cidadã-Samba de Florianópolis, iniciado pela agência Propague, em 1963. Em pé, da esq. para dir.: Jaqueline Aranha (1999-2005), Patrícia Areias (1988-1990), Maristela Figueiredo (1976-1979) e Nega Tide (1965-1970); sentadas: Ivonete Soares (1963-1964) e Jutiara Vieira (1982-1984) – Foto: Divulgação/NDAs supercampeãs do concurso Cidadã-Samba de Florianópolis, iniciado pela agência Propague, em 1963. Em pé, da esq. para dir.: Jaqueline Aranha (1999-2005), Patrícia Areias (1988-1990), Maristela Figueiredo (1976-1979) e Nega Tide (1965-1970); sentadas: Ivonete Soares (1963-1964) e Jutiara Vieira (1982-1984) – Foto: Divulgação/ND

Como conheceste o teu marido, o cantor e apresentador Netinho de Paula?

Conheci o Neto no Réveillon de Florianópolis de 1999. Ficamos amigos, depois trabalhei com ele em São Paulo, onde morei por alguns anos. Após, retornei para Florianópolis, onde comecei a trabalhar na Setur, juntamente com meu amigo Tiago Silva, que me ajudou muito!!!

Em 2010, reencontrei o Neto no show que ele fez no Rainha do Carnaval de Florianópolis. Alguns meses passaram, voltamos a nos falar e iniciamos namoro. Então, eu trabalhava na Setur de segunda a sexta, e sábado e domingo viajava para São Paulo. Foram quase três anos até que decidi me mudar de vez.

Hoje casados, Netinho de Paula e Jaqueline Aranha se conheceram em 1999, em Florianópolis – Foto: Divulgação/NDHoje casados, Netinho de Paula e Jaqueline Aranha se conheceram em 1999, em Florianópolis – Foto: Divulgação/ND

Já eras fã dele antes de conhecê-lo?

Eu era fã do Negritude Junior. O show, as danças, roupas, músicas… marcaram minha juventude. Quando o conheci parecia um sonho. Ele sempre muito gentil e visionário, me dava conselhos de como eu deveria fazer do meu amor pelo Carnaval virar trabalho, e não só por amor. Ele se tornou um grande amigo. Até pensamos em “romance” na época, mas vivíamos vidas completamente opostas. Então, nos tornamos muito amigos.

Ele tem sete filhos do primeiro casamento e oito netos. Como é a tua relação com eles? Pode vir um filho contigo por aí?

São sete filhos que considero como se fossem meus também. Nossa relação é muito boa. Nos amamos e nos respeitamos muito. Dos filhos, vieram netos, que são meus também. Tenho oito netos. É maravilhoso quando ouço eles me chamando de vó, são presentes de Deus na minha vida! Já em relação ao “oitavinho(a)”, quem sabe né?! (risos)

Netinho e Jaqueline, no centro, ao fundo, em comemoração familiar – Foto: Divulgação/NDNetinho e Jaqueline, no centro, ao fundo, em comemoração familiar – Foto: Divulgação/ND

Tens vindo a Florianópolis?

Tenho ido pouco. Minha família de Floripa é que acaba vindo mais para São Paulo. Mas sempre que posso eu tento ir para Floripa matar a saudade. Minha vida é corrida, por isso acabo indo pouco.

Cursaste jornalismo. Fizeste trabalhos nesta área?

Iniciei minha graduação aí, em Floripa, na Estácio de Sá. Quando me mudei para São Paulo, acabei finalizando o curso aqui, na FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas), em 2014. Logo em seguida, retomei meus trabalhos no setor público, trabalhando na prefeitura de São Paulo. Então, voltei meus estudos para administração pública.

Fiz MBA em gestão de projetos na Unip (Universidade Paulista), curso de extensão em administração pública, governabilidade e gerência política na FGV (Fundação Getulio Vargas).

Pouco antes da pandemia, eu comecei a trabalhar como diretora executiva do programa do Neto, “É da Gente”. Estou amando. E mesmo assim continuo estudando. Neste momento, em fase final da pós em direitos humanos pela PUC (Pontifícia Universidade Católica).

No cenário do programa de TV “É da Gente”, apresentado pelo marido – Foto: Divulgação/NDNo cenário do programa de TV “É da Gente”, apresentado pelo marido – Foto: Divulgação/ND

Qual é a tua ligação com o Carnaval hoje?

Atualmente, nenhuma. Vivo a fase de apreciadora. Bem afastada, mas quando posso, frequento ensaio e desfile aqui em São Paulo. Já em Floripa, somente guardo na memória e no coração tudo que vivi. Muito do que me tornei foi fruto do Carnaval.

À frente da bateria da Embaixada Copa Lord, com a qual deixou a sua marca no Carnaval de Florianópolis – Foto: Divulgação/NDÀ frente da bateria da Embaixada Copa Lord, com a qual deixou a sua marca no Carnaval de Florianópolis – Foto: Divulgação/ND

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