Marcos Cardoso

A sociedade da Grande Florianópolis, os eventos culturais e as tradições da região analisadas pelo experiente jornalista Marcos Cardoso.


Jovem artista catarinense expõe pela primeira vez no circuito nacional

Autodidata, com seu trabalho de arte contemporânea, ele questiona a postura das pessoas diante das dificuldades da vida

Caçula dos quatro filhos de Janaine Cutolo Fawakhiri e Mohamad Fawakhiri, ele nasceu na Capital catarinense há pouco mais de 21 anos, em uma família que começou a ser formada em Foz do Iguaçu (PR), entre descendentes de italianos e sírio-libaneses, e que se mudou para cá em 1996.

Aos três anos de idade, a mão para o desenho já confrontava a dificuldade com o aprendizado da leitura, e a arte se tornou sua principal forma de comunicação.

O talento observado pelos professores durante o seu crescimento foi levado a dois cursos rápidos na infância, mas parou por aí. Autodidata, nunca mais foi matriculado para aulas do tipo: por um conselho dado à sua mãe, foi-lhe garantida a liberdade de criar e buscar estudos na área quando desejasse.

Sami Fawakhiri optou pela faculdade de moda na Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina), mas trancou para retomar com força a pintura.

Após a primeira mostra individual, em 2020, em Florianópolis, o artista apresenta um novo conceito de trabalho (vida), com o díptico “Uma Nova Chance”, em uma coletiva, até o dia 20 de junho, na Expo Arte, feira de artistas independentes, em São Paulo.

E logo haverá mais uma por lá: de 25 a 27 de junho, na Art Lab Gallery, na badalada rua Oscar Freire, ele vai expor uma obra de 1,60 metro x 1,30 metro e outras oito feitas em notas de um dólar, todas retratando um tema.

Sami Fawakhiri e o díptico “Uma Nova Chance”, que apresenta em São Paulo – Foto: Divulgação/NDSami Fawakhiri e o díptico “Uma Nova Chance”, que apresenta em São Paulo – Foto: Divulgação/ND

Dizes que és pintor desde os três anos. O que te faz acreditar que a pintura de uma criança tão pequena já poderia ser considerada o início deste caminho artístico?

Comecei a desenhar com três anos, acredito que por não me comunicar muito foi a forma que encontrei. No período de alfabetização, com a dificuldade com a leitura, cada vez mais fui criando diversas formas de arte e nunca mais parei.

Na escola, havia algum reconhecimento da tua afinidade com a arte? Durante o teu crescimento, fizeste cursos ou oficinas?

Na escola, em todas as séries, meus professores sempre observaram e destacavam meu contato com a arte. Em escolas de arte mesmo, fiz um curso de arte no CIC (Centro Integrado de Cultura) por volta dos sete anos, e outro com um professor de arte em gibi. Mas ambos foram de pouquíssimo tempo.

E na vida adulta?

Já na adolescência nunca mais fiz cursos. Foi um conselho que minha mãe recebeu enquanto eu ainda era criança: dê todo material que ele buscar para fazer arte, mas o deixe livre. Quando crescer, se ele sentir necessidade, irá buscar. As escolas, quando muito cedo, podem interferir na capacidade dele em criar uma identidade.

Artista autodidata, Sami cresceu com liberdade para criar – Foto: Divulgação/NDArtista autodidata, Sami cresceu com liberdade para criar – Foto: Divulgação/ND

Moraste sete meses no Canadá. A viagem te aguçou ainda mais na profissão?

No Canadá foi intercâmbio cultural, mas ajudou a estudar arte na escola. Minha professora era bem exigente em todas as áreas de arte: escultura, pintura, desenho… e, com isso, me deixou ainda mais perfeccionista.

Além da pintura, experimentaste outros gêneros de arte?

Desde criança, usava qualquer material: papel, cola, argila, massas, gesso, mas sempre desenhando em meus cadernos e telinhas. Na adolescência, customização de roupas, tênis…

A técnica que usas agora sempre predominou em teus quadros?

Estou a todo momento me reinventando com meus materiais. No momento, estou focado em óleo sobre tela e spray. Sempre mudei de materiais de acordo com o que combinaria melhor com o estilo da pintura.

Quais materiais?

Tela de algodão, tinta acrílica, tinta óleo, spray, tinta que brilha no escuro, tinta neon, tintas metalizadas, moldura de madeira (algumas com folha de ouro).

A experimentação de materiais é constante, como as tintas realçadas no escuro – Foto: Divulgação/NDA experimentação de materiais é constante, como as tintas realçadas no escuro – Foto: Divulgação/ND

Como defines o teu trabalho?

Arte contemporânea. Agora, estou focado em uma arte com mais significado, trazendo momentos da vida para minhas obras, o que todos sabem mas não querem ver, tentando sempre mostrar que há uma possibilidade de evoluir e de se reinventar.

O que as pessoas não querem ver?

As pessoas não querem ver as dificuldades da vida, como desigualdade, poluição, manipulação, doenças mentais, luxúria… Mas quero que as pessoas reflitam com minhas obras e tentem sempre melhorar com elas mesmas.

O que fez despertares para isto?

Sempre refleti muito sobre a vida, e senti a necessidade de transmitir o meu olhar através das minhas obras. Sinto que as pessoas estão muito fechadas com suas rotinas, e acabam esquecendo o sentido da vida e seu valor.

Em outubro de 2020, apresentaste a primeira exposição individual, no Art’s Gastronomia e Música, em Florianópolis. Por que naquele momento e qual foi a repercussão?

Até então, não havia criado minha identidade, e na pandemia me veio a ideia de criar algo novo. Passei um tempo produzindo um número de telas e, como já tinha uma parceria com o Kadu [Almeida, relações públicas da casa], joguei a ideia para ele, que foi um sucesso e me encorajou a seguir para exposições  maiores.

Finalizando uma das obras expostas no Art’s Gastronomia e Música, em 2020 – Foto: Divulgação/NDFinalizando uma das obras expostas no Art’s Gastronomia e Música, em 2020 – Foto: Divulgação/ND

São Paulo é passagem obrigatória no circuito artístico nacional, tanto para autores como para público. Pretendes permanecer mais tempo, talvez morar?

Estou aqui em São Paulo pela primeira vez a trabalho, e, sim, São Paulo é o melhor caminho para ser visto e crescer na minha área. As oportunidades que podem aparecer irão me guiar.

Trancaste o curso de moda por quê? Acreditas que podes retornar para concluir?

Cheguei em um momento do curso que não tinha mais tempo para trabalhar, e percebi que estava me distanciando da arte. Resolvi trancar e focar mais na minha arte. Com isso, acabei crescendo muito como artista.

A moda e a tua arte já se uniram em peças de vestuário e acessórios, como casacos, tênis, carteiras e até malas. Pensas em fortalecer esta fusão, por exemplo, com a criação de uma grife?

Talvez. Nunca me desliguei da moda, e ainda espero criar algo grande nessa área.

No ano passado, confeccionaste máscaras de proteção em função da pandemia, tendo vendido todas em apenas um dia. Como está a produção agora? Que diferencial elas têm?

A primeira produção foi um sucesso, vendeu tudo na pré-venda. Aí, resolvi terceirizar, e foi muito bom. Consegui vender as máscaras e pintar no mesmo momento. Na venda de cada máscara, eu doava uma. A segunda produção começou agora pelo grande sucesso que foi a primeira e pela segurança.

É uma máscara com tecido 100% de algodão, dupla, assim seguindo todas as leis da saúde. Criei ela para ter conforto, estilo, segurança e qualidade, e com um regulador para ajudar no tamanho e conforto.

Sami entre os pais, Mohamad Fawakhiri e Janaine Cutolo Fawakhiri – Foto: Divulgação/NDSami entre os pais, Mohamad Fawakhiri e Janaine Cutolo Fawakhiri – Foto: Divulgação/ND

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