Laguna preserva a história viva de Anita Garibaldi

No ano do bicentenário da heroína de dois mundos, conheça a história de Anita Garibaldi e sua vida em Laguna, no Sul do Estado

A cidade de Laguna fica no litoral Sul de Santa Catarina, a 110 quilômetros de distância da capital Florianópolis. Além de ter lindas praias, dunas, lagoas e receber a visita dos botos e das baleias-francas em determinados períodos do ano, é também uma importante cidade para a história do Brasil e das mulheres.

Casa de Anita Garibaldi, em Laguna – Foto: Elvis Palma Fotografia/DivulgaçãoCasa de Anita Garibaldi, em Laguna – Foto: Elvis Palma Fotografia/Divulgação

Foi neste município que viveu Ana Maria de Jesus Ribeiro. É provável que você não saiba quem é, a menos que a gente diga Anita Garibaldi. Há ainda controvérsias sobre Laguna ser ou não a terra onde Anita nasceu, já que seu registro de nascimento nunca foi encontrado. Mas foi neste território que Ana Maria virou Anita, a personagem histórica.

Filha de pai tropeiro e mãe do lar, família pobre, desde criança Ana esteve muito com seu tio Antônio, um homem que se posicionava contra a monarquia, o então sistema de governo do Brasil, e defensor da república. Foi no contato com o tio, segundo historiadores, que começou a criar seus ideais de igualdade social e liberdade.

Ana desde menina foi uma rebelde. Não aceitava as convenções sociais de sua época. Tanto é que tomava banho de mar, algumas vezes nua, o que era um escândalo para uma mulher no tempo em que ela viveu, nos anos de 1800. Aos 14 anos, já órfã de pai, sua mãe lhe arranjou casamento com um sapateiro.

A menina não gostou. O arranjo durou apenas quatro anos. Manuel, seu marido, alistou-se no exército imperial para combater os revoltosos farroupilhas, que lutavam contra a monarquia, e abandonou a cidade e a mulher.

Foi na casa amarela, construção típica colonial luso-brasileira, na Praça Vidal Ramos, no Centro de Laguna, que Ana se vestiu para seu primeiro casamento. Devido a sua importância histórica, o casarão se tornou o Museu Casa de Anita e expõe painéis que contam a saga de sua vida, incluindo as batalhas das quais participou, o amor por Giuseppe Garibaldi e a família que formaram.

Ana conheceu Garibaldi no ano de 1839, quando ele, junto a outros farroupilhas, chegaram a Laguna na intenção de tomar a cidade portuária e torná-la independente do império, como haviam feito no Rio Grande do Sul, com a proclamação da República Rio-Grandense.

Quando você estiver no Centro Histórico de Laguna, observe o casarão branco de janelas azuis na Praça da República Juliana. Foi de uma de suas janelas que David Canabarro e Giuseppe Garibaldi proclamaram, em 24 de julho de 1839, a República Juliana, formando uma confederação com a república do Estado vizinho, que durou apenas cerca de quatro meses. Aproveite e visite o espaço para conhecer essa história. Funciona lá o Museu Histórico Anita Garibaldi.

Museu Anita Garibaldi, em Laguna – Foto: Elvis Palma Fotografia/DivulgaçãoMuseu Anita Garibaldi, em Laguna – Foto: Elvis Palma Fotografia/Divulgação

O sentimento de Anita e Giuseppe foi paixão à primeira vista, documentada em carta. Foi dessa relação com o italiano, que chegou ao Brasil fugido de seu país por participar de um grupo revolucionário, que Ana se tornou Anita, diminutivo de seu nome dado por aquele que seria seu companheiro de vida e pai de seus cinco filhos.

O último deles não chegou a nascer.  Anita Garibaldi foi a primeira mulher brasileira a falar e pegar em armas para defender a república. Foi nas águas do porto de Imbituba, cidade vizinha a Laguna, que ocorreu seu batismo de fogo.

Era de novembro de 1839 e foi a primeira vez que Anita se colocou na linha de frente de um confronto com a guarda imperial. Foi a primeira de muitas batalhas que enfrentou.

A segunda foi no canal de Laguna, de onde hoje é possível avistar os pescadores interagindo com os botos. Foi ali que os farroupilhas perderam a batalha para as tropas do Império. Anita e Giuseppe, junto a outros farroupilhas, ficaram dez dias acampados na Ponta do Camacho, na região do famoso Farol de Santa Marta, de onde saíram fugidos para Lages.

Anita nunca mais voltaria a Laguna. Seguiria participando de batalhas ao lado de Garibaldi até os últimos dias de sua vida, na Itália, em 1849, onde morreu grávida de seu quinto filho.

No país europeu, a luta era pela unificação da Itália. Por isso é conhecida como “Heroína de Dois Mundos” e tem em Roma uma estátua que a homenageia.

A catarinense foi esculpida em cima de um cavalo, segurando seu primeiro filho no colo e empunhando uma arma na outra mão. A cena aconteceu de fato e foi no Rio Grande do Sul, quando teve de fugir de um cerco da tropa imperial.

Não é à toa que Anita é chamada de heroína. Ela realmente se distingue das demais pessoas de sua época por seus valores e ações extraordinárias. Essa mulher parecia não ter medo, embora o tivesse – e relatou isso em carta a sua irmã, quando estava sentindo seu corpo se fragilizar por causa de uma doença. No entanto, nada a fez desistir da luta.

Transitar por Laguna e por parte da vida de Anita Garibaldi é uma excelente forma de conhecer mais e melhor sobre a história de nosso próprio país e também ter essa mulher como inspiração de garra e de coragem para nossas próprias vidas.

A história de Anita na palma de sua mão

Anita Garibaldi – interpretada por Lize Souza em documentário da NDTV – era uma exímia amazona – Foto: Reprodução/NDTVAnita Garibaldi – interpretada por Lize Souza em documentário da NDTV – era uma exímia amazona – Foto: Reprodução/NDTV

Tudo o que contamos até aqui e muitas outras passagens de sua breve e brava história você pode conhecer na série documental “Anita: amor, luta e liberdade”, produzida pela NDTV em comemoração ao bicentenário de nascimento da heroína de dois mundos.

Dividida em quatro capítulos, a obra, que é uma mescla de dramaturgia com linguagem jornalística, conta o começo da história de luta da catarinense, sua vida no Uruguai, na Itália, seus atos heróicos e seus dramas pessoais ao longo de seus apenas 28 anos de vida. A série traz, inclusive, entrevistas com os bisnetos de Anita, que contam parte de sua história.

A produção envolveu cerca de 40 profissionais, entre colaboradores da NDTV, profissionais independentes que atuam no setor do cinema, atores e produtores na Itália. A direção da obra é de Isabela Hoffmann. A coordenação geral fica a cargo de Roberto Bertolini e a direção de produção, de Marcelo Campanholo.

Explore mais conteúdos da cidade