Laudelino Sardá

Causos da Ilha, seus personagens, histórias e momentos do cotidiano de Florianópolis com quem conhece os cantos da Capital de Santa Catarina.


Laudelino Sardá: Tradições esquecidas

Famílias cultivavam hábitos religiosos, a substituição da folha de ramos pendurada atrás da porta principal da casa, por exemplo, servindo de proteção contra mau olhado e relâmpagos

Neste período que antecede a Páscoa, os nativos seguiam à risca as tradições religiosas e os hábitos herdados principalmente dos açorianos.

Nas sextas-feiras da Quaresma, por exemplo, as refeições eram à base de frutos do mar, até porque só se comia carne quando o boi era charqueado.

Páscoa – Foto: Gabriela Milanezi/NDTVPáscoa – Foto: Gabriela Milanezi/NDTV

O Norte da Ilha era de difícil acesso. O ônibus consumia cerca de quatro horas entre Canasvieiras e o Mercado Público, no centro de Floripa. Ainda na sexta-feira que antecede a Páscoa, não se podia pegar em balaio (cesto de cipó).

As famílias cultivavam hábitos religiosos, a substituição da folha de ramos pendurada atrás da porta principal da casa, por exemplo, servindo de proteção contra mau olhado e relâmpagos; e a esperada confraternização entre famílias no domingo de Páscoa, com almoço compartilhado e o café da tarde recheado de bolos, rosca e biscoitos.

O café era produzido em algumas regiões do Norte da Ilha. O outono, que se inicia neste domingo, é uma estação rica em tradições. A religiosidade se estende até o mar, onde a sorte enche as redes de cocoroca, papaterra, sardinhas, espada, corvina, bagre, além da safra de tainha.

Enquanto isso na praia da Cachoeira…

– Ô Venanço, o nosso chocolate da Páscoa era o ovo de galinha cheio de mistura de amendoim com doces.

– Pois então, a minha avó começava duas semanas antes a esvaziar os ovos quebrando só a pontinha. E preparava o recheio que enchia a nossa pança. E a gente ficava sem ver carne nas cinco sextas-feiras, lembras?

– Até porque, Lelo, carne era objeto de luxo, né? Só pra ter uma ideia, o padeiro Aparício vinha a cavalo lá do Ribeirão da Ilha trazer pão aqui pra Cachoeira. E colocava os balaios pendurados na cela. Só que na sexta-feira da Quaresma não se podia tocar no balaio. A minha mãe dizia pra ele na quinta: “Amanhã tu não me aparece aqui com esses balaios, heim…” E Aparício enrolava os pães numa toalha de mesa, amarrada na cela do cavalo.

– Venanço, o outono é o melhó período pra gente, tu não acha?

– Sim, Lelo, de boas safras, festas e alegria. Pena que tudo isso foi estragado por esse ixtepô do vírus. E muita gente tá chorando seus mortos. Que tristeza!

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