Mapa interativo revela sítios arqueológicos de Florianópolis

Projeto Floripa Arqueológica levantou informações de mais de 200 sítios espalhados pela Capital catarinense; Alguns têm mais de 5 mil anos

Quando se pensa em arqueologia geralmente vem à mente as tumbas do Egito, as pinturas rupestres dos homens das cavernas ou as aventuras de Indiana Jones, personagem icônico do cinema.

Poucos pensam em pequenos fragmentos de panelas cerâmicas, instrumentos de pedra lascada, as ruínas de uma velha casa ou mesmo antigas construções que resistem ao tempo.

Sítio arqueológico histórico Caminho da Gurita, localizado na Lagoa do Peri – Foto: Floripa Arqueológica/Divulgação/NDSítio arqueológico histórico Caminho da Gurita, localizado na Lagoa do Peri – Foto: Floripa Arqueológica/Divulgação/ND

Você sabia que existem mais de 200 sítios arqueológicos registrados em Florianópolis?

A Ponte Hercílio Luz, a Catedral Metropolitana e o Largo da Alfândega, no Centro da Capital, são exemplos de sítios arqueológicos ainda ativos com os quais esbarramos no cotidiano.

Esses locais são chamados de sítios históricos porque possuem evidências e datam do período que sucedeu o contato com os colonizadores. Existem ainda os sítios arqueológicos considerados pré-coloniais, como os sambaquis. Florianópolis possui sambaquis com pouco mais de cinco mil anos.

Isso mostra que, por todo esse período, tanto a Ilha de Santa Catarina quanto a área continental do município têm sido ocupadas por grupos humanos de diferentes origens e culturas.

A partir do mapa interativo do projeto “Floripa Arqueológica”, desenvolvido pelo Leia/UFSC (Laboratório de Estudos Interdisciplinares em Arqueologia da Universidade Federal de Santa Catarina), o ND+ leva o leitor a desbravar os sítios arqueológicos da Capital. Vamos lá?

Amontoado de história

Amontoados de conchas, ossos de animais terrestres e marinhos, restos vegetais, manchas de fogueiras, marcas de estacas e sepultamentos humanos constituem os sambaquis, sítios arqueológicos considerados pré-coloniais.

De acordo com Lucas de Melo Reis Bueno, professor de História da UFSC e coordenador da pesquisa “Floripa Arqueológica”, os sambaquis surgiram da ocupação de um grupo de pessoas que tinham na pesca, caça e coleta a sua forma de sustento.

Durante o projeto, foram feitas escavações nos sítios Canto dos Araçás (datas de 4.200 e 2.800 anos); Praia Grande I (data de 2.980 anos); Porto do Rio Vermelho I (datas de 5.020 e 3.980 anos) e Barra da Lagoa I (datas de 4.300 e 2.600 anos).

Registro do sambaqui Porto do Rio Vermelho I – Foto: Floripa Arqueológica/Divulgação/NDRegistro do sambaqui Porto do Rio Vermelho I – Foto: Floripa Arqueológica/Divulgação/ND

O professor conta que a quantidade de ossos de animais marinhos encontrados nesses locais indica que as pessoas que lá viviam dominavam técnicas de navegação, inclusive para o alto-mar.

O entorno da Lagoa da Conceição possui diversos sambaquis que mostram que a região era ocupada por comunidades há cerca de cinco mil anos.

Em meio à cidade, um sambaqui

Na Ilha de Santa Catarina, muitos sítios estão situados em área urbana, estando mais presentes no cotidiano da cidade do que se costuma imaginar.

É o caso do sítio Ponta das Canas I, que fica junto à praia de Ponta das Canas; do sítio Ponta das Almas e do sítio Canto dos Araçás, ambos com cerca de 4.200 anos e situados no Canto dos Araçás, na Lagoa da Conceição.

Sambaqui Ponta das Almas, localizado no Canto dos Araçás, na Lagoa da Conceição – Foto: Floripa Arqueológica/Divulgação/NDSambaqui Ponta das Almas, localizado no Canto dos Araçás, na Lagoa da Conceição – Foto: Floripa Arqueológica/Divulgação/ND

Bueno diz que os sítios escavados ao longo do projeto foram localizados em quintais de residências particulares.

Thiago Umberto Pereira, mestrando em Antropologia com concentração em Arqueologia pela UFPel (Universidade Federal de Pelotas) também fez parte da pesquisa e conta que não é incomum encontrar sítios arqueológicos debaixo de casas, como o da Freguesia do Canto da Lagoa 1.

De acordo com a descrição do sítio no mapa interativo, parte dele encontra-se em um terreno onde uma casa foi construída.

Outro sambaqui com a localização curiosa é o Carianos III, que fica sob uma das pistas do Aeroporto Internacional Hercílio Luz.

Antes de ser soterrado em 1978, o sítio já havia sido superficialmente revirado por enxada e trator para o plantio. Uma escavação na década de 1960 encontrou quebra-coquinhos, machados, amoladores, além de fragmentos de rochas magmáticas.

Sítio arqueológico Carianos III, localizado sob uma pista do Aeroporto Hercílio Luz – Foto: Floripa Arqueológica/Google Maps/Divulgação/NDSítio arqueológico Carianos III, localizado sob uma pista do Aeroporto Hercílio Luz – Foto: Floripa Arqueológica/Google Maps/Divulgação/ND

Existem ainda sítios submersos, como o da Praia dos Ingleses I. O sítio histórico é caracterizado por uma embarcação espanhola naufragada a leste da Praia dos Ingleses.

O local do naufrágio foi escavado entre março de 2004 e abril de 2005 e fevereiro a maio de 2009 pela equipe do Projeto de Arqueologia Subaquática – ONG PAS. No local, foram encontrados cerâmicas, metais, materiais bélicos, lastro, madeira e louças.

O sítio está submerso, parte enterrada, e o material arqueológico recuperado durante o trabalho de pesquisa subaquática encontra-se na sede do Projeto na praia dos Ingleses.

Da Ponte à Catedral

Os sítios arqueológicos não são necessariamente amontoados de conchas e ossos soterrados em um quintal. Podem ser construções imponentes e ainda atuantes na sociedade.

São os sítios históricos, como é o caso da Catedral Metropolitana de Florianópolis, a Ponte Hercílio Luz, o Palácio Cruz e Souza e as fortalezas.

“Muitos lugares são sítios arqueológicos e as pessoas não sabem. São patrimônios históricos da cidade que ainda estão vivos. Vivemos tão próximos desses ambientes que é difícil observá-los como algo que atravessa o tempo e gerações. São construções coloniais que fazem parte da história da nossa cidade e precisam ser protegidos”, diz Thiago Pereira.

Catedral Metropolitana de Florianópolis é considerada um sítio arqueológico histórico – Foto: Anderson Coelho/NDCatedral Metropolitana de Florianópolis é considerada um sítio arqueológico histórico – Foto: Anderson Coelho/ND

Os sítios históricos são divididos em cinco tipos: domésticos (habitações), religiosos (igrejas e cemitérios), militares (fortificações, cadeias), comerciais/produtivos (alfândegas, engenhos) e lixeiras (descarte de rejeitos).

Sítios contam história da escravidão

Além das populações indígenas e europeias, durante o período colonial havia também populações de origem africana na região, que foram trazidas para servir de força de trabalho escrava.

Os sítios arqueológicos vinculados a essas populações são conhecidos como sítios da diáspora africana. São locais que fizeram parte do cotidiano de africanos e afrodescendentes escravizados e são importantes fontes de informações sobre a história da escravidão.

Portos, locais de compra e venda de cativos, armações baleeiras, antigas fazendas, senzalas, engenhos e plantações, além de quilombos e cemitérios são alguns exemplos de sítios da diáspora africana.

No mapa interativo, é possível localizar os sítios Fazenda da Tapera, onde havia engenhos de açúcar e farinha de mandioca, casa grande, senzala, igreja e cemitério; e também o sítio Poço Histórico no Pântano do Sul, construído com pedras por escravos e utilizado para captação de água.

Sítio arqueológico histórico Engenho do Vitorino localizado na Lagoa do Peri – Foto: Floripa Arqueológica/Divulgação/NDSítio arqueológico histórico Engenho do Vitorino localizado na Lagoa do Peri – Foto: Floripa Arqueológica/Divulgação/ND

O Poço está localizado na planície ao Norte das dunas, nas proximidades da parte loteada do Balneário dos Açores.

Floripa Arqueológica

O site “Floripa Arqueológica” é fruto do projeto desenvolvido pela UFSC, em parceria com o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).

O professor Lucas Bueno explica que foi feito um levantamento de toda a bibliografia já produzida referente aos sítios arqueológicos de Florianópolis. Os estudos remontam aos anos 1940 e, em alguns casos, até o final do século 19.

Projeto Floripa Arqueológica foi desenvolvido pela UFSC – Foto: Floripa Arqueológica/Divulgação/NDProjeto Floripa Arqueológica foi desenvolvido pela UFSC – Foto: Floripa Arqueológica/Divulgação/ND

Além do levantamento de informações, o projeto envolveu o recadastramento dos sítios para a atualização dos dados, como os relativos à localização e a identificação de novos sítios. Assim, um total de 146 sítios foram visitados e 35 novos sítios foram identificados.

O objetivo da pesquisa, de acordo com Bueno, foi criar um diagnóstico da situação do patrimônio arqueológico da Capital.

Encontrou um sítio? Siga as orientações

O projeto Floripa Arqueológica orienta que caso a pessoa encontre vestígios arqueológicos, nunca os remova do lugar. A localização é fundamental para a realização de pesquisas.

A pessoa deve tirar fotos (não só do objeto, mas também do entorno) e/ou fazer anotações sobre qualquer ponto de referência que ajude a localizar novamente esse local. Em seguida, deve entrar contato com o Iphan em Santa Catarina e repassar essas informações.

É crime retirar, vender e comprar objetos arqueológicos, ou realizar escavações de sítios arqueológicos sem a permissão do Iphan.

Caso souber de algum processo de destruição de sítios arqueológicos em andamento, é possível denunciar entrando em contato com o Iphan em Santa Catarina e também pelo Disque-Denúncia no 181.

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