Sérgio da Costa Ramos

Escritor e jornalista, membro da Academia Catarinense de Letras, autor de doze livros de crônicas, e figurou na imprensa diária nas últimas duas décadas.


Nada é fácil para a Ilha de Santa Catarina

Em 1678, tudo o que havia era uma cruz e uma capela, marcando o centro do povoado de Nossa Senhora do Desterro. Nada seria fácil para o desenvolvimento da vida desterrense

Há grupos de “think tanks” pensando a cidade e até campanhas espontâneas que elaboram o bem querer de Floripa – e com isso a cidade ganha fóruns de debates para melhor enxergar seus espaços, planejar a ocupação de seu solo,  providenciar novas próteses urbanas. Enfim, sintonizar sua legislação com o bem estar dos ilhéus.

Historicamente, nada foi fácil para a Ilha de Santa Catarina e sua vila-capital, ao longo de uma saga de vitórias e reveses – e de muita gente torcendo “contra”.

Explosão populacional da Capital começou com a fundação da UFSC, em 1960, e não parou mais – Foto: Acervo Carlos Damião/DivulgaçãoExplosão populacional da Capital começou com a fundação da UFSC, em 1960, e não parou mais – Foto: Acervo Carlos Damião/Divulgação

O primeiro “empresário” a fincar os pés na Ilha foi o bandeirante Dias Velho, que apostou no Paraíso insular, voltando suas costas para os “tropeiros”, que passavam por Lages a caminho do Rio Grande.  O vicentino tinha guardado “um capital” para começar uma colônia e decidiu empregá-lo aqui, cativado por tanta beleza.

Inebriou-se, conta a lenda, pelos seus ocasos sangrantes, que espalhavam cintilações   sobre as duas baías e iluminavam, em mechas de vários tons, as cabeleiras da serra do mar.

Em 1678, tudo o que havia era uma cruz e uma capela, marcando o centro do povoado de Nossa Senhora do Desterro. Nada seria fácil para o desenvolvimento da vida desterrense.

Bucaneiros ingleses assassinaram o fundador em 1679, o que atrasou o povoado em pelo menos meio século. Foram cinqüenta anos de indiferença da matriz portuguesa até 1738, quando razões estratégicas – a Ilha ficava exatamente no meio do caminho entre o Rio de Janeiro e o rio da Prata –  fizeram Portugal anunciar a criação da Capitania de Santa Catarina e o “mais sofisticado sistema de defesa do litoral sul do Brasil”.

Como sede da Capitania e da Província, a Ilha sempre foi contestada. Em meados do  século XVIII o governador Manuel Escudero já pretendera levar a capital para o lado do Estreito – iniciando um processo de “interiorização”.

Mais de cem anos depois, Hercílio Luz, em seu primeiro mandato (1894), chegou a estudar o projeto de transferência da Capital para Lages, às margens do rio Canoas. Mas foi Hercílio quem acabou consolidando a Ilha-Capital.

Além da ponte, deixou a Avenida do Saneamento, depois rebatizada com o seu nome, interligando  as baías com a primeira via de duas pistas da cidade – e canalizou a água potável, inaugurando a primeira adutora de Floripa, em 1917. Instalou a luz elétrica e até planejou um bonde à eletricidade – um “tramway” que ligaria a Capital aos seus distritos.

Menos de um século depois, a Ilha se transformaria na Terra Prometida, esta que hoje  seduz o Brasil central e meridional.

Todo brasileiro de bom gosto quer, um dia, vir morar em Floripa. Esse afã, que não se pode impedir ou refrear, requer uma vigília permanente e uma grande determinação dos que aqui moram e aqui almejam encerrar os seus dias. Nos dias que correm, nada é fácil para Floripa. Até mesmo a obtenção de alguns metros quadrados para ampliar uma via pública.

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A Ilha requer um “departamento pensante”,  uma “usina” de bom planejamento para o uso do solo, uma “casinha” cerebral que assessore os seus governantes e que projete um futuro digno, tão racional e planejado quanto possível.

Necessita mais: de uma administração pública ágil e objetiva, que siga um plano institucional legitimado, com diretrizes claras para disciplinar a expansão da cidade e o uso civilizado do seu solo.