Sérgio da Costa Ramos

Escritor e jornalista, membro da Academia Catarinense de Letras, autor de doze livros de crônicas, e figurou na imprensa diária nas últimas duas décadas.


No tempo dos perus de quintal

Os bichos de pena ficavam íntimos da gurizada. E quando esse apego se consolidava, os pais decretavam a morte do “amigo”, na véspera da grande ceia

Natal nos anos 1950-60. A proximidade do Dia do Menino Jesus trazia consigo aquele halo de felicidade “garantida”, com a expectativa dos presentes e a certeza de que nosso quintal logo receberia hóspedes emplumados – perus, em pleno regime de engorda.

Quintal com perus eram logo identificados pelos muitos “glus”, a molecada “inticando” com as aves e fazendo-as ficar “roucas” de tanta provocação. E podia-se comprar perus vivos! “Vivo sou Mortos” – como nos velhos cartazes do faroeste. Esse período de engorda tinha lá a sua crueldade.

Peru – Foto: PexelsPeru – Foto: Pexels

Os bichos de pena ficavam íntimos da gurizada. E quando esse apego se consolidava, os pais decretavam a morte do “amigo”, na véspera da grande ceia.

Quer dizer: as aves eram bem tratadas por interesse de quem as consumiria. Era a “lógica de Henry Mencken”, o jornalista iconoclastado “Baltimore Sun” nos anos 1930:– Se achar que converter-se ao canibalismo pode lhe render alguns votos, Roosevelt mandará engordar um missionário no quintal da Casa Branca!

Claro, carne de peru não era carne humana. Mas para as crianças, o pesar pelo sacrifício do emplumado era o de quem perdia uma pessoa da família. Lembro-me da chegada de duas dessas aves ao nosso quintal para os últimos dias de engorda.

Até a implacável degola pelo carrasco doméstico –uma velha empregada que repartia com o bicho a garrafa de “cana”. Anestesia que servia tanto ao condenado quanto à executora. Plumagem negra com reflexos verdes, a crista encarnada e pendente sobre o cocoruto, à semelhança de um histriônico chapéu, o peru era um inocente que só desconfiava do “matadouro” quando o seu gogó já tinha virado um nó…

Minha avó se condoia com a tortura imposta à ave grugulejante :– Não mexe comesse peru, menino! Tempos de grande inocência. Ninguém via “duplos sentidos” naquela advertência.

Peru era “peru” mesmo, sem qualquer conotação sexual. Perto do sacrifício, o “Gallipavo Meleagris” percebia algo de infausto no ar e acabava seduzido por uma colher da cana Tatuzinho, arma do “carrasco”, espécie de “gole da morte”, antes que lhe faltassem as vias respiratórias, mecanicamente obstruídas.

Hoje o abate não se dá mais em quintais, nem é menos cruel por ser “invisível”. E os balcões frigoríficos exibem peru sem série, já embrulhados a vácuo. Tudo muito industrializado, como numa monótona linha de montagem. Peru vivo, só no cinema. Nem “inticar” com a ave nossas crianças podem mais. Peru de supermercado não gruguleja…

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