Sérgio da Costa Ramos

Escritor e jornalista, membro da Academia Catarinense de Letras, autor de doze livros de crônicas, e figurou na imprensa diária nas últimas duas décadas.


O Sabiá e a boa leitura

Na era da interação tevê-informática, ler um livro pode parecer um passatempo antediluviano

Gostaria de me reencarnar na prosa do velho Braga e habilitar-me a escrever coisas simples, mas não simplórias. Esse era um dom do Sabiá da crônica, Rubem Braga. Escrever um texto eterno sobre algo bem trivial. Como o texto de “A boa manhã”, por exemplo.

Leitura de um livro – Foto: PixabayLeitura de um livro – Foto: Pixabay

“Apenas passo os olhos pelos jornais: jogo-os fora, alegremente, porque eles pretendem dar-me notícia de muitos problemas, e eu não tenho nem quero problema nenhum. Acordei um pouco tarde, abri todas as janelas para um sábado louro e azul, e o mar me deu bom-dia. (…) Chupo uma laranja e isto me dá prazer. Estou contente. Estou contente da maneira mais simples – porque tomei banho e me sinto limpo, porque meus braços, pernas e pulmões funcionam bem; porque estou começando a ficar com fome e tenho comida quente para comer, água fresca para beber.” Simples. E belo.

Penso: meu Deus, como os brasileiros gostariam de se sentir assim como o velho Braga. Limpos, contentes e na perspectiva de uma boa refeição…

No Brasil desta quase primavera, contudo, podemos sentir vontade de tomar um banho de liberdade, num momento em que esse bem está sendo ameaçado.Se for a simples e bela liberdade dos textos do velho Braga, o Brasil estará salvo.

Difícil é convencer a garotada do obsessivo apelo cibernético de sua excelência, o computador; ou de sua majestade, o joguinho eletrônico. Mas não custa nada insistir. Desafiar um jovem a dividir a Internet com um livro. Esta boa mistura está destinada a construir a base educacional do século 21.

Na era da interação tevê-informática, ler um livro pode parecer um passatempo antediluviano. Mas não é. Ler é bom, é gostoso, mas crianças e adolescentes precisam ser catequizados para essa “novidade”.

Um desafio e tanto, posto que a tendência geral é acreditar se que “ler é chato”. Inverdade cruel, que costuma se valer da simplificação do “não li e não gostei”.

Ler é um belo exercício de informação e de imaginação. Não deixa de ser uma forma diferente do leitor ligar a televisão que existe dentro do seu cérebro. Uma tevê colorida e cuja programação nunca se repete, pois o
canal da imaginação é de uma novidade infinita. Atrair um jovem para a leitura é um exercício de paciência. E de sagacidade.

O primeiro passo é ler para eles textos curtos e interessantes. Usar como chamariz o texto bem humorado da crônica, que é uma literatura “sem gravata”. Ou até um capítulo “de ação” num clássico como “Crime e Castigo”.

Há períodos em que Dostoievski parece perseguir um roteiro de novela de suspense – logo no começo, quando o estudante Raskolnikof mata Alena Ivanovna, a velha usurária. Ou ainda um romance de Agatha Christie, como “Morte no Nilo”, um cinematográfico roteiro do gênero policial.

Quem se animaria a atualizar suas leituras num dia de sol e céu azul, como esses que setembro tem nos presenteado? É difícil, bem sei. Mas, cedo ou tarde, a juventude do mundo “Cyber” descobrirá o significado daquela profecia de Sir Francis Bacon (que não é um sanduíche, mas o filósofo inglês), segundo a qual “Informação é Poder”. Logo, por silogismo, “Ler é Poder”. Ler o “Sabiá da crônica” é melhor ainda.

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