Oktoberfest: memórias de uma tradição que faz parte do DNA de Blumenau

Série de reportagens da NDTV resgata legado e história da maior festa germânica das Américas

Por Stevão Limana

Quando o calendário vira e os dias de outubro iniciam, o coração do blumenauense sempre começa a bater mais forte: a cidade se enfeita com bandeiras de três cores, abre os braços para os turistas e expõe símbolos culturais que ajudam a explicar a tradição de um povo.

Mesmo há dois anos sem acontecer, a Oktoberfest muda os ares de Blumenau nesta época do ano. Afinal, a festa foi uma reivindicação da população em 1983, e se estabeleceu como uma das principais características de Blumenau. O ex-prefeito Dalto dos Reis, comandante do executivo entre 1983 e 1988, conta que por onde quer que passasse durante a campanha à prefeitura, recebia pedidos para que sediasse “uma grande festa Germânica”.

Com um sorriso no rosto, Dalto revela que essa se tornou uma das “principais bandeiras eleitorais” dele, na época. Até então, Blumenau não possuía nenhum tipo de evento festivo e colecionava na história muitos episódios de catástrofes e desastres naturais.

Inclusive, foram as enchentes e os deslizamentos de terra que impediram a realização da primeira Oktoberfest, marcada para outubro de 1983. Em julho daquele ano as águas do Rio Itajaí-Açú chegaram a 15,34 metros e a cidade permanece alagada por 32 dias.

Dalto dos Reis foi o prefeito responsável pela criação da Oktoberfest em 1984. – Foto: Lucas Fernandes/NDTVDalto dos Reis foi o prefeito responsável pela criação da Oktoberfest em 1984. – Foto: Lucas Fernandes/NDTV

Com um cenário de desolação e destruição, o evento foi transferido para o ano seguinte. Em paralelo, crescia a ansiedade da população que clamava por momentos de alegria e descontração.

1984 e a primeira edição oficial do evento

Mesmo um ano depois, as instabilidades climáticas ameaçaram a primeira Oktoberfest de sair do papel. A sensação de quem vivia na época era de que tudo conspirava contra, e não foi diferente.

Foi no dia 7 de agosto de 1984 que, mais uma vez, o Rio Itajaí-Açu tomou conta da cidade. Dessa vez, uma enchente maior ainda. As águas chegaram a 15,46 metros, 12 centímetros a mais do que no ano anterior.

Novamente, a ameaça do cancelamento do evento foi o assunto. Neste momento, a bravura do povo blumenauense deu as caras. Todos arregaçaram as mangas e decidiram enfrentar as adversidades e presentear a população com a tão esperada Oktoberfest.

Foi neste momento que a festa deixou de ser uma mera comemoração e passou a representar a superação de um povo marcado por tragédias.

Enquanto a cidade era reconstruída, os antigos pavilhões da Proeb (atual Parque Vila Grmânica) recebiam os primeiros preparativos. A referência principal eram as festividades de Munique. Inclusive, uma comitiva formada por representantes da Secretaria de Turismo visitou o município alemão para entender como tudo acontecia.

Vovô Chopão e as primeiras aparições culturais

Cerca de 100 mil pessoas estiveram presentes na primeira edição da festa. Desde então, a Oktoberfest recebeu um personagem que faz parte do “DNA” do evento até hoje: o vovô Chopão. A criação do publicitário rio-sulense Luiz Cé estava estampada no primeiro cartaz de divulgação.

Desde então, o Vovô Chopão ilustrou folhetos de 11 edições da festa. Com o grande sucesso, o personagem ganhou vida com uma fantasia confeccionada pelo próprio autor.

Em 1988, o Vovô ganhou uma parceira, a vovó Chopão. O casal é símbolo da Oktoberfest e, assim como a Realeza, leva a festa para todo o Brasil. Segundo Cé, “é impossível lembrar de Oktoberfest e não pensar no Vovô Chopão”.

A música como o fio condutor

As notas que compõem as marchas alemãs, principal ritmo que embala a Oktoberfest, são cheias de histórias. Pelo palco do evento já passaram grandes artistas, o que até gerava certa disputa entre os músicos escalados para animar a festa.

Em 1984, Helmut Högl era a maior atração. O ex-prefeito Dalto dos Reis conta que essa foi a “principal vitória da festa”, pois o cantor alemão dizia que Blumenau era “final de mundo”. Após muita conversa e argumentação, ele foi convencido a participar – e ovacionado pelos milhares de fãs reunidos nos pavilhões.

Uma curiosidade: antes de ir embora, Helmut Högl foi até o prédio da antiga prefeitura da cidade e insistiu para que pudesse retornar nos próximos anos.

Histórias que mexem com o coração

Lino Vieira é uma daquelas figuras carimbadas dos palcos da Oktoberfest. Ele está presente como músico desde as primeiras edições. Muitas das inconfundíveis notas das marchas entoadas no Parque Vila Germânica saem dos instrumentos dele.

No início, Lino fazia parte da banda Cavalinho Branco, uma das mais famosas da época. Foi nesse período que ele conheceu a esposa, durante as festividades. Ele conta que deu a mão para ela pela primeira vez na Oktober “e nunca mais soltou”.

Posteriormente, ele fundou a “Lino Orquestra”, momento em que decidiu voltar aos palcos. Foi nesse retorno que ele viveu um dos momentos mais impactantes da vida de músico: um infarto durante a apresentação.

Lino Vieira, fundador da Lino Orquestra, fala sobre um dos momentos mais impactantes que viveu durante a Oktoberfest – Vídeo: Lucas Fernandes/NDTV

A Oktoberfest reúne as memórias de uma tradição que ajuda a explicar o que significa Blumenau. No próximo episódio da série “Oktoberfest: memórias da tradição” será possível conhecer quem batalha atrás das câmeras, dos palcos e dos canecos para que o evento aconteça.

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