Laudelino Sardá

Causos da Ilha, seus personagens, histórias e momentos do cotidiano de Florianópolis com quem conhece os cantos da Capital de Santa Catarina.


Pirão de café com ova

O trabalho mais duro era nos engenhos de farinha e de cachaça, tocados por bois

Vilmar, o Má, e Jorge Marcelino, nativos da Cachoeira, ambos sessentões, se encontram para o eventual cumprimento e acabam consumindo três horas em lembrar os anos 60 e 70.

Na roça, que encaroçava as mãos, divertiam-se em ajudar seus pais na plantação de mandioca, cana de açúcar, feijão, verduras, café, frutas e, quando podiam, o arroz.

Pirão – Foto: Divulgação/NDPirão – Foto: Divulgação/ND

O trabalho mais duro era nos engenhos de farinha e de cachaça, tocados por bois. Vacas também entravam no rodado, confirmam. Havia sete engenhos de farinha só na Vargem Bom Jesus e mais quatro na Cachoeira, fora os que produziam aos montes em Ponta das Canas, Ingleses, Rio Vermelho e Canasvieiras.

Enquanto os homens limpavam a mandioca e a cana e tocavam o processo de produção, as mulheres esperavam as massas que seguiam em água até uma bacia de barro, de onde eram retiradas substâncias para a cacuenga, beijú, conhecido na época por mané pança, rosca, cuscuz e tantos outros produtos.

A farinha era ensacada, geralmente, em uma quarta, ou seja, saco de 12,5 kg, equivalente a meio alqueire. A região consumia, em média, 100 alqueires de farinha por ano. Não havia produtos industrializados. A farinha era trocada por produtos do mar, e o peixe escalado, colocado ao vento e ao sol.

Já as ovas, distribuídas em pequenas redes, ficavam dois dias sobre o telhado da casa para, depois, enriquecer a refeição de qualquer hora, com café e farinha.

Para se mensurar a diferença com os dias de hoje, o mamão verde era partido em gomo e transformado em ensopado, para ser colocado sobre carnes e galinhas. “Tudo era natural”, observa Jorge. “E a gente era saudável”, acrescenta Vilmar. E os dois manés têm razão.

A galinha precisava de, no mínimo, um ano e dois meses para virar refeição. Hoje, com quatro meses, frangos pesam mais, à base de anabolizantes, e já estão à venda. Tudo mudou: raspar, moer e secar a mandioca consumiam 20 dias. Hoje, em dois dias, a tecnologia faz tudo isso. “Mas garanto que a farinha não é a mesma”, desafiam Jezo e seu irmão Ademir.

Enquanto isso, na praia da Cachoeira…

– Ô Lelo, não temos mais como trocar o peixe por farinha. Tá tudo tão caro…

– É verdade, Venanço. Mas, aqui, ainda dá pra trocar dois quilos de peixe por quatro de farinha. Lá em cima, a dificuldade é maior, viu?

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