Sérgio da Costa Ramos

Escritor e jornalista, membro da Academia Catarinense de Letras, autor de doze livros de crônicas, e figurou na imprensa diária nas últimas duas décadas.


Rodízio de turista

A Ilha de Santa Catarina – atenção adventícios, “Ilha de Florianópolis” não existe – é um território pequeno, uma ilhota como as do dodecaneso grego

De Minas Gerais para baixo, do cone sul para cima, todos os caminhos levam ao recortado litoral catarinense e à sua sedutora Ilha-Capital, suas praias de areias finas e águas tépidas, úteros em cujo líquido amniótico todo mundo quer se banhar. Fazer o quê?

Ora, nem por estar Floripa assentada sobre uma ilha de 47 quilômetros de extensão por 12 de largura, podem achar que aqui cabe toda essa gente. A Ilha de Santa Catarina – atenção adventícios, “Ilha de Florianópolis” não existe – é um território pequeno, uma ilhota como as do dodecaneso grego. Uma ilha como Santorini e Mykonos.

Ponte Hercílio Luz, em Florianópolis – Foto: Ricardo Wolffenbüttel/Divulgação/NDPonte Hercílio Luz, em Florianópolis – Foto: Ricardo Wolffenbüttel/Divulgação/ND

Lá só podem entrar novos turistas se a população de recém-chegados estiver equilibrada. Só entram “tantos” turistas se outros “tantos” tiverem saído. Como em Fernando Noronha, nosso venerado santuário ecológico do Atlântico.

Mas como fazer esse controle sem ferir o princípio democrático do direito de ir-e-vir? O problema é que a maioria só “vem”. E fica. Vai ficando. Nos últimos 20 anos o aumento da população ilhoa tem beirado a delirante taxa de 3% a 4% ao ano, algo próximo ao que experimentou Xangai, na China.

Em 1970 Floripa era uma adolescente de 140mil habitantes. Hoje, oficialmente, tem 500 mil. Mas, considerada a região da Grande Floripa, Ilha e Continente, aí incluídos os municípios geminados de urbanização contígua, como São José, Biguaçu e Palhoça, essa conta sobe fácil para perto do milhão de viventes.

Na Rússia dos Czares as pessoas necessitavam de autorização das autoridades para deixar uma cidade e entrar em outra. A torturada Sonya, criatura de Dostoievski em “Crime e Castigo”, queria acompanhar seu amado Ródia Raskolnikof à desolada Omsk, na Sibéria, onde o assassino cumpriria sua pena. Precisou de um “visto especial” para deixar São Petersburgo.

A Lara, de Pasternak, também sofreu com os “passaportes” do comando bolchevique, que manteve os rigores do “ancién” regime no “ir-e-vir” entre cidades. Não se quer para Floripa a mesma ditadura das estepes russas, o mesmo rigor da corte czarista ou dos comandos de Lênin.

Mas, dificilmente o cineasta David Lean, autor do “Jivago” no cinema, conseguiria reproduzir na Ilha as cenas tão ecológicas de “A Filha de Ryan”, um de seus “clássicos” mais belos, com Robert Mitchum, Alan Bates e Sarah Miles. O cenário pôde mostrar os verdejantes campos da Irlanda e suas falésias à beira-mar – as encostas ainda virgens de empreendimentos imobiliários.

Em Floripa, a “cupidez-trepadeira” da construção civil já sobe os morros e devasta o interior da Ilha, ao som de uma delirante valsa, durante anos orquestrada pelo Legislativo Municipal, de cuja incontrolável partitura saem os novos “zoneamentos” e “gabaritos”, o comércio imobiliário invadindo o território antes privativo dos siris, tatuíras ou andorinhas..

Na impossibilidade de restaurarmos uma “disciplina russa”, exigindo passaportes dos adventícios, talvez fosse o caso de propor aos próprios visitantes uma “alternância de temporada”. Quem veio este ano, tenha a santa paciência- e nos dê uma trégua no ano que vem…Na verdade, Floripa está como Paris depois da guerra.

Passado o memorável “Dia da Libertação”, o inesquecível 25 de agosto de1944, a cidade-luz nunca mais foi a mesma. A libertação foi a sua escravidão. Seu povo subjugado, não pelos exércitos de Hitler, mas pelas tropas de japoneses-fotógrafos e velhinhas americanas de chapéus floridos, matriculadas no seu perseverante turismo inquisidor

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