Marcos Cardoso

A sociedade da Grande Florianópolis, os eventos culturais e as tradições da região analisadas pelo experiente jornalista Marcos Cardoso.


Saiba como os gregos celebram a Páscoa, para eles, a principal data religiosa

Descendente dos imigrantes que formaram na Ilha de Santa Catarina a primeira colônia grega no Brasil, Mô Kotzias conta como a comunidade helênica mantém as tradições

Bisneta e neta de gregos que saíram da ilha de Kastellorizon no século 19 para constituir na antiga Desterro a primeira colônia grega no Brasil, Mô Kotzias mantém as tradições familiares não só no comércio, atividade na qual aqueles imigrantes e seus descendentes prosperaram, mas também as religiosas e culturais.

Na Semana Santa, a família segue a liturgia da Igreja Ortodoxa Grega de São Nicolau, cuja sede na Capital catarinense foi construída na rua Tenente Silveira, entre 1936 e 1963, como também os costumes que culminam com festa no Domingo de Páscoa, marcada pelos pratos típicos e pela simbologia.

Mô Kotzias, descendente das primeiras famílias gregas que formaram colônia em Florianópolis – Foto: Darline Santos/Divulgação/NDMô Kotzias, descendente das primeiras famílias gregas que formaram colônia em Florianópolis – Foto: Darline Santos/Divulgação/ND

Quando os teus antepassados chegaram à Ilha de Santa Catarina?

Meu bisavô, João Kotzias, que era engenheiro naval, e meu avô, Anastácio Kotzias, desembarcaram em Santa Catarina no ano de 1885 com o objetivo de propiciar as condições para a mudança da família para o Brasil.

Uma vez instalados, meu avô retornou à Kastellorizon, onde se casou com sua conterrânea Moscopiá Aghapito e vieram morar aqui. Após alguns anos de casados, em 1910, meus avós inauguraram a Casa Kotzias [atual Kotzias Tecidos].

O negócio sempre foi familiar, e o primogênito de Anastácio e Moscopiá foi meu pai, Miguel Anastácio Kotzias, que deu continuidade à empresa ao lado de sua esposa, Eudoquia Fermanes Kotzias.

Minha mãe também é filha de gregos. Seus pais foram Pantaleão Miguel Fermanes e Anna Atherino Comninos, ambos de Kastellorizon também. Após casarem, abriram um café na praça 15 de Novembro.

Por que a Páscoa é a data mais importante do calendário religioso grego, mais celebrada até que o Natal?

Porque marca a maior prova de amor que a humanidade recebeu de Jesus. Foi quando ele enfrentou a morte para provar a força da fé a todos nós. O Natal possui uma mensagem de união e esperança, mas é na Páscoa que toda comunidade revive os últimos passos de Jesus e aguarda, com fé, o milagre da ressureição.

A liturgia da nossa Igreja de São Nicolau estende-se por toda a Quaresma, sendo que, na Semana Santa, ocorrem missas todos os dias. Na Sexta-feira Santa, há uma procissão do sepultamento de Cristo com todos os fiéis que, segurando velas acesas, caminham ao redor da Igreja. Pessoalmente, é o momento que considero mais lindo.

A tua família sempre manteve os rituais típicos gregos da Semana Santa?

Sim, sempre tivemos as nossas tradições, que passamos de geração em geração. Especialmente a culinária, que nos reúne para cozinhar as receitas gregas da família. Até a pandemia, frequentávamos a igreja para celebrar os rituais religiosos e estarmos em sintonia com o significado da data. Uma coisa é certa: domingo de Páscoa sempre estamos juntos.

Mô Kotzias à mesa com os pais, Eudoquia Fermanes Kotzias e Miguel Anastácio Kotzias, e demais familiares – Foto: Divulgação/NDMô Kotzias à mesa com os pais, Eudoquia Fermanes Kotzias e Miguel Anastácio Kotzias, e demais familiares – Foto: Divulgação/ND

Na Igreja Ortodoxa de Florianópolis as celebrações são como na Grécia?

Sim. Mas, com certeza, existem diferenças regionais. A nossa missa grega tenta seguir ao máximo os antigos rituais, inclusive com entonação dos cantos em grego e sem adoração de imagens de santos.

Igreja Ortodoxa Grega de São Nicolau, construída entre 1936 e 1963, em Florianópolis – Foto: Reprodução/Ecclesia.org.br/NDIgreja Ortodoxa Grega de São Nicolau, construída entre 1936 e 1963, em Florianópolis – Foto: Reprodução/Ecclesia.org.br/ND

Na Sexta-feira da Paixão os gregos também não comem peixe, ovos e derivados de leite?

Sim, especialmente na Páscoa ortodoxa, os gregos buscam até mesmo ficar em jejum da Sexta-feira Santa até o Domingo de Ramos. Atualmente, a minha família fica apenas sem carne e seus derivados na Sexta-feira Santa.

Por que um jejum tão longo?

A Igreja Ortodoxa grega recomenda o jejum em toda a Semana Santa. Esse período possui dois propósitos: o físico e o espiritual. Impor o jejum ao corpo demonstra o autocontrole e a disciplina do fiel. O interessante é que a religião ortodoxa grega encara o jejum de uma forma positiva, com grande satisfação pela demonstração de autocontrole e a fé.

Pães e biscoitos são tradição na mesa de Páscoa.

Na minha família nos reunimos para cozinhar as koulourakias (κουλουράκια), que são biscoitos amanteigados, finalizados com uma camada de gema de ovo antes de serem assados. Eles são consumidos no Domingo de Páscoa. A parte divertida é quando as gerações se reúnem para fazer o formato de trança na massa do doce, antes do cozimento. Fica uma competição para ver quem faz a trança mais bonita.

Koulourakias, tradicionais biscoitos gregos – Foto: Divulgação/NDKoulourakias, tradicionais biscoitos gregos – Foto: Divulgação/ND

O que significam os ovos cozidos pintados de vermelho?

Os ovos vermelhos também estão sempre em nossas comemorações. Eles representam a renovação da vida, e sua cor o sangue de Cristo. No Domingo de Páscoa, os fiéis batem ovos uns contra os outros para levar a diante a mensagem de vitória sobre a morte enquanto dizem “Χριστός ανέστη” (Cristo ressuscitou) e recebem como resposta “αληθώς ανέστη” (verdadeiramente ressuscitou).

Os tradicionais ovos cozidos pintados de vermelho nas comemorações gregas – Foto: Reprodução/desbraveomundo.com.br/NDOs tradicionais ovos cozidos pintados de vermelho nas comemorações gregas – Foto: Reprodução/desbraveomundo.com.br/ND

Por que o carneiro é habitual na mesa de Páscoa, uma dia de festa para os gregos?

A Igreja Ortodoxa grega adota regras muito antigas e preza pela continuidade delas da forma mais literal possível. O consumo do carneiro no Domingo de Páscoa representa o Cordeiro de Deus, retratado no Antigo Testamento. Atualmente, continuamos seguindo esta saborosa tradição.

Pratos à base de carneiro são típicos na Páscoa dos gregos – Foto: Reprodução/packingmysui.com/NDPratos à base de carneiro são típicos na Páscoa dos gregos – Foto: Reprodução/packingmysui.com/ND

A Páscoa nas igrejas ortodoxa e católica ocorrem em diferentes épocas.

A Igreja Ortodoxa grega continua seguindo o calendário Juliano, que utiliza a astronomia para definir a data da Páscoa, de acordo com o Concílio de Niceia, do ano 325. Assim, raramente o Domingo de Páscoa ortodoxo coincide com o católico. A próxima data em que coincidirão será em 2025, no domingo de 20 de abril.

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