Marcos Cardoso

marcos.cardoso@ndmais.com.br A sociedade da Grande Florianópolis, os eventos culturais e as tradições da região analisadas pelo experiente jornalista Marcos Cardoso.


Se o Dia é das Bruxas, na Ilha o Outubro é Místico

Roteirista, professora universitária, pesquisadora e produtora cultural, Bebel Orofino fala sobre educação, cultura, comunicação e o movimento que ajudou a criar para valorizar a mitologia da Capital

Manezinha autêntica, encantada pela cultura e costumes da Ilha de Santa Catarina, Bebel Orofino tem raízes entranhadas nas profundezas desta terra. “Quem não ama a Ilha? Já nasci apaixonada”.

Desde a infância, participou de tudo que moldou a identidade de Florianópolis, do boi de mamão às festas da Tainha e do Divino Espírito Santo. “E hoje só uso Floripa mesmo porque, como sou frankliniana, recuso o atual nome da nossa cidade”, explica com devoção ao patrono da cultura da Capital, Franklin Cascaes.

A memória afetiva a acompanha fortemente pela vida: depois de cursar comunicação social – jornalismo na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), lecionar como professora de mestrado e doutorado, paralelamente à infinita pesquisa em comunicação, ela voltou à produção cultural.

Em 2019, junto de outras ilustres cabeças pensantes, participou da concepção do Grande Baile Místico, movimento de valorização da mitologia local, que marcou a cidade a ponto de originar uma lei instituindo oficialmente no calendário cultural do município o Outubro Místico.

A pandemia freou a continuidade e atrasou o processo de expansão do movimento para o interior da Ilha e o Continente. Voltará com força em 2022, mas não deixará de atuar neste ano, dentro da segunda edição da Feira de Cascaes, no dia 31 de outubro.

O cantor, pandorgueiro e artista plástico Valdir Agostinho, com a fantasia “Bruxomaneagostinho” e a coordenadora de produção do Grande Baile Místico, Bebel Orofino, em 2019 – Foto: Guilherme Schaefer/Divulgação/NDO cantor, pandorgueiro e artista plástico Valdir Agostinho, com a fantasia “Bruxomaneagostinho” e a coordenadora de produção do Grande Baile Místico, Bebel Orofino, em 2019 – Foto: Guilherme Schaefer/Divulgação/ND

Em 4 de outubro de 2019, ocorreu pelas ruas da Capital o 1° Grande Baile Místico, um desfile.  O que significava?

Tudo começou com a passagem dos 125 anos da Revolução Federalista de 1894, quando aconteceram eventos traumáticos, como o massacre de Anhatomirim e a mudança do nome de Nossa Senhora do Desterro para Florianópolis. Então, um grupo de bruxas e bruxos malucos se reuniu sob a lua cheia e decidiu agir para que a data, tão importante para a cidade e sua história, não passasse em branco. O Baile Místico surgiu como uma Procissão das Almas, com o cortejo Berro pelo Desterro: Fantasmas de Anhatomirim.

Quem participou da iniciativa no primeiro momento?

A sede do evento é o Mesc (Museu da Escola Catarinense), da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), que tem a direção de Sandra Makowiecky, e a Associação FloripAmanhã, com Zena Becker, faz a produção executiva. O argumento é de Laudelino Sardá e a direção foi de Vera Collaço e Sandra Meyer Nunes. A Sandra Makowiecky acolheu o evento no Mesc e juntas pensamos em fechar com um baile, foi quando ela sugeriu o nome Baile Místico, afinal era o mês de outubro e as bruxas estrangeiras estão chegando com o Halloween.

O baile é inspirado na lenda “Festa de Bruxas em Itaguaçu”, de Gelci José Coelho (Peninha), e “Baile de Bruxas em uma Tarrafa de Pescaria”, de Franklin Cascaes. Afinal, temos as nossas bruxas. Somos a única cidade do Brasil com um acervo de lendas grandioso. Nada mais justo que os nossos personagens míticos sejam os anfitriões dessa festa. Com o repertório que temos! Imagina?

Após os debates uma multidão se reuniu no pátio externo do Mesc, onde havia feira gastronômica e de artesanato culminando com o grande desfile alegórico pelas ruas do centro histórico. Foi impactante. Mágico mesmo. Uma celebração incrível que contou com a colaboração de muita gente: Sandra Ramalho, Sílvia Lenzi, Zena Becker, Roseli Pereira, Roberto Costa e muitos artistas, como Jone Cezar de Araújo, Valdir Agostinho, Denise de Castro, Alessandra Gutierrez, Luiza Filippo e ainda Lúcia Prazeres, Fernando Guedert, Márcia Teschner, Nando Pereira Oliveira, Rodolfo Kowalsky, Nado Garofallis e muita gente.

“Nossa mitologia é rica demais para que seja desprezada ou esquecida”

Então, foi lançado o Outubro Místico…

Sim, o Grande Baile Místico foi tão lindo que desencadeou a aprovação de um projeto de lei que institui o Outubro Místico como o mês da magia na Ilha, inspirado no rico acervo de lendas do nosso imaginário popular e que foi tão fartamente retratado por nossos artistas.

O Outubro Místico é uma grande novidade, uma chama da esperança. É um movimento, e isso é maravilhoso. Esse é um movimento de afirmação da identidade local, que reverencia a memória coletiva, a história da Ilha, em homenagem à beleza da sua paisagem – o seu patrimônio natural – que é a sua verdadeira magia.

O Outubro Místico deve desencadear eventos e bailinhos místicos em todas as comunidades, ativando a economia criativa com ênfase na cultura local. Sim, ele veio para ficar. Vamos soltar as bruxas! E como o Halloween está entrando, então nós acreditamos que as nossas bruxas devam ser grandes anfitriãs, nada mais justo.

Nossas histórias são incríveis. Nossas bruxas são muito engraçadas. E o elenco de seres fantásticos é enorme.  Nossa mitologia é rica demais para que seja desprezada ou esquecida. Temos que valorizar as lendas de bruxas, boitatás, lobisomens, ondinas, fantasmas, marcianos, seres cósmicos e siderais que compõem um acervo único e maravilhoso.

Que importância a lei imprime ao movimento que agora integra o calendário oficial do município?

A lei foi aprovada em maio de 2021. Assim que acabar a pandemia, poderemos projetar as atividades para todas as comunidades. Nós acreditamos que este será um mês de reencantamento a partir das narrativas populares da Ilha. Ele veio para ficar.

Esse movimento surge em um momento de retomada da cultura local, pois nas duas últimas décadas a Ilha sofreu mudanças estruturais muito intensas, com um crescimento populacional vertiginoso, perda da força cultural na indústria de comunicação e cultura, gestões públicas problemáticas.

Hoje há uma retomada geral em relação ao patrimônio natural e cultural da Ilha. O Outubro Místico veio se aliar às iniciativas que já acontecem e trabalhar com a convergência de propostas de valorização da cultura e meio ambiente, criando oportunidades para a valorização da cultura local.

É um movimento de afirmação do amor de ser e estar ilhéu, que vem da voz dos nativos e adotivos. De todas as pessoas que amam a Ilha e desejam o melhor para ela. É isso que nos move.

Teremos programação em 2021?

A ideia central do Outubro Místico é a valorização da cultura, e para isso todo ano haverá um artista homenageado. Neste ano é o nosso grande Meyer Filho, que criou mitologia sideral com seres cósmicos, mágicos e com muitos marcianos.

Como não foi possível realizar o cortejo em virtude da pandemia, o coletivo decidiu manter a homenagem com a produção de um painel, uma arte de rua na parede leste do Edifício Comasa, na rua Felipe Schmidt. A pintura será de Rodrigo Rizo (o mesmo autor do mural de Cruz e Sousa) e a produção é do Victor Moraes von der Heyde.

Mas a Fundação Franklin Cascaes, como tem estrutura para fazer evento-teste, vai realizar a Feira de Cascaes – Balaio Cultural Outubro Místico no dia 31 de outubro, na praça 15 de Novembro. Estamos colaborando com a proposta. Acredito que será um sucesso.

A nossa participação será com uma linda exposição de bordados para Meyer Filho, “Linhas do Corpo – Projetos Bordados”, quando mais de 40 artistas bordadeiras apresentarão obras inspiradas no universo mito-mágico do nosso querido artista.

Bebel Orofino, coordenadora de produção do Grande Baile Místico – Foto: Guilherme Schaefer/Divulgação/NDBebel Orofino, coordenadora de produção do Grande Baile Místico – Foto: Guilherme Schaefer/Divulgação/ND

Descendes de famílias tradicionais da região da Capital?

Sim, minha história é bem local. Minha avó materna nasceu na praia do Forte.  A família Alves veio junto com as levas de açorianos, no caso dela, para dar suporte às guarnições do Forte de São José da Ponta Grossa.

Meu avô materno é da Enseada de Brito [Palhoça, Grande Florianópolis]. Meu bisavô saía do Ribeirão da Ilha para paquerar com minha avó, cruzando a Baía Sul de canoa. Imagina. Quem nasce em um ambiente assim só pode amar as histórias locais.

Já o lado Orofino é italiano e meu avô veio da Sicília como imigrante. Este lado da família tem uma história incrível, uma verdadeira saga. Meu avô foi o gerente do hotel La Porta, no Centro. Meu pai, Miguel, foi um humanitário incrível e vítima do acidente da Transbrasil.

Como aflorou o amor que tens pela cultura, pelos valores, pela memória, pela identidade da Capital catarinense? Tua família instigava isto?

“Oh, minha amada Ilha de Santa Catarina!”, chora o Franklin Cascaes de amor.  Acho que nasci com uma boa escuta e sensibilidade. Afinal, a beleza da Ilha é tão evidente e muito repetida por nossos poetas, pintores, escritores.

Quem não ama a Ilha? Custo a crer. Eu só faço parte de um grande coro. E talvez tenha dedicado tempo para isso, como muitos outros. Talvez tenha delimitado o foco para a cultura e mídia, não sei…

Mas, na família sim. Meu vô Tita era um grande contador de histórias e cuidava de nós na praia de Itaguaçu, nos anos 1960. Cresci neste cenário inebriante e ouvindo histórias, sempre, de todos os lados. Me apaixonei perdidamente também. Já nasci apaixonada.

Dos costumes locais, na tua juventude, o que te encantava mais, o que te arrebatava a ponto de movê-la a participar?

Tudo! Na minha infância o boi de mamão era um folguedo espontâneo, e sempre descia do Morro do Céu em dezembro. Era uma festa mágica e gravou imagens eternas na memória. O Urso Preto atrás da gente, a Maricota dando um tapão no tio Zeca, a Bernunça dando cria ao Jaraguá na frente da minha casa. As vindas do boi eram contadas e recontadas e guardadas até que um dia… o boi não desceu mais… Deixou de ser espontâneo e passou a ser institucional.

Além de ter vivido a experiência original de como era o boi, tive conexão forte com as Festas do Divino, pois meu pai foi provedor da Irmandade do Divino Espírito Santo e frequentávamos as barraquinhas das festas ali na praça da Dona Tilinha [praça Getúlio Vargas]. Minha primeira memória de infância é de quando fui nessa festa, com três anos de idade, e meu pai ganhou um macaquinho na roda da fortuna e me deu.

No Centro, onde eu nasci, essa cultura açoriana se transformou mais rápido. Mas a gente na juventude não perdia uma Festa da Tainha, era bárbaro curtir esse trânsito da cidade para o interior da Ilha. Era demais. A Ilha sempre mesclou o altamente tradicional e bucólico com os cosmopolita. Até hoje! Isso também é um traço da sua magia.

Na tua infância/adolescência, como era abordada a cultura popular de Florianópolis na escola? Era suficiente?

Até hoje o conteúdo curricular das disciplinas de história e geografia do 3º ano do Ensino Fundamental é o município. Então, estudei sim, como toda criança.  E tenho o meu caderno até hoje. Minha professora, Ana Maria Mendonça, é inesquecível, no Colégio Coração de Jesus. Mas só estudei ali. Ainda hoje é assim. É muito pouco! Em outros estados, como no Rio Grande do Sul, a ênfase é muito maior, por isso a diferença na afirmação da identidade.

Mas isso tem a ver com a filosofia da educação que se propõe.  Cada vez mais a educação precisa e deve focar no local onde se vive pois é onde temos condições de agir. Em todas as disciplinas. E fazer despertar a consciência sobre o patrimônio natural, histórico, cultural e as demandas locais para a sustentabilidade e qualidade de vida. Essa corrente se chama pragmatismo.  Tem que ser por aí. Mas, sem aprofundar no tema da filosofia, a educação só faz sentido se a reflexão for do local ao global.

Como se deu a tua aproximação com o universo de Franklin Cascaes?

Foi bem cedo. Eu tinha 16 anos e entrevistei o professor Cascaes para um trabalho junto aos meus alunos de inglês, pois o método ensinava o idioma a partir do conhecimento local, muito revolucionário para a época. E fomos, eu e as crianças, entrevistar o Cascaes. Foi uma revelação.

“Eu, que trabalhei a fundo na obra do Cascaes, tenho dois filhos que nunca viram uma exposição desse artista”

O acervo de desenhos, esculturas e artesanato de Cascaes, pertencente ao Museu da UFSC, não é exposto ao público de forma permanente há mais de 30 anos. Que prejuízo traz à sociedade?

Uma loucura. A gente não pode mais aceitar isso. A obra do Franklin Cascaes foi doada à cidade sob a guarda da UFSC. Mas ao longo dos anos, no campo cultural, a UFSC foi deixando de ter vínculos com a cidade. Então, é preciso fazer um acordo para que isso seja exposto em local apropriado para que a cidade receba de volta o legado que Cascaes deixou. Ele nunca vendeu uma peça sequer. A proposta dele foi deixar esse acervo inteiro, em conjunto, para que pudesse contar para as futuras gerações como foi a nossa Ilha em tempos passados.

É a maior pesquisa etnográfica já realizada aqui e traz um retrato da cultura local sob todos os aspectos, desde o trabalho, a religiosidade, as crenças, medicina popular, brincadeiras infantis, folguedos. É uma preciosidade de valor inestimável e está escondida. Eu, que trabalhei a fundo na obra do Cascaes, tenho dois filhos que nunca viram uma exposição desse artista. Já viram outros artistas, mas nunca o Cascaes. É inaceitável para a cidade esta situação.  Inaceitável! Mas vamos conseguir mudar isso! Juntos somos fortes.

Além do Franklin, que outras personalidades contribuíram de forma tão expressiva e volumosa no garimpo da genuína cultura da Ilha?

O nosso acervo é enorme!!! Não estamos fazendo nada em comparação ao que outros já fizeram. São obras monumentais! O Cascaes é impressionante. São mais de 3.000 esculturas, 400 desenhos e muitos escritos. Mas a produção prolífica é a regra. O acervo do padre João Alfredo Rohr guarda mais de 300.000 peças e está escondido. Os escritos de Oswaldo Rodrigues Cabral assustam pela quantidade.

De um modo geral, como conta a Sandra Makowiecky, nossos artistas, encantados com a beleza do lugar, tentaram guardar a paisagem local em suas obras. Então, é muita gente: Martinho de Haro, Rodrigo de Haro, Hassis, Meyer Filho, Janga, Jandira, Max Moura, Tercília, Tércio da Gama. Na poesia, Cruz e Sousa, Virgílio Várzea e na literatura, música, teatro. É muita produção incrível. Mas os espaços culturais não são prioridade na Ilha da Magia… que loucura!  Como grita o Peninha: “Precisamos urgentemente de um Memorial da Ilha de Santa Catarina!”.

Bebel Orofino é roteirista, professora universitária, pesquisadora e produtora cultural – Foto: Renata Massoti/Divulgação/NDBebel Orofino é roteirista, professora universitária, pesquisadora e produtora cultural – Foto: Renata Massoti/Divulgação/ND

Entraste na escola quando menina e nunca mais deixaste a sala de aula, até se tornar professora-doutora. Teu apetite pelo conhecimento é insaciável?

Como todo pesquisador profissional, a curiosidade é inesgotável, é o que move a profissão. E o necessário sentimento de humildade, que precisa ser a regra pois o conhecimento é um universo, ninguém sabe tudo. Sou uma pesquisadora profissional, então, as perguntas nunca param. Só quando eu partir dessa para outra melhor.

Tua primeira formação superior foi a graduação em comunicação social – jornalismo, pela UFSC. Chegaste a exercer a profissão?

Tenho um trauma quase incurável com o jornalismo da UFSC. Mas hoje a cura está quase completa porque meus terapeutas são bons (risos). Eu sempre fui do audiovisual, então minha presença no mercado de trabalho sempre foi nas produtoras de vídeo. Sou roteirista, e não jornalista. Esse caminho mostrou todo um lado do mercado que o jornalismo da UFSC não ensina. E pior! Os jornalistas da UFSC fecharam o Departamento de Comunicação Social, alegando que a área de mídia e comunicação não existe.

Foi a pior e maior briga de departamento que presenciei na minha vida acadêmica. Você pode ver que não é possível cursar publicidade na UFSC. E como você faz jornal sem anúncio? Perdemos muito espaço nas áreas de comunicação e cultura, comunicação e educação, mídia e infâncias, editoração, rádio, cinema e TV (que são as habilitações em comunicação).

Teu trabalho de conclusão de curso de comunicação na UFSC, em 1986, foi um videodocumentário sobre Cascaes. O que descobriste de mais precioso ao executá-lo?

Quando me formei em jornalismo, realizei um videodocumentário sobre a vida e obra do Cascaes. Para isso, mergulhei na obra e pesquisei durante um ano inteiro. Li e vasculhei a obra toda. Ela faz parte integral da minha formação. Quando isso aconteceu, o Cascaes já tinha falecido. Então, junto com a obra, conheci a pessoa mais generosa e encantadora da UFSC, o Peninha. Me apaixonei por tudo, pela obra e pela conduta do Peninha, que era contrária a quase tudo que eu vivia na universidade e suas disputas internas, pois ele sempre dizia: “Nunca sonegue uma informação” e – como faz com todas as pessoas – ele abriu os arquivos e ajudou muito. Ali eu me tornei sua amiga e parceira de trabalho, até hoje.

A extinta Rede Manchete produziu a minissérie “Ilha das Bruxas” a partir de um argumento que escreveste. Como aconteceu?

Faz muito tempo. Foi há 30 anos exatamente: 1991. A Manchete estava com uma proposta de mostrar “o Brasil que o Brasil não conhece”. E eu estava justamente trabalhando na catalogação da obra do Cascaes, como assistente do Peninha. Como gosto de redação, tomei a iniciativa de escrever o argumento e levar até a Rede Manchete para oferecer como tema para uma narrativa. Foi a Jacqueline Sperandio que abriu a porta da Manchete para eu entrar. Minha amiga querida! Eles toparam fazer, e saiu uma minissérie em 24 capítulos, rodada nos Ratones. Eu gostei muito da experiência e foi a primeira iniciativa de teledramaturgia na Ilha.

“Hoje, mais do que nunca, precisamos de muita mídia-educação. Com a entrada das redes sociais e fake news o tema da mídia se tornou primordial”

Naquela época, não era comum emissoras gravarem fora do eixo Rio-São Paulo, por vezes, na Bahia. Foi um marco na época a TV começar a “descobrir” o Brasil?

Sim, acho que o Jayme Monjardim estava com esta proposta temática, de mostrar outras regiões do Brasil na tela da Rede Manchete, após o sucesso da novela “Pantanal”. Eu percebi a brecha e tentei entrar. Consegui (risos). Hoje estou organizando o material em um canal no YouTube e espero poder disponibilizar tudo isso: a minissérie inteira, a “Catharina, uma Ópera da Ilha”, que também escrevi o roteiro, e os outros trabalhos que tive o prazer de participar junto a equipes maravilhosas e inesquecíveis – sim, porque nada se faz sozinho e eu sempre tive muita sorte de fazer parte de equipes incríveis.  Muita sorte!  Sou muito grata e agradecida a tudo isso e a essas pessoas. Viva a magia da Ilha!

Transitas num campo em que a comunicação e a educação se encontram, se entremeiam e se alicerçam. No Brasil atual, as áreas se complementam de maneira ideal?

A mídia educa! Para o bem e para o mal. Esta relação está dada! É inexorável. Na Inglaterra, onde fiz parte do meu doutorado, essa conexão é vista como inseparável. A BBC, por exemplo, foi criada como uma rede estatal cujos princípios se fundam nesta potência da mídia. Sim, meu sonho de menina sempre foi cooperar com a TV Educativa de Santa Catarina que, em virtude desse atraso provocado pelo pessoal do jornalismo da UFSC, não aconteceu. Visão estreita, bitolada.

Hoje, mais do que nunca, nós precisamos de muita mídia-educação, educomunicação, como queriam denominar. Com a entrada das redes sociais e fake news o tema da mídia se tornou primordial. Mas, se depender da UFSC, isso só vai avançar pelo Departamento de Educação, porque foi abolido o debate sobre a comunicação social em nossa universidade federal. Uma loucura.

Por que a mudança para São Paulo?

Comecei a ir para lá com o doutorado na ECA (Escola de Comunicação e Artes) da USP (Universidade de São Paulo). Daí os trabalhos começaram a surgir. Quando acabei o doutorado em comunicação, a UFSC fechou o Departamento e fiquei sem trabalho aqui. Tentei outros departamentos, como o de Moda da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), mas meu campo é a comunicação. Meus pares no CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) estão nessa área, então, resolvi me mudar de vez para São Paulo, onde seria possível trabalhar em um Programa de Pós-Gradução em Comunicação, um PPGCOM.

Existem mais de 50 programas desses no Brasil, mas aqui é só jornalismo. Um atraso. Me mudei para lá por causa disso, faz 15 anos, definitivamente. Nos últimos três anos tentei voltar e só consegui espaço no PPG na área de letras, em Tubarão (SC). Por motivos pessoais, não pude morar em Tubarão. Deixei a universidade e voltei a trabalhar como free-lancer em Floripa. Estou um pouco aqui e um pouco em São Paulo. Modo pendular ativado (risos).

O que estás fazendo profissionalmente agora?

Voltei para a produção cultural. Assim, posso trabalhar do local onde estiver. Com a pandemia, escolhi ficar na Ilha. Hoje criei a Ondina Editora e estou trabalhando com produção de livros. O próximo trabalho editorial é o livro “Lendas da Ilha de Santa Catarina”, em parceria com o Peninha. Esse livro deve trazer apoio ao debate sobre a mitologia da Ilha e vai ajudar nas futuras iniciativas do Outubro Místico.

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