Sem aporte financeiro, Ecomuseu do Ribeirão da Ilha pode fechar as portas

Pesquisador e sociólogo Nereu do Vale Pereira, 91 anos, teme pelo futuro do acervo que chega a 3.600 peças

Criado em 1º de julho de 1971 pelo professor e pesquisador Nereu do Vale Pereira com apoio da comunidade local, o Ecomuseu do Ribeirão da Ilha, pode fechar suas portas em breve. O espaço abriga cerca de 3,6 mil peças que retratam o modo de vida e de produção dos primeiros açorianos que aportaram na Ilha de Santa Catarina a partir de 1748 e é mantido com recursos próprios pelo pesquisador há muitos anos.

Nereu do Vale Pereira – Foto Flavio Tin/ND

O Ecomuseu é formado por uma sala de recepção, pesquisa e estudos com farto acervo bibliográfico sobre a história de Florianópolis, dos Açores e de Santa Catarina; a casa do museu; dois engenhos (de farinha e de cana de açúcar) e uma pousada com 20 quartos. Mas a receita da pousada, da ordem de R$ 3 mil ao mês, não cobre os custos de manutenção do museu, que podem chegar a R$ 15 mil.

Segundo o pesquisador, o mínimo necessário para continuar mantendo o museu em funcionamento é de R$ 10 mil mensais. “O museu é uma obra minha, que existe há quase meio século. Estou com 91 anos e não tenho mais disponibilidade física para mantê-lo em operação, nem condições financeiras para arcar com esse custo”, explica. “E a prefeitura ainda nos taxa como se fôssemos uma atividade comercial visando lucro, então nossa receita não é suficiente”, afirma.

Os custos envolvem gastos com pessoal, limpeza e manutenção de peças do museu. Nereu conta que já dispensou o único funcionário que o ajudava, mas ainda mantém uma estagiária do curso de museologia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e uma museóloga para a qual paga uma taxa de responsabilidade técnica, exigência legal para esse tipo de estabelecimento.

O professor deve se reunir no dia 1º de maio com os demais sócios (são 11 integrantes da Associação Ecomuseu do Ribeirão da Ilha) em mais uma tentativa de angariar recursos para que o trabalho possa continuar. “Os sócios contribuem, mas a receita não chega a R$ 3 mil. Também não vejo muita alternativa para aportes públicos, porque as legislações ficaram mais rígidas e já não permitem que as prefeituras repassem verbas mensais a instituições não governamentais. Já fiz campanhas anteriores junto a comunidade, mas não surtiu efeito”, revela o pesquisador.

Com esse panorama, uma das poucas saídas talvez seja apelar para a iniciativa privada. A exemplo do que ocorre com várias praças públicas na Capital, a adoção do museu pode ser sua única salvação.

Ecomuseu – Foto Flavio Tin/ND

Importância cultural

Instalado numa propriedade à beira da Baía Sul, o casarão construído em 1793 foi moradia de mais de 30 famílias até as últimas décadas do século 20 e hoje é a principal sede do Ecomuseu, que preserva o modo como viviam os imigrantes açorianos colonizadores da Ilha de Santa Catarina. Cerca de seis mil pessoas vindas das ilhas dos Açores chegaram ao litoral catarinense entre 1748 e 1756.

A casa foi restaurada em 1921 pelo último proprietário antes de Nereu – Igínio Martins dos Santos, mantendo o desenho original, mas com material mais moderno, substituindo paredes feitas de pedra e óleo de baleia por tijolos e argamassa. “Mas o formato e a divisão dos cômodos permaneceu igual, com uma sala de estar, alcovas (quartos sem janelas) e área de serviços. Não havia banheiros, as necessidades eram feitas atrás das árvores e o banho era semanal, geralmente aos sábados, em bacias dispostas no chão, ao lado do fogão a lenha”, diz o estudioso.

Nereu do Vale Pereira adquiriu a propriedade em 1970, de Isaura Martins dos Santos – viúva de Igínio. Mas seu primeiro morador foi o açoriano José Lino Vieira que aportou no Ribeirão junto com outros imigrantes do arquipélago português no século 18. Supõe-se, inclusive, que o baú exposto no museu tenha pertencido a Vieira.

Entre as peças de maior destaque está um presépio datado de 1813, primeira peça do museu, construído pela família de Francisco Tomás de Souza e uma de suas escravas. A peça mistura elementos da fé católica e da crença africana (candomblé), simbolizando o sincretismo religioso. Foi feito com elementos disponíveis na época, como conchas, ramos de algodão e escamas de peixe.

Um oratório trazido dos Açores por volta de 1750 e uma mó (pedra de moinho) feita de rocha vulcânica esculpida na Ilha do Pico em 1730, que fazia parte de um moinho manual de farinha de trigo, integram o conjunto mais antigo do acervo. O espaço também abriga relíquias adquiridas de outras famílias antigas do Ribeirão, como retratos, utensílios e um gramofone de 1900.

Ecomuseu – Foto Flavio Tin/ND

Conceito de ecomuseu

Na história dos museus, a mais recente classificação de ecomuseu remonta há 40 anos, em Portugal. Por ser uma tipologia nova ainda não há uma conceituação consolidada e seu emprego gera controvérsias e resistências.

No entanto, toma-se como base que o termo engloba tanto a natureza na qual está inserido o acervo em exposição quanto a ecologia humana que a formou. No caso do Ribeirão, incluiria as pessoas que fizeram parte e até hoje preservam a história local.

O Ribeirão da Ilha foi colonizado por 60 famílias (cerca de 240 pessoas), e muitos dos seus descendentes vivem lá até hoje. O casarão era uma propriedade rural, com engenho de farinha de mandioca (movido a boi ou manual) e de cana de açúcar (movido por dois bois), residência, quintal e plantações. As roças eram feitas nos morros, mas foram proibidas mais tarde, por questões ambientais de preservação da mata.

Em exposição, estão objetos da época, instalações e utensílios diversos, boa parte deles restaurados e funcionando. Todos os pertences reunidos ali contam parte da história do que se passou a partir da chegada dos europeus na Ilha de Santa Catarina. Trata-se de um memorial físico, mas também cultural, de valor inestimável, cujo destino, infelizmente, é incerto.

Emocionado, Nereu desabafa: “meu desejo é pendurar as chuteiras, porque não tenho mais condições físicas nem emocionais para seguir com esse trabalho, mas isso aqui é um relicário do que foi a base da cultura e colonização da Ilha de Santa Catarina, fruto de uma pesquisa que iniciei em 1948”.

Serviço
O quê: Ecomuseu do Ribeirão da Ilha
Onde: Rodovia Baldicero Filomeno, 10.106 – Ribeirão da Ilha
Quando: de terça a domingo, das 10h às 18h, com visitas agendadas previamente por telefone
Contato: (48) 3237-8148

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