Sem festa: Mercado Público de Florianópolis celebra 122 anos

Durante esse período, Mercado Público passou por expansões, reformas, adequações, incêndios e, mais recentemente, uma pandemia

Entre as tantas construções históricas no Centro de Florianópolis, existe uma que há mais de cem anos se mantém viva no cotidiano dos manezinhos: o Mercado Público. 

Nesta sexta-feira (5), um dos principais pontos turísticos da Capital catarinense celebra 122 anos de história. E quanta história.

Mercado Público de Florianópolis celebra 122 anos – Foto: Bruna Stroisch/NDMercado Público de Florianópolis celebra 122 anos – Foto: Bruna Stroisch/ND

Houve um tempo em que o mar batia “logo ali”. Hoje, o que se vê é a intensa passagem de veículos pela Avenida Paulo Fontes e a não menos intensa circulação de pessoas – geralmente, apressadas – pela rua Conselheiro Mafra. É entre essas vias que fica o aniversariante desta sexta-feira.

Nessas décadas de existência, o Mercado Público passou por expansões, reformas, adequações, incêndios e mais recentemente, uma pandemia. Foram cerca de sete meses com as portas fechadas.

Aniversário sem festa

Se não fosse pela pandemia do novo coronavírus, este dia 5 de fevereiro de 2021 teria uma dupla celebração.

A abertura oficial do Carnaval de Florianópolis estava marcada para esta sexta, com a festa do Berbigão do Boca, realizada no espaço do Mercado Público.

Dia 5 de fevereiro é o aniversário de inauguração do Mercado Público – Foto: Bruna Stroisch/NDDia 5 de fevereiro é o aniversário de inauguração do Mercado Público – Foto: Bruna Stroisch/ND

O evento, no entanto, foi cancelado pela organização que se colocou à disposição dos órgãos oficiais para participar de ações que visem diminuir os efeitos da pandemia em Florianópolis.

A organização promete promover a festa no dia 18 de fevereiro de 2022, em comemoração aos 30 anos do Berbigão do Boca.

“Tinha hora pra chegar, mas não pra sair”

Daniel Gonzaga trabalha como gerente em um restaurante no Mercado Público – Foto: Bruna Stroisch/NDDaniel Gonzaga trabalha como gerente em um restaurante no Mercado Público – Foto: Bruna Stroisch/ND

O cancelamento da festa foi sentido por Daniel Gonzaga de Melo Sombra, de 27 anos. Ele trabalha desde 2015 como gerente de um restaurante na praça de alimentação do Mercado Público.

O gerente relembra os tempos de festa do Berbigão, quando as aglomerações no Mercado Público eram sinônimo de alegria e boas vendas.

“Em outros tempos, se você chegasse ao Mercado hoje, às 7h, já teria gente comprando cerveja. Seria difícil conseguir mesas. Já teria bagunça, aglomeração, música alta. A gente tinha hora para chegar ao trabalho, mas não tinha hora para sair”, conta o gerente.

Por conta da pandemia, Daniel diz que o movimento do restaurante reduziu em torno de 50% desde a reabertura. Parte da equipe também teve que ser dispensada. O que salva, segundo ele, são os dias nublados, quando as pessoas saem de casa, mas não vão à praia.

Mesmo com as dificuldades, o gerente menciona as vantagens de trabalhar em um local que recebe, além dos próprios moradores, pessoas de todas as partes do mundo. “Aqui você conhece pessoas de todos os lugares, das mais variadas culturas. Do manezinho ao russo”, diz Daniel.

“Dá saudades”

Quem também relembra os “bons tempos” de festa no Mercado Público é o garçom Luís Mário Fernandes Gonçalves, mais conhecido como Pelé.

Pelé trabalha há cerca de 30 anos em um restaurante na praça de alimentação do Mercado Público.

Ele conta que em dia de Berbigão, a disputa por mesas era grande. Quem não fosse bem sucedido, se contentava em ficar de pé. O importante era curtir a festa.

Seu Pelé trabalha há 30 anos como garçom no Mercado Público – Foto: Bruna Stroisch/NDSeu Pelé trabalha há 30 anos como garçom no Mercado Público – Foto: Bruna Stroisch/ND

“Os manezinhos vinham sempre aqui. Já me procuravam, me chamavam pelo nome. Gosto de interagir com os clientes, até os do exterior. No início de 2020 a gente achava que o movimento ia deslanchar e daí veio a pandemia em março e parou tudo. Dá saudades daqueles tempos”, diz Pelé, com saudosismo.

“Tá voltando, mas devagarzinho”

Vinícius Munhoz, que trabalha há dois anos em uma barbearia no Mercado Público, relata que o movimento está, aos poucos, retornando ao que era antes de março do ano passado.

“Tem bastante turista que passa por aqui. O movimento está voltando, mas devagarzinho. O Mercado é sempre visitado, independente de qualquer coisa. O artesanato e os restaurantes chamam a atenção”, diz Vinícius.

Quem também está otimista com a volta da circulação de pessoas é Anildo do Nascimento, de 53 anos, mais conhecido como Pirão do Mercado. Ele trabalha há 30 anos em uma peixaria.

Anildo do Nascimento, de 53 anos, mais conhecido como Pirão do Mercado – Foto: Bruna Stroisch/NDAnildo do Nascimento, de 53 anos, mais conhecido como Pirão do Mercado – Foto: Bruna Stroisch/ND

Segundo ele, a safra do camarão é uma das razões do maior movimento de pessoas pela ala de pescados do Mercado Público.

“Mercado é uma terapia”

Acordar cedo e se deslocar para o trabalho no Mercado Público é uma espécie de terapia para a artesã e comerciante Elita Catarina Ramos, de 67 anos.

Moradora da Lagoa da Conceição, ela trabalha desde julho de 2015, atrás do balcão de uma loja que vende as tradicionais rendas de bilro.

Com as portas abertas novamente desde outubro, ela conta que o retorno não está sendo fácil, mas desistir não é uma opção. O intuito é manter vivo o ofício que ela aprendeu quando tinha apenas seis anos.

“Trabalhar no Mercado Público é um santo remédio. Eu sou aposentada e já passei por uma depressão. Vir para o Mercado Público é uma terapia para mim”, diz Elita.

Ao lado dela na loja está Edvaldo Pedro de Oliveira, de 64 anos, conhecido como Dinho Rendeiro.  Morador do Pântano do Sul, ele pratica a renda de bilro desde os 15 anos e é considerado o primeiro homem rendeiro da Ilha de Santa Catarina. Seu Dinho chegou a ser tema de documentário vencedor de prêmio.

“É um prazer enorme trabalhar aqui. Encontramos várias pessoas, de diversos países e estados. Eu acabo ficando até mais tarde no trabalho de tanto que eu gosto daqui”, diz o rendeiro.

Seu Dinho conta que o tempo fechado foi uma “tortura” e que, apesar das belezas naturais do Pântano do Sul, é o Mercado Público o seu verdadeiro refúgio.

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