Sérgio da Costa Ramos

Escritor e jornalista, membro da Academia Catarinense de Letras, autor de doze livros de crônicas, e figurou na imprensa diária nas últimas duas décadas.


O sol como remédio

Será que poderemos contar com a estrela fundamental, como redentora dos nossos sonhos?

Tomara que a nossa estrela predileta acenda o seu abajur sobre a Ilha-capital neste fim de semana de seu aniversário. Esperamos que não falte seu lume radiante, prevalecendo sobre a vida triste desse Brasil doente. Será que poderemos contar com a estrela fundamental, como redentora dos nossos sonhos?

O sol volta a aparecer em Santa Catarina – Foto: Foto: Marcos Porto/SecomO sol volta a aparecer em Santa Catarina – Foto: Foto: Marcos Porto/Secom

O gosto de viver só prospera debaixo do sol. Olhem os povos que vivem sob o perpétuo carnegão de nuvens estacionado sobre a Inglaterra, a Bélgica, os países “de la Mancha” – até Lyon, na França, no sisudo hemisfério norte.

Uma permanente cortina de nuvens separa a alegria – a “joie-de-vivre” – da couraça nublada desses soturnos reinos da atmosfera “gris”.As pessoas – hoje confinadas – sentem saudades do tempo em que podiam caminhar livres, aspirando o ar puro que a atmosfera oferecia.

Ali do Largo da Alfândega, centro histórico de Floripa, os andarilhos saudavam o sol poente, sentindo, também, falta do mar. Além do cheiro de maresia, faltava-lhes o som das ondas, marulhando as bordas das canoas ancoradas no Mercado, descarregando peixe. Onde estão as ostras que se grudavam às escadas do Miramar e que escalavam as amuradas do Mercado Público?

Onde estão os “carrinhos-de-cavalo”, que margeavam a Praça Fernando Machado, ali, no sopé da Praça 15, ao som do relinchar dos cavalos brancos (e baios) de Napoleão, puxando as “carruagens” de nossa infância? Onde estão os trapiches da orla – o da Alfândega, o da Rita Maria e o dos Estaleiros Arataca? E a Ilha do Carvão, nossa pequena “Alcatraz”?

Olhar a feição da cidade e descobrí-la desfigurada, vítima da cruel cirurgia do “progresso”, é um grande choque. Neste seus 348 anos de vida, o rosto de Floripa aparece cheio de dentes, cheio de pentes, “alfinetes sobre uma almofada”, como diria o poeta Walt Whitman sobre a Nova York desfigurada pela febre imobiliária.

Quero de volta a Floripa espelhada sobre as águas mansas da baía, ao abrigo de um sol que, no passado, parecia mais disposto e permanente.

Os moleques matavam aula nos dias ensolarados, só para exercitar o “triplo twist esticado” – aqueles lançamentos de pedrinhas que ricocheteavam na lâmina d’água, tantas vezes quantas fosse a destreza do lançador – o que requeria um tanto de balística e outro tanto de algum imponderável “jeitinho”.Havendo sol, haverá felicidade. Havendo sol, haverá vida.Havendo sol, o vírus “maledetto” vai parar de levar os viventes

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