Terreno ocupado por duas grandes sociedades carnavalescas de Florianópolis deve retornar ao Estado

Granadeiros da Ilha e Tenentes do Diabo ocupam um terreno de propriedade do Estado desde 2006

Rosane Lima/ND

Sérgio Murilo Xavier, da Granadeiros da Ilha, teme pelo futuro da entidade

A tradição e história do Carnaval de Florianópolis pedem socorro. Símbolos da folia no século 20, as duas últimas grandes sociedades, Granadeiros da Ilha e Tenentes do Diabo, tentam sobreviver e manter vivas tradições carnavalescas centenárias na cidade. Desde 2006, as duas sociedades ocupam um terreno no bairro Itacorubi, onde montaram seus barracões e onde ficavam antigamente a sede de outra grande sociedade carnavalesca, a Trevos de Ouro. O Estado de Santa Catarina, proprietário do terreno, requer judicialmente a reintegração de posse do local para usá-lo como depósito de bens da Procuradoria-Geral do Estado.

De acordo com o presidente da Granadeiros da Ilha, Sérgio Murilo Xavier, 43 anos, duas ordens de despejo já foram feitas para que as sociedades desocupem o local. “Não quero que essa chama da história do Carnaval de Florianópolis se apague. É um momento de indecisão. Não conseguimos firmar nenhuma parceria, pois não sabemos se vamos ficar aqui e se conseguiremos desfilar”, diz ele, que é neto do criador da sociedade, João dos Passos Xavier. “Ainda tenho a esperança de que consigamos algum acordo para continuar aqui”, comenta o presidente da Tenentes do Diabo, Rodrigo Leifer.

De acordo com Pedro Roberto Abel, diretor de gestão do patrimônio do Estado da secretaria estadual de administração, o terreno é de posse do Deinfra e foi cedido à Procuradoria Geral do Estado de SC. “O juiz já deferiu a reintegração de posse e as sociedades podem sair a qualquer momento”, diz ele. No fim do ano passado, a Procuradoria entrou na Justiça pedindo a reintegração de posse e a ação é julgada na 3ª Vara Pública da Comarca de Florianópolis.

No mesmo terreno, a Sociedade Orquidófila de Florianópolis ocupa um barracão ao lado das agremiações desde 2002. A cessão de uso por 20 anos do lado sul do galpão foi garantida em lei (nº 12.457) para a associação pelo então governador do Estado Espiridião Amin. De acordo com a lei, a cessão foi concedida pois é um local apropriado para a “prática e desenvolvimento de pesquisas científicas das orquidáceas, bem como para reuniões e eventos sociais”. Segundo Sérgio Xavier, as sociedades se mudaram para o local em 2006 com o apoio da prefeitura de Florianópolis.

Casa da Memória/ND

Carro da rainha do Grandeiros em desfile de 1960

Em busca de recursos e casa nova

Até se mudar para o terreno no Itacorubi, em 2006, a Granadeiros da Ilha funcionava em um barracão no morro da Mariquinha, desde sua criação, na década de 1940. As atividades das grandes sociedades, incluindo a Trevos de Ouro e a Limoeiros, foram paralisadas em 1993. Pelos 13 anos seguintes, elas deixaram de participar do Carnaval da cidade. Somente em 2006, com apoio da prefeitura, a Granadeiros e a Tenentes do Diabo voltaram a desfilar, mas paralisaram novamente suas atividades em 2013 por conta da não realização do Carnaval na cidade naquele ano e por falta de verbas em 2014.

“Somos uma sociedade sem fins lucrativos, fazemos oficinas para as crianças da comunidade aqui no fim de semana. Carnaval não é só escola de samba, também é Berbigão do Boca, Bloco SOS e as grandes sociedades”, comenta Sérgio Xavier.

De acordo com Rodrigo Leifer, presidente da Tenentes do Diabo, no último desfile das agremiações, em 2012, cada uma recebeu R$ 60 mil da prefeitura e, nos dois anos seguintes, não houve mais repasses. “O poder público tem o dever de fazer a manutenção das grandes sociedades. Fazemos projetos via iniciativa privada, mas é tudo muito burocrático. Como patrimônios culturais e imateriais do município, nada mais justo que a prefeitura dê subvenção para cada agremiação. É uma tradição da cidade, temos muita história. Não me movimento mais, pois cansei de tanto ir de porta em porta e não conseguir nada”, explica ele.

Leifer diz que está preparando uma documentação para entregar nas próximas semanas à Secretaria de Turismo de Florianópolis (Setur) solicitando R$ 30 mil para realizar desfiles ao redor da Praça 15 e no bairro Coqueiros, mas sem os carros alegóricos, somente com a banda. Segundo a prefeitura, os editais para o pedido de apoio ao Carnaval estão previstos para serem lançados no dia 14 de novembro. Por isso, os blocos e sociedades que tiverem interesse em participar do processo deverão seguir as orientações e prazos estipulados pela prefeitura. “Só após esse processo de análise e entrega de documentação é que poderemos informar sobre a possibilidade de receberem, ou não, os recursos públicos”, comunicou a assessoria de imprensa da Setur. Sérgio diz que solicitou ao secretário da SOL (Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esporte), Filipe Mello, auxílio para conseguir um outro terreno capaz de abrigar as sociedades mas, por meio de sua assessoria de imprensa, o secretário disse que não há nenhuma tratativa neste sentido pela SOL. 

As duas grandes sociedades que ainda sobrevivem

Granadeiros da Ilha – Fundada em 6 março de 1948 por João dos Passos Xavier, avô do atual presidente Sérgio Xavier, a Granadeiros faz uma homenagem em seu nome aos combatentes que defenderam a antiga Desterro (granadeiros são soldados especializados em lançar granadas). No brasão, apresenta a Ilha de Santa Catarina e uma granada como símbolo. Em 25 de abril de 1968 foi declarada como utilidade pública de Florianópolis pela lei nº 866/68.

Tenentes do Diabo – Fundada em 5 de março de 1905 por militares do exército transferidos do Rio de Janeiro para Florianópolis, a Tenentes do Diabo abrigou-se inicialmente nos altos da rua Felipe Schmidt, próximo à ponte Hercílio Luz, e os desfiles eram realizados na Praça 15. Na década de 1970, a agremiação foi transferida para um terreno próximo à Assembleia Legislativa e depois para um terreno próximo ao Veleiros da Ilha. Nesta época alcançou nove títulos seguidos, de 1970 até 1978. Em 1993 foi desapropria para dar lugar às obras dos túneis da via expressa sul. Em 2006, voltou a desfilar. Teve em sua história carnavalescos como David Gevaerd, responsável pelos carros de mutação, João Cheiroso e Donga. Em 11 de agosto de 2008, a agremiação também foi declarada como utilidade pública de Florianópolis pela lei nº 7685/08. 

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