Sérgio da Costa Ramos

Escritor e jornalista, membro da Academia Catarinense de Letras, autor de doze livros de crônicas, e figurou na imprensa diária nas últimas duas décadas.


Uma arte mané: Floripa já nasceu bem-humorada

Famoso pelo uso da bengala, Hercílio credenciou-se com Floriano, mas mereceu a ironia do povo

Pode não ser politicamente correto. Mas não deixa de ser uma arte, essa propriedade do ilhéu encontrar um apelido perfeito para qualquer vivente.
Floripa já nasceu bem-humorada.

O homem que governou Santa Catarina duas vezes, Hercílio Luz, crismou-a com o nome de um algoz, Floriano Peixoto, o “Marechal de Ferro”. Homenageou, assim, o presidente da República, contra a vontade da imensa maioria dos manés.

Barra da Lagoa, em Florianópolis – Foto: Daniel Queiroz/Arquivo NDBarra da Lagoa, em Florianópolis – Foto: Daniel Queiroz/Arquivo ND

Famoso pelo uso da bengala, Hercílio credenciou-se com Floriano, mas mereceu a ironia do povo:

– Bengala de saco! – alcunhou-o o Mané, aludindo ao hábito dos políticos sempre optarem por “puxar” os mais graúdos.

Lendária bengala, que presidia as reuniões do secretariado e – não raro – descia sobre as mãos ou o lombo de algum secretário – o que os levava a um perpétuo receio, antes das reuniões:

– O homem está “armado”?

Velha Floripa, de nomes e apelidos. A rua Bocaiúva um dia se chamou, popularmente, “Rua do Sebastião”. A Almirante Lamego era a “Rua de Sant’Ana”. A avenida Mauro Ramos atendia pelo nome trivial de “Rua das Carreiras” ou “Das Olarias”. E a Fernando Machado registrou-se nesse cartório urbano como “Rua do Vigário”, certamente porque pavimentava o caminho rumo à Catedral. E não porque o vigário fosse capaz de algum “conto”.

Vivi a infância nos anos 1950 do século 20 – e pude conviver com a paisagem única de uma cidade bucólica, beijada pelo mar, ruas estreitas e tipos populares – figuras colhidas no relicário felliniano de “Amarcord”. Tipos que eram chamados “por apelido”.

Os apelidos nasciam da criativa lavra do mais genuíno humor ilhéu. Um homem tido como “de dotes cavalares” carregava o apelido de “Se tens intrigas não me digas, se tens segredos não me negues.”. Alusão ao seu documento viril, que exigia especial engenho do alfaiate, para esconder os “volumes”. O homem circulava também com a hilariante alcunha de “o segredinho do alfaiate”…

Alguns dos apelidos mais conhecidos eram portados por andarilhos do centro da cidade, como o “Curvina”, que corria atrás da molecada, o apelido entoado em coro, como se fosse o verso de um jogral. A gorda “Barca Quatro”, úberes imensos, língua afiada, cuspia em quem a chamasse “de apelido”.

A super-maquiada “Lídia Traça”, vestidos de melindrosa e o dorso sempre coberto de peles, parecia uma caricatura em tintas carregadas, como se fosse uma máscara “para colorir”. O “Leonardo da Farmácia”, homossexual estigmatizado e “inticado” pela molecada, era  o farmacêutico titular do estabelecimento térreo do Cacique Hotel, em plena Felipe Schmidt.

E havia os tipos super-populares, como o  “Marrequinha”, divertindo a cidade como guarda de trânsito, “multando” os forasteiros que acreditavam em sua pantomima.

O “Adolfo”, que se arrogava proprietário de todos os carros da cidade – e que se gabava de “ter feito negócio com o doutor Aderbal Ramos da Silva”. O “Capa Preta” – identidade nunca apurada – assombrava as noites de lua cheia, assustando as mocinhas que se atreviam a ir ao cinema noturno, no Ritz, São José ou no cine do Clube Doze.

O “Boca da Noite”,  rosto tomado pela bexiga, exibia cicatrizes de varíola que transformavam Daniel Pinheiro numa espécie de “Fantasma da Ópera” citadino. Sua voz grossa e cavernosa, fazia tremer as crianças num simples “bom dia”.

Das ruas já não ecoam os velhos pregões do padeiro, do peixeiro – tainhas nas carroças forradas de areias finas – e do amolador de facas e tesouras. Gritos de um tempo em que, apesar de mansa, a rua do pintor Victor Meirelles era mais conhecida como “Rua da Pedreira” ou “Rua dos Artífices Bélicos”. A uma quadra do quinto Distrito Naval.

Os tipos e os apelidos foram desaparecendo, tragados pela impessoalidade da nova metrópole, seus perfis foram empalidecendo, sumindo, à semelhança dos  desenhos pontilhados de um gibi. Os gritos de seus personagens foram abafados, como os da garganta de um condenado.