Sérgio da Costa Ramos

Escritor e jornalista, membro da Academia Catarinense de Letras, autor de doze livros de crônicas, e figurou na imprensa diária nas últimas duas décadas.


Uma ópera sacra

Nada igualava as artes tradicionais da procissão desfilando sobre tapetes. Veremos ainda hoje esta tradição repetida?

Sapato novo. Calça curta. Gel (gumex) no cabelo. Faixa amarela da Cruzada Eucarística atravessando o peito. Multidões nas calçadas, acompanhando a procissão, numa quinta-feira como esta.

Nas ruas, areias brancas e finas, tingidas. Conchas, folhas de bananeira, serragem, “barbas de velho” debruando o canteiro. Os tapetes de Corpus Christi eram o atestado da fé das Filhas de Maria, o devotado suor dos irmãos e das irmãs, transformados em mestres ourives das artes sacras.

Alimentos na missa de Corpus Christi na Paróquia São Judas Tadeu – Foto: Divulgação/NDAlimentos na missa de Corpus Christi na Paróquia São Judas Tadeu – Foto: Divulgação/ND

Nada igualava as artes tradicionais da procissão desfilando sobre tapetes. Veremos ainda hoje esta tradição repetida?

O feriado de quinta-feira convidava ao exercício da fé e da reflexão. Mas o que atraía os meninos da Cruzada Eucarística do Colégio Catarinense não eram os tapetes ornamentais, cuidadosamente arranjados pelas artesãs de Deus. Era cometer pecadilhos veniais, transgredir, pisar no trilho daqueles canteiros proibidos, privilégio único de D. Joaquim Domingues Belleza de Oliveira, o Quincas Belleza, arcebispo metropolitano. O Belleza, com dois “eles” não era apelido, como se pensava. Era sobrenome de origem portuguesa.

Sob o abrigo do pálio, “casinha ambulante” dentro da qual se alojavam o Redentor, a Eucaristia e os políticos, o “cercadinho” era sofregamente disputado pelos candidatos a postos eletivos. Segurar o pálio equivalia a uma indulgência plena, espécie de “Ficha Limpa” com o Senhor.

– “Queremos Deus, homens ingratos”! – dizia o refrão do hino sacro, entoado a plenos pulmões pelos jovens cruzados.

Essa reverente cortina musical, pontuada pela tuba da Banda da Polícia Militar, transformava-se na senha para a debandada dos transgressores, que já haviam pisoteado os tapetes e trocado a contrição pela descontração. Na altura do Poema Bar, ali na cabeceira da Praça XV, à direita da Catedral, os fugitivos abandonavam o cortejo, imiscuindo-se com os fiéis que o assistiam.

O chamariz irresistível estava na rua Padre Miguelinho, ao lado da Cúria Metropolitana: o celulóide completo de “Sinbad, o Marujo”, legítimo “capa e espada marítimo”, com Douglas Fairbanks Junior, Maureen O’Hara e Antony Queen –  “filme de pirata” do Cine Roxy, em contraste com a atmosfera de contrição e recolhimento.

Passado o feriadão, a “galera” voltava ao Colégio Catarinense, imaginando-se imune a punições, persuadida de que cometera o crime perfeito. Até que padre Jeremia, o Pomboca, atirasse sua seta embebida pelo veneno da vingança:

– Para quem foi ver “Sinbad, o Marujo” na hora da procissão, tirem uma folhinha…

– Tema de redação, valendo nota: “Um Cruzado não pode ser um Infiel!”…

Caprichei na redação. Mas o anjo vingador, “Jeremia”, (seu nome era assim, “no singular”), não estava abençoado pela generosidade do perdão.

Tirei uma nota medíocre, principalmente pelo atrevimento e sinceridade em elogiar o filme. Como numa redação maluca do Enem, concluí:

– Os piratas do Roxy também devem ter assistido a procissão, pois todos tinham um bom coração…

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